Páginas

Um antegozo da Glória Futura – Jonathan Edwards


Quanto mais um verdadeiro cristão ama a Deus, mais deseja amá-10 e mais inquieto fica por sua falta de amor por Ele. Quanto mais um verdadeiro cristão odeia o pecado, mais deseja odiá-lo e se desagrada por ainda o amar tanto. No máximo, os cristãos têm nesta vida um antegozo de sua futura glória. O crente mais destacado é somente uma criança comparado com o que será no céu. É por isso que os mais altos graus de santidade alcançados pelos crentes neste mundo não extinguem seu desejo por obter santidade ainda maior. De fato, tornam-se mais ávidos a seguir em frente: "Uma coisa faço: esquecendo--me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este sentimento" (Fil. 3:13-15).

Alguns podem contra-argumentar: "Como pode esse empenho incessante ser consistente com a satisfação trazida pelo prazer espiritual?" Não há inconsistência nisso. O prazer espiritual satisfaz a alma no que diz respeito a:

(i) O prazer espiritual é perfeitamente adaptado à natureza e às necessidades da alma humana. A pessoa que tem esse prazer nunca se cansa dele. É a alegria mais profunda e ela nunca a trocaria por qual¬quer outra; isso não significa, entretanto, que uma pessoa ao experi¬mentar algum prazer espiritual não deseje mais do mesmo prazer.

(ii) O prazer espiritual responde às nossas expectativas; grande desejo produz grande expectativa. Quando recebemos alguma alegria mundana que desejamos muito, ela muitas vezes nos desaponta, no entanto, isso não ocorre com os prazeres espirituais! Sempre estão de acordo com nossas expectativas.

(iii) O prazer espiritual satisfaz a alma até o limite em que é capaz de receber satisfação. Mesmo assim, há espaço para a capacidade da alma expandir-se infinitamente. Se não estivermos satisfeitos espiritualmente na medida como poderíamos ser, o erro é nosso. Não estamos abrindo nossa boca o suficiente.
O prazer espiritual, então, satisfaz de fato a alma nesses aspectos. Ele vem de encontro às nossas necessidades mais profundas; está de acordo com nossas expectativas e nos enche de acordo com nossa capacidade a receber. Tudo isso é perfeitamente coerente com estar sempre sedento por mais, até que nosso prazer se torne perfeito.

As alegrias da religião falsa são diferentes. Quando convicto de pecado e temeroso do inferno, a pessoa pode desejar luz espiritual, fé em Cristo, amor por Deus. Quando experiências falsas levam-no a pensar que está salvo, contenta-se com isso. A pessoa não deseja mais graça e santidade, especialmente se suas experiências tiverem sido muito impressionantes. Não vive para Deus e Cristo no presente, mas vive em dependência de sua conversão no passado.

O verdadeiro cristão é totalmente diferente. Está constantemente procurando a Deus. De fato, "Aqueles que buscam a Deus" é uma das formas em que a Bíblia descreve os verdadeiros crentes. "Vejam isso os aflitos, e se alegrem: quanto a vós outros que buscais a Deus, que o vosso coração reviva" (Sal. 69:32). "Folguem e em ti se rejubilem todos os que te buscam" (Sal. 70:4). As Escrituras delineiam a procura e a diligência do cristão como algo que ocorre principalmente depois de sua conversão. As Escrituras estão tratando daqueles que já são cristãos, quando fala sobre correr a corrida, lutar com principados e poderes, levar avante, continuar em oração, clamar a Deus dia e noite. Infelizmente, muitos hoje caíram num modo de falar não bíblico, como se todas as suas lutas e diligências fossem antes de suas conversões e agora, como cristãos, tudo é paz e tranqüilidade.

Sem dúvida, alguns hipócritas dirão que constantemente procuram mais de Deus, de Cristo e da santidade, mas um hipócrita não procura, de fato, coisas espirituais, por amor a elas mesmas. Ele sempre tem uma razão centrada em si mesmo. Ele quer melhores experiências espirituais pela auto-confiança que trazem, ou porque lisonjeiam-no como um favorito de Deus. Quer sentir o amor de Deus por ele, em vez de ter maior amor por Deus. Por saber que os verdadeiros cristãos devem ter certos desejos, ele os imita. Entretanto, um desejo por experiência, ou por um sentimento do amor de Deus, ou pela morte e o céu, não são os sinais mais confiáveis de um verdadeiro cristão. O melhor sinal é um desejo por um coração mais santo e uma vida mais santa.
Ler Mais

David Brainerd - Um Coração Quebrantado – Jonathan Edwards


Em algum tempo, no começo do inverno de 1738, agradou a Deus, em um sábado pela manhã, quando eu partia para cumprir meus deveres secretos, dar-me, de repente, um tal senso de meu perigo e da sua ira que fiquei admirado, e logo desapareceram minhas confortáveis disposições anteriores. Diante da visão que tive de meu pecado e vileza, fiquei muito aflito durante todo aquele dia, temendo que a vingança de Deus em breve me alcançaria. Senti-me muito abatido, mantendo-me solitário; cheguei a invejar a felicidade das aves e dos quadrúpedes, pois não estavam sujeitos àquela miséria eterna, como evidentemente eu via que estava sujeito. E assim ia vivendo dia a dia, freqüentemente em grande aflição. As vezes parecia que montanhas obstruíam minhas esperanças de misericórdia e a obra de conversão parecia tão grande que pensei que nunca seria o objeto dela. No entanto, costumava orar, clamar a Deus e realizar outros deveres com grande ardor; assim esperava, por alguns meios, melhorar a minha situação.

Por centenas de vezes renunciei a todas as pretensões de qualquer valor em meus deveres, ao mesmo tempo em que os realizava; e com freqüência confessei a Deus que eu nada merecia pelos melhores deles, a não ser a condenação eterna; ainda assim tinha uma esperança secreta de recomendar-me a Deus mediante os meus deveres religiosos. Quando orava emotivamente e meu coração, em alguma medida, parecia enternecer-se, esperava que, por causa disso, Deus teria piedade de mim. Nessas ocasiões, havia alguma aparência de bondade em minhas orações, e eu parecia estar lamentando pelo pecado. Em alguma medida aventurava-me na misericórdia de Deus em Cristo, como eu pensava, ainda que o pensamento preponderante, o alicerce de minha esperança, era alguma imaginação de bondade em meu enternecimento de coração, no calor de meus afetos e na extraordinária dilatação de minhas orações.

Havia momentos em que a porta me parecia tão estreita que eu via como impossível entrar; mas noutras ocasiões lisonjeava-me, dizendo que não era assim tão difícil, e esperava que, por meio da diligência e da vigilância, acabaria conseguindo. Algumas vezes, depois de muito tempo em devoções e em forte emoção, achava que tinha dado um bom passo na direção do céu e imaginava que Deus fora afetado assim como eu, e ouviria tais sinceros clamores, como eu os chamava. E assim, por várias vezes, quando me retirava para oração secreta, em grande aflição, eu voltava confortado; e desta forma procurava curar a mim mesmo com meus deveres.

Certa ocasião, em fevereiro de 1739, separei um dia para jejum e oração secretos, e passei aquele dia em clamores quase incessantes a Deus, pedindo misericórdia, para que Ele me abrisse os olhos para a malignidade do pecado e para o caminho da vida, por meio de Jesus Cristo. Naquele dia, Deus agradou-se em fazer para mim notáveis descobertas em meu coração. No entanto, continuei confiando na prática dos meus deveres, embora não tivessem nenhuma virtude em si, não havendo neles qualquer relação com a glória de Deus, nem tal princípio em meu coração. Contudo, aprouve a Deus, naquele dia, fazer de meus esforços um meio para mostrar-me, em alguma medida, minha debilidade.

Algumas vezes eu era grandemente encorajado e imaginava que Deus me amava e se agradava de mim, e pensava que em breve estaria completamente reconciliado com Deus. Mas tudo isto estava fundamentado em mera presunção, surgindo da ampliação nos meus deveres, ou do calor das afeições, ou de alguma boa resolução, ou coisas similares. E quando, às vezes, grande aflição começava a surgir baseada na visão da minha vileza e incapacidade de livrar a mim mesmo de um Deus soberano, então costumava adiar a descoberta como algo que não podia suportar. Lembro-me que, certa vez, fui tomado por uma terrível dor de aflição de alma; a idéia de renunciar a mim mesmo, permanecendo nu diante de Deus, despido de toda bondade, foi tão temível para mim que estive pronto a dizer, como Félix disse a Paulo: "Por agora podes retirar-te" (Atos 24.25).

Assim, embora diariamente anelasse por uma maior convicção de pecado, supondo que tinha de perceber mais do meu temível estado para que pudesse remediá-lo, quando as descobertas do meu ímpio coração foram feitas, a visão era tão aterradora, e mostrava-me tão cristalinamente minha exposição à condenação, que não podia suportá-la. Eu constantemente esforçava-me por obter quaisquer qualificações que imaginava que outros obtiveram antes de receberem a Cristo, a fim de recomendar-me ao seu favor. De outras vezes, sentia o poder de um coração empedernido e supunha que o mesmo tinha de ser amolecido antes que Cristo me aceitasse; e quando sentia quaisquer enternecimentos de coração, então esperava que daquela vez a obra estivesse quase feita. E, portanto, quando a minha aflição permanecia, eu costumava murmurar contra a maneira como Deus lidava comigo, e pensava que quando outros sentiam seus corações favoravelmente amolecidos, Deus mostrava-lhes sua misericórdia para com eles; mas a minha aflição ainda permanecia.

Às vezes ficava desleixado e preguiçoso, sem quaisquer grandes convicções de pecado, e isso por considerável período de tempo; mas depois de tal período, algumas vezes as convicções me assediavam mais violentamente. Lembro-me de certa noite em particular, quando caminhava solitariamente, que delineou-se diante de mim uma tal visão de meu pecado, que temi que o solo se abrisse debaixo de meus pés e se tornasse a minha sepultura, mandando minha alma rapidamente ao inferno, antes que eu pudesse chegar em casa. Forçado a recolher-me ao leito para que outras pessoas não viessem a descobrir minha aflição de alma, o que eu muito temia, não ousei dormir, pois pensava que seria uma grande maravilha se eu não amanhecesse no inferno. Embora minha aflição às vezes fosse tão grande, todavia eu temia muito a perda de convicções, e de retroceder a um estado de segurança carnal e à minha anterior insensibilidade da ira iminente. Isto fazia-me extramente rigoroso em meu comportamento, temendo entravar a atuação do Santo Espírito de Deus.

Quando, a qualquer momento, eu examinava minhas próprias convicções, julgando-as consideravelmente fortes, acostumei-me a confiar nelas. Mas essa confiança, bem como a esperança de em breve fazer alguns avanços notáveis na direção do meu livramento, tranquilizava minha mente e logo tornava-me insensível e remisso. Mas de novo, quando notava que as minhas convicções estavam fenecendo, julgando que estavam prestes a abandonar-me, imediatamente me alarmava e afligia. Algumas vezes esperava dar uma larga passada, avançando muito na direção da conversão, por meio de alguma oportunidade ou meio particular que tinha em vista.

Os muitos desapontamentos, as grandes aflições e perplexidades que experimentei deixavam-me em uma horrenda disposição de conflito com o Todo-Poderoso; e com veemência e hostilidade interiores achava falhas em suas maneiras de tratar com a humanidade. Meu coração iníquo por muitas vezes desejava algum outro caminho de salvação que não fosse por Jesus Cristo. Tal como um mar tempestuoso, com meus pensamentos confusos, eu costumava planejar maneiras de escapar da ira de Deus por alguns outros meios. Eu traçava projetos estranhos, repletos de ateísmo, planejando desapontar os desígnios e decretos divinos a meu respeito ou de escapar de sua atenção e ocultar-me dEle.

Mas ao refletir vi que estes projetos eram vãos e não me serviriam, e que eu nada poderia criar para meu próprio alívio; isso jogava minha mente na mais horrenda atitude, desejando que Deus não existisse, ou desejando que houvesse algum outro deus que pudesse controlá-Lo. Tais pensamentos e desejos eram as inclinações secretas do meu coração, por muitas vezes atuando antes que pudesse dar-me conta delas. Infelizmente, porém, elas eram minhas, embora ficasse aterrorizado quando meditava a respeito delas. E quando refletia, afligia-me pensar que meu coração estivesse tão cheio de inimizade contra Deus; e estremecia, temendo que sua vingança subitamente caísse sobre mim.

Antes costumava imaginar que meu coração não era tão mau quanto as Escrituras e alguns outros livros o descreviam. Algumas vezes, esforçava-me dolorosamente para moldar uma boa disposição, uma disposição humilde e submissa; e esperava houvesse alguma bondade em mim. Mas, de súbito, a idéia da rigidez da lei ou da soberania de Deus irritava tanto a corrupção do meu coração, o qual eu tanto vigiara e esperava ter trazido à uma boa disposição, que tal corrupção rompia todas as algemas, e explodia por todos os lados, como dilúvios de águas quando desmoronam uma represa.

Sensível à necessidade de profunda humilhação a fim de ter uma aproximação salvadora, empenhava-me por produzir em meu próprio coração as convicções exigidas por tal humilhação, como, por exemplo, a convicção de que Deus seria justo se me rejeitasse para sempre, e que se Ele concedesse misericórdia a mim, seria pura graça, embora primeiro eu tivesse de estar aflito por muitos anos e muito atarefado em meu dever, e que Deus de modo algum estava obrigado a ter piedade de mim, por todas as minhas obras, clamores e lágrimas passadas.

Eu me esforçava ao máximo para trazer-me a uma firme crença nessas coisas e a um assentimento delas de todo o coração. E esperava que agora eu estaria livre de mim mesmo, verdadeiramente humilhado, e prostrado diante da soberania divina. Estava inclinado a dizer a Deus, em minhas orações, que agora tinha exatamente essas disposições de alma que Ele requeria, com base nas quais Ele mostrara misericórdia para com outros, e alicerçado nisto implorar e pleitear misericórdia para mim. Porém, quando não achava alívio e continuava oprimido pelo pecado e pelos temores da ira, minha alma entrava em tumulto, e meu coração rebelava-se contra Deus, como se Ele estivesse me tratando duramente.

Mas então minha consciência insurgia-se, fazendo-me lembrar de minha última confissão a Deus de que Ele era justo ao me condenar. E isso, dando-me uma boa visão da maldade de meu coração, jogava-me novamente em aflição; desejava ter vigiado mais de perto meu coração, impedindo-o de rebelar-se contra a maneira como Deus estava me tratando. E até mesmo chegava a desejar não ter pedido misericórdia com base em minha humilhação, porque, desse modo, perdera toda a minha aparente bondade. Assim, por muitas vezes inutilmente imaginava que estava humilhado e preparado para a misericórdia salvadora.
Ler Mais

Pelos Frutos Conhecereis – Jonathan Edwards (1703 -1758)


A prática cristã é o principal sinal pelo qual podemos julgar a sinceridade de cristãos professos. As Escrituras são muito claras sobre isso. "Pelo seus frutos os conhecereis" (Mat 7:16), "Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom, ou a árvore má e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore" (Mat. 12:33). Em nenhum lugar Cristo diz: "Conhecereis a árvore por suas folhas e flores. Conhecereis os homens pelo que dizem, pelas histórias que contam de suas experiências, por suas lágrimas e expressões emocionais". Não! "Pelos seus frutos os conhecereis. Pelo fruto se conhece a árvore."

Cristo nos aconselha que procuremos pelos frutos da prática cristã nos outros. Também nos exorta que devemos mostrar esse fruto aos outros em nossas próprias vidas. "Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus" (Mat. 5:16). Cristo não diz: "Assim brilhe também a vossa luz, exprimindo aos outros seus sentimentos e experiências." É quando os outros vêem nossas boas obras que glorificarão nosso Pai que está nos céus.

O restante do Novo Testamento diz o mesmo. Por exemplo, em Hebreus lemos sobre aqueles que foram iluminados, provaram o dom celestial e assim por diante, e caíram (Heb. 6:4-8). Então, no versículo 9 diz: "Quanto a vós outros, todavia, ó amados, estamos persuadidos das coisas que são melhores e pertencentes à salvação." Por que o escritor de Hebreus estava tão confiante que a fé deles era verdadeira e que eles não cairiam? Por causa de sua prática cristã. Vejam o versículo 10: "Porque Deus não é injusto para ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o seu nome, pois servistes e ainda servis aos santos."

Encontramos o mesmo ensinamento em Tiago. "Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras?" (Tg. 2:14). Tiago está nos dizendo que não adianta dizer que temos fé, se não mostrarmos nossa fé pelas boas obras. Tudo o que dizemos será inútil, se não for confirmado pelo que fazemos. Testemunhos pessoais, histórias sobre nossos sentimentos e experiências - tudo inútil sem boas obras e prática cristã.

De fato, isto é bom senso. Todos sabemos que "ações falam mais alto que palavras." Isso se aplica tanto ao domínio espiritual quanto ao natural. Imagine duas pessoas, uma parece andar humildemente perante Deus e os homens, viver uma vida que fala de um coração penitente e contrito; é submissa a Deus na aflição, mansa e gentil para com os outros homens. A outra fala sobre quão humilde é, como se sente condenada pelo pecado, como se prostra no pó perante Deus, etc; não obstante, se comporta como se fosse o cabeça de todos os cristãos da cidade! É mandona, importante perante ela mesma e não suporta crítica. Qual dessas duas dá a melhor demonstração de ser uma verdadeira cristã? Não é falando às pessoas sobre nós mesmos que demonstramos nosso cristianismo. Palavras custam pouco. É pela dispendiosa e desinteressada prática cristã que mostramos a autenticidade de nossa fé.

Estou supondo, é claro, que essa prática cristã existe numa pessoa que diz acreditar na fé cristã, pois o que estamos testando é a sinceridade daqueles que se dizem cristãos. Uma pessoa não pode proclamar-se cristã sem reivindicar certas coisas. Não iríamos - e não deveríamos - aceitar como cristão alguém que negue as doutrinas cristãs essenciais, não importa quão bom e santo ele pareça. Junto com a prática cristã, deve haver uma aceitação das verdades básicas do evangelho. Essas incluem crer que Jesus é o Messias, que morreu para satisfazer a justiça de Deus contra nossos pecados, e outras doutrinas dessa ordem. A prática cristã é a melhor prova da sinceridade e salvação daqueles que dizem acreditar nessas verdades, mas não prova coisa alguma sobre a salvação daqueles que as negam!

Eu só acrescentaria o que já disse antes (Parte dois, capítulo 12), que nenhuma aparência exterior é sinal infalível de conversão. A prática cristã é a melhor evidência que temos de que um cristão professo é um cristão verdadeiro. Leva-nos a acreditar em sua sinceridade e aceitá-lo como irmão em Cristo. Mesmo assim, não é prova cem por cento infalível. Para começar, não podemos ver todo o comportamento manifestado de uma pessoa; muito dele está escondido do mundo. Não podemos ver dentro do coração da pessoa para ver seus motivos. Não podemos estar certos até que ponto pode ir uma pessoa não convertida na aparência exterior de cristianismo. Contudo, se pudéssemos ver toda a prática que a consciência da própria pessoa conhece, poderia então ser um sinal infalível de sua condição de pessoa salva. 

Ler Mais

Interesse próprio ou amor a Deus? Jonathan Edwards


O PROPÓSITO DE EMOÇÕES ESPIRITUAIS É A BELEZA DAS COISAS ESPIRITUAIS, NÃO O NOSSO PRÓPRIO INTERESSE

Não pretendo excluir todo interesse pessoal das emoções espirituais, mas seu lugar é secundário. O objetivo fundamental das emoções espirituais é a excelência e beleza das coisas espirituais como são em si mesmas, não a relação que têm com o nosso interesse pessoal.

Alguns dizem que todo amor resulta do amor de si mesmo. É impossível, dizem, para qualquer pessoa amar a Deus sem que o amor por si mesmo esteja à raiz de tudo. De acordo com essas pessoas, quem quer que ame a Deus e deseje comunhão com Ele e deseje a Sua glória, deseja estas coisas somente a propósito de sua felicidade. Assim, um desejo pela própria felicidade (amor a si próprio) está na base do amor por Deus. Entretanto, aqueles que dizem isso deveriam perguntar-se porque uma pessoa colocaria sua felicidade em dependência da comunhão com Deus e Sua glória. Certamente isso é o efeito do amor a Deus. Uma pessoa tem de amar a Deus antes de perceber a comunhão com Ele e Sua glória como a sua própria felicidade.

E claro que existe um tipo de amor por outra pessoa que surge do amor por si mesmo. Isso ocorre quando a primeira coisa que atrai o nosso amor por alguém é algum favor que nos tenha demonstrado ou algum presente que nos deu. Nesse caso, o amor a si mesmo certamente está à raiz do amor ao outro. É completamente diferente quando a primeira coisa que atrai o nosso amor ao outro é nosso apreço por suas qualidades, que são lindas em si mesmas.

O amor a Deus que emana essencialmente do amor a si mesmo não pode ser de natureza espiritual. O amor próprio é um princípio puramente natural. Existe nos corações de demônios como nos de anjos. Assim, nada pode ser espiritual se for meramente resultado do amor a si mesmo. Cristo fala sobre isso em Luc. 6:32: "Se amais os que vos amam, qual é a vossa recompensa? Porque até os pecadores amam aos que os amam."

A causa mais profunda do verdadeiro amor a Deus é a suprema beleza da natureza divina. É a única coisa razoável a se acreditar. O que faz, principalmente, um homem ou qualquer criatura belo é sua excelência. Certamente a mesma coisa é verdadeira no que diz respeito a Deus. A natureza de Deus é infinitamente excelente; é beleza, fulgência e glória infinitas em si mesmas. Como podemos amar corretamente a excelência e beleza de Deus se não o fazemos por causa delas mesmas. Aqueles cujo amor a Deus é baseado na utilidade que Deus tem para eles mesmos, estão partindo do ponto errado. Estão vendo a Deus somente do ponto de vista do interesse próprio. Falham em apreciar a glória infinita da natureza de Deus, que é a fonte de toda a bondade e toda a beleza.

O amor natural a si mesmo pode produzir muitas emoções dirigidas a Deus e a Cristo, onde não há apreciação da beleza e glória da natureza divina. Por exemplo, amor por si mesmo pode produzir uma gratidão meramente natural a Deus. Isso pode ocorrer por idéias erradas sobre Deus, como se Ele fosse somente amor e misericórdia, sem justiça vingadora, ou como se Deus estivesse obrigado a amar uma pessoa pelos seus merecimentos. Desse ponto de vista, os homens podem amar a um deus criado por sua própria imaginação, quando não têm nenhum amor pelo Deus verdadeiro.

Mais uma vez, o amor próprio pode produzir um amor a Deus mediante a falta de convicção de pecado. Algumas pessoas não têm qualquer percepção da perversão do pecado, nem da infinita e santa aversão de Deus ao pecado. Pensam que Deus não tem padrões mais altos que os deles! Assim, dão-se bem com Ele, mas amam a um deus imaginário, não ao Deus verdadeiro. Existem também outros cujo amor a si mesmos produz um tipo de amor a Deus, simplesmente pelas bênçãos materiais que recebem de Sua providência. Nisso também não há qualquer coisa espiritual!

Além disso, outros sentem um amor vigoroso por Deus, por crerem fortemente que Ele os ama. Depois de passarem por grande desespero e medo do inferno, podem subitamente começar a crer que Deus os ama, perdoou seus pecados e os adotou como Seus filhos. Isso pode ocorrer por uma impressão em suas imaginações, ou uma voz falando de dentro deles, ou de alguma outra forma não bíblica. Se você perguntar a essas pessoas se Deus é amável e excelente em Si mesmo, podem perfeitamente dizer que sim. Entretanto, a verdade é que sua boa opinião sobre Deus foi obtida pela grande benção que imaginam ter recebido dEle. Permitem que Deus seja amável nEle mesmo, somente porque Ele os perdoou e os aceitou, ama-os tanto e prometeu levá-Los ao céu. É fácil amar a Deus e dizer que Ele é amável quando acreditam nisso. Qualquer coisa é amável para uma pessoa interesseira quando promove o seu próprio interesse.

O verdadeiro amor espiritual por Deus surge nos cristãos de um modo completamente diferente. Cristãos verdadeiros não vêem primeiro que Deus os ama e depois descobrem que Ele é amável. Vêem primeiro que Deus é amável, que Cristo é excelente e glorioso. Seus corações são primeiramente cativados por essa visão de Deus e seu amor por Ele surge principalmente dessa percepção. O verdadeiro amor se inicia com Deus, amando-0 por aquilo que Ele é. Amor por si mesmo começa com a pessoa e ama a Deus por interesse em si mesmo.
Ler Mais

No que Consiste a Prática Cristã – Jonathan Edwards


A prática cristã significa três coisas:
 (i) O verdadeiro cristão dirige todos os aspectos de seu comportamento por regras cristãs.

(ii) Faz do viver santo a maior preocupação de sua vida. É seu trabalho e ocupação sobre todas as outras coisas.

(iii) Persevera nessa ocupação constantemente, até o final de sua vida.

Vamos estabelecer esses três pontos pelas Escrituras.

(i) O verdadeiro cristão procura conformar cada área de sua vida às regras da Palavra de Deus. "Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando" (Jo. 15:14). "E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro ... Filhinhos, não vos deixeis enganar por ninguém; aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo" (I Jo. 3:3,7). "Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus" (I Cor. 6:9-10). "Ora, as obras da carne são conhecidas, e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, como já outrora vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam" (Gal. 5:19-21).

Esse comprometimento com a obediência total não significa uma mera esquivança negativa das práticas do mal. Significa também obedecer positivamente os mandamentos de Deus. Não podemos dizer que alguém é um verdadeiro cristão somente por não ser um ladrão, mentiroso, blasfemador, bêbado, sexualmente imoral, arrogante, cruel e violento. Também deve ser positivamente temente a Deus, humilde, respeitoso, gentil, pacificador, perdoador, misericordioso e amorável. Sem essas qualidades positivas, não está obedecendo às leis de Cristo.

(ii) O verdadeiro cristão faz do viver santo a principal ocupação de sua vida. O povo de Cristo não só faz boas obras, são zelosos por boas obras (Tito 2:14). Deus não nos chamou para a ociosidade, e sim para trabalhar e labutar para Ele. Todos os verdadeiros cristãos são bons e fiéis soldados de Jesus Cristo (II Tim. 2:3). Lutam o bom combate da fé de modo a apossar-se da vida eterna (I Tim. 6:12). Os que estão numa corrida, todos correm, mas somente um recebe o prêmio; pessoas preguiçosas e negligentes não correm de modo a obter aquele prêmio (I Cor. 9:24). O verdadeiro cristão coloca toda a armadura de Deus, sem a qual não resiste aos dardos inflamados do maligno (Ef. 6:13-17). Esquece as coisas que estão para traz e procura pelas que estão adiante, avançando para a meta, visto ser este o único modo de obter o prêmio do chamado de Deus para o alto, em Cristo Jesus (Fil. 3:13-14). Preguiça em servir a Deus é tão condenável quanto rebelião aberta; o servo preguiçoso é um mau servo e será lançado nas trevas exteriores com os inimigos declarados de Deus (Mat. 25:26, 30).

Isso mostra que um verdadeiro cristão é alguém diligente, fervoroso e comprometido em sua religião. Como é colocado em Hebreus: "Desejamos, porém, continue cada um de nós mostrando até ao fim a mesma diligência para a plena certeza da esperança; para que não vos torneis indolentes, mas imitadores daqueles que, pela fé e pela longanimidade, herdam as promessas" (Heb. 6:11-12).

(iii) O verdadeiro cristão persevera em sua obediência a Deus através de todas as dificuldades enfrentadas, até ao fim de sua vida. As Escrituras ensinam de modo completo que a verdadeira fé persevera; vejam, por exemplo, a parábola do semeador (Mat. 13:3-9, 18-23).

O ponto central enfatizado pelas Escrituras na doutrina da perseverança é que o verdadeiro cristão mantém-se acreditando e obedecendo, a despeito dos vários problemas que encontra. Deus permite que esses problemas surjam nas vidas das pessoas que se proclamam cristãos a fim de testar a verdade de sua fé. Então torna--se claro para eles, e muitas vezes para os outros, se realmente estão levando a sério seu relacionamento com Cristo. Esses problemas são às vezes de ordem espiritual, como uma tentação particularmente sedutora. Às vezes as dificuldades são de ordem externa, como os insultos, zombaria e perda de posses a que nosso cristianismo possa nos expor. O sinal do verdadeiro cristão é que ele persevera através desses problemas e dificuldades, mantendo-se leal a Cristo.

Eis alguns textos que relatam o exposto. "Pois tu, ó Deus, nos provaste; acrisolaste-nos como se acrisola a prata. Tu nos deixaste cair na armadilha; oprimiste as nossas costas; fizeste que os homens cavalgassem sobre as nossas cabeças; passamos pelo fogo e pela água, porém, afinal, nos trouxeste para um lugar espaçoso" (Sal. 66:10-12). "Bem-aventurado o homem que suporta com perseverança a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que os amam" (Tg. 1:12). "Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida" (Apoc. 2:10).

Admito que os verdadeiros cristãos podem se tornar espiritualmente frios, cair em tentação e cometer grandes pecados. Entretanto, nunca podem cair tão totalmente que se cansem de Deus e da obediência, e assentar-se num desagrado deliberado pelo cristianismo. Nunca podem adotar um modo de vida no qual outra coisa se jamais importante que Deus. Nunca podem perder inteiramente sua distinção do mundo incrédulo, ou reverter exatamente ao que eram antes de sua conversão. Se esse é o resultado dos problemas num cristão professo, fica demonstrado que nunca foi um verdadeiro convertido! "Eles saíram de nosso meio, entretanto não eram dos nossos; porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos" (I Jo. 2:19).
Ler Mais

Davi, Paulo e Cristo e as Afeições Santas – Jonathan Edwards


A religião dos santos mais notáveis nas Escrituras era de emoções. Vou dar destaque especial a três grandes santos, e a seu Mestre, para mostrar a verdade sobre essa afirmação.

Primeiro, consideremos o rei Davi, aquele homem segundo o coração de Deus, que nos deixou um retrato vivo de sua religião nos Salmos. Esses cânticos sagrados não são outra coisa senão o derramar de emoções santas e piedosas. Neles vemos um amor humilde e fervoroso a Deus, admiração por Sua perfeição gloriosa e feitos maravilhosos, desejos e sede da alma para com Ele. Encontramos alegria e felicidade em Deus, uma gratidão doce e comovente por Sua grande bondade, e um regozijo santo pelo Seu favor, suficiência e fidelidade. Vemos amor para com o povo de Deus e encanto nele, grande deleite na Palavra de Deus e suas ordenanças, tristeza pelos pecados do próprio Davi e de outros, e zelo fervoroso por Deus - como também contra os inimigos de Deus.

Essas expressões de emoção santa nos salmos são especialmente relevantes para nós. Os Salmos não exprimem somente a religião de um santo da estatura do rei Davi, mas o Espírito Santo também os inspirou para que os crentes os cantassem em culto público, no tempo de Davi e para sempre.

Consideremos, a seguir, o apóstolo Paulo. Pelo que as Escrituras dizem dele, parece ter sido um homem de vida emocional altamente desenvolvida, especialmente no que tange ao amor, o que se torna claro em suas cartas. Um amor ardentíssimo por Cristo parece tê-lo inflamado e consumido; retrata-se como subjugado por sua emoção santa, compelido por ela a seguir avante em seu ministério em meio a tantos sofrimentos e dificuldades (II Cor. 5:14-15). Suas cartas estão repletas de amor transbordante pelos cristãos. Ele os chama de seus amados (II Cor. 12:19; Fil. 4:1; II Tim. 1:2); fala de seu cuidado com afeição e carinho por eles (I Tess. 2:7-8) e freqüentemente fala de seu anseio afetuoso e saudoso por eles (Rom. 1:11; Fil. 1:8; II Tess. 2:8; II Tim. 1:4).

Paulo expressa freqüentemente a emoção de alegria. Fala de seu regozijo com grande alegria (Fil. 4:10, Fm. v.7), de se alegrar extremamente (II Cor. 7:13), e sempre se alegrando (II Cor. 6:10). Vejam também I Cor. 1:12; 7:7,9,16; Fil. 1:4; 2:1-2; 3:3; Col. 1:24; I Tess. 3:9. Fala também de sua esperança (Fil. 1:20), seu zelo piedoso (II Cor. 11:2-3), e suas lágrimas de tristeza (At. 20:19,31 e II Cor. 2:4). Escreve sobre a grande e contínua tristeza em seu coração por causa da incredulidade dos judeus (Rom. 9:2). Não preciso mencionar seu zelo espiritual, que é óbvio em toda sua vida como apóstolo de Cristo. Se alguém puder examinar esses relatos bíblicos de Paulo, sem perceber que sua religião era de emoção, deve ter um estranho talento para fechar os olhos à luz que brilha diretamente em seu rosto!

O apóstolo João foi o mesmo tipo de homem. É evidente em tudo que escreveu, que era uma pessoa de vida emocional profunda. Dirige-se aos cristãos a quem escrevia de modo extremamente comovente e delicado. Suas cartas demonstram nada menos do que o amor mais fervoroso, como se ele fosse feito de afeição doce e santa. Não posso de fato dar provas disso, exceto citando suas cartas como um todo!

Maior de todos, o próprio Senhor Jesus Cristo teve um coração extraordinariamente terno e afetuoso e expressou Sua retidão abun-dantemente em emoções santas. Teve o mais ardoroso, vigoroso e for¬te amor por Deus e pelos homens que jamais existiu. Foi Seu amor santo que triunfou no Getsêmane, quando lutou com o medo e a dor, e quando Sua alma ficou "profundamente triste, até à morte" (Mat. 26:38).

Vemos que Jesus teve uma vida emocional forte e profunda durante Seus dias na terra. Lemos de Seu zelo por Deus: "O zelo da tua casa me consumirá" (João 2:17). Lemos sobre seu pesar pelos pecados dos homens: "indignado e condoído com a dureza dos seus corações" (Mar. 3:5). Chegou a derramar lágrimas quando considerou o pecado e a miséria do povo ímpio de Jerusalém: "Quando ia chegando, vendo a cidade, chorou e dizia: ah, se conheceras por ti mesma ainda hoje o que é devido à tua paz!" (Luc. 19:41-42). Muitas vezes lemos sobre a misericórdia e compaixão de Jesus: vejam Mat. 9:36; 14:14; 15:32; 18:34; Mar. 6:34; Luc. 7:13. Como foi afetuoso o Seu coração quando Lázaro morreu! Quão afetuosas foram Suas palavras de despedida aos Seus discípulos na noite antes de ser crucificado! De todas as palavras que jamais saíram dos lábios dos homens, as palavras de Cristo nos capítulos 14 a 16 do Evangelho de João foram as mais afetuosas e mais comoventes.

Ler Mais

A Busca dos seres Morais – Jonathan Edwards

O fim supremo exigido das criaturas morais é o fim supremo da criação

O que a Palavra de Deus requer que as partes inteligentes e morais do mundo busquem como fim supremo e transcendente pode ser considerado legitimamente o fim último para o qual Deus as criou e, por conseguinte, de acordo com a Proposição quatro, o fim último para o qual ele criou o mundo inteiro.

Uma das principais diferenças entre as partes inteligentes e morais e o restante do mundo se encontra nisto: as primeiras são capazes de conhecer o seu Criador e o fim para o qual ele as criou e são capazes de aquiescer ativamente ao intento divino na sua criação e de levar esse propósito adiante, enquanto as outras criaturas só são capazes de levar adiante o propósito para o qual foram criadas de modo passivo e eventual.

 E, tendo em vista que elas são capazes de conhecer o fim para o qual seu autor as criou, certamente é seu dever cumprir esse fim. A vontade delas deve ceder à vontade do Criador, buscando acima de tudo aquilo que é o fim último delas, aquilo que Deus busca acima de tudo como o fim último delas. Essa deve ser a lei da natureza e da razão em relação a elas. E devemos supor que a lei revelada de Deus e a lei da natureza concordam entre si, e que a sua vontade como legislador deve concordar com a sua vontade como Criador.

Logo, podemos deduzir devidamente que o que a lei revelada de Deus requer que as criaturas inteligentes busquem como o seu fim último e máximo é o que Deus, o seu Criador, determinou como fim último dessas criaturas e, portanto, [é] o fim da criação do mundo.
Ler Mais

O Propósito do Mundo Moral - Jonathan Edwards


O fim supremo do mundo moral é o fim supremo do mundo inteiro

Proposição 4. - O que a Palavra de Deus apresenta como o seu fim supremo em relação ao mundo moral ou à parte inteligente do sistema é o fim último de Deus na obra da criação em geral. Isso porque a constituição do mundo em si e a Palavra de Deus, deixam claro que a parte moral é o fim de todo o restante da criação.

A parte inanimada e ininteligente é feita para a parte racional do mesmo modo que uma casa é preparada para os seus moradores. E fica claro também, pela razão e pela Palavra de Deus, que é em razão de algum bem moral nos agentes morais que estes são criados e que o mundo é criado para eles. Evidentemente, qualquer que seja o fim último dessa parte da criação, que é fim de todo o resto e para o qual todo o resto do mundo foi criado, este também deve ser o fim último da totalidade.

Se todas as outras partes de um relógio são feitas para os ponteiros do relógio com o propósito de movê-los corretamente, segue-se que o fim último dos ponteiros é o fim último do mecanismo na sua totalidade.

Ler Mais

Inclinação da Alma e da Vontade – Jonathan Edwards


Nesse ponto pode-se perguntar: "O que exatamente quer dizer quando fala sobre Afeições (emoções)?"
Respondo da seguinte forma: "Afeições (emoções) são as ações mais vivas e intensas da inclinação da alma e da vontade."

Deus deu às almas humanas dois poderes principais: o primeiro é a compreensão, pela qual examinamos e julgamos as coisas; o segundo poder nos permite ver as coisas, não como espectadores indiferentes, mas gostando ou não delas, agradando-nos ou não nelas, aprovando-as ou rejeitando-as. Às vezes chamamos a esse segundo poder, nossa inclinação. Relacionando-as com nossas decisões, normalmente damos-lhes o nome de vontade. Quando a mente exercita sua inclinação ou vontade, então muitas vezes chamamos à mente "o coração ".

Seres humanos agem por suas vontades de duas formas, (i) Podemos nos dirigir para as coisas que vemos, apreciando-as e aprovando-as. (ii) Podemos nos distanciar das coisas que vemos, e rejeitá-las. Esses atos da vontade, é claro, diferem muito em grau. Algumas inclinações de gosto ou desgosto movem-nos somente um pouco além da apatia total. Existem outros graus, nos quais o gosto ou desgosto é mais forte, até o ponto em que a força seja tal que agimos de modo enérgico e determinado. São esses atos mais enérgicos e intensos da vontade que chamamos de "emoções".

Nossa vontade e emoções não são coisas diferentes. Nossas emoções diferem dos atos casuais da escolha somente em sua energia e vivacidade. Admito, entretanto, que a linguagem pode expressar somente um sentido imperfeito dessa diferença. De certo modo, as emoções da alma são a mesma coisa que sua vontade, e a vontade nunca sai de um estado de apatia, exceto pelo sentimento. Todavia, há mui¬tos atos da vontade que não chamamos de "emoções"; a diferença não está na natureza, e sim na força da atividade e na forma de agir da vontade.

Em todo ato da vontade, gostamos ou não daquilo que vemos. Nosso gosto por algo, se for suficientemente vigoroso e vivo, é exatamente a mesma coisa que a emoção do amor; e um desgosto igualmente forte é o mesmo que ódio. Era cada ato da vontade para ou em direção a algo, estamos em alguma medida inclinados àquela coisa; e se essa inclinação for forte, nós o chamamos de desejo. Em cada ato da vontade em que aprovamos algo, há um grau de prazer; e se o prazer for grande, nós o chamamos de alegria ou delícia. E se nossa vontade não aprova algo, ficamos desagradados em alguma medida; se o desagrado for grande, nós o chamamos de pesar ou tristeza.

Todo ato da vontade é relacionado com aprovação e preferência ou então com desaprovação e rejeição. Nossas emoções são, portanto, de dois tipos. Existem emoções que nos levam para o que vemos, unindo-nos ao que vemos ou apegando-nos a ele. Essas emoções incluem amor, desejo, esperança, alegria, gratidão e prazer. Existem por outro lado, emoções que nos afastam do que vemos, opondo-nos ao que vemos, incluem ódio, medo, raiva ou pesar.
Ler Mais

Jonathan Edwards – Um Homem de Família

Elisabeth Dodds: "O retrato mítico de Edwards o apresenta como um teólogo austero. Na verdade, era um marido carinhoso e um pai verdadeiramente amado por seus filhos". Não é fácil imaginar como era a sua vida em família com base no programa rigoroso de estudos que elaborou. Sabemos que ele acreditava em preencher cada momento da existência até o máximo de sua capacidade, sem desperdiçar tempo algum. Sua sexta resolução era simples e poderosa: "Resolvido: Viver com todas as minhas forças enquanto estiver vivo". E a quinta era semelhante: "Resolvido: Não perder um momento sequer, mas aprimorá-lo da maneira mais proveitosa que me for possível".

Temos motivos para crer que Edwards considerava sua família igualmente digna desse tempo aproveitado com tamanha intensidade. De acordo com Sereno Dwight: "À noite, ele costumava se permitir um período de descontração em meio à família". Porém, em outro texto, o próprio Edwards disse (em 1734, quando estava com 31anos de idade): "Creio que é melhor, quando me encontro com boa disposição para a contemplação divina, ou envolvido com a leitura das Escrituras ou com o estudo de algum assunto teológico, não interromper o que estou fazendo para jantar, preferindo em geral abrir mão dessa refeição a parar". Pode-se pensar que Sarah Edwards tenha se ressentido disso e se desiludido com a teologia do seu marido. Mas não foi o caso.

A hospitalidade e a piedade dela são lendárias. Creio que seria justo dizer que a chave indispensável para criar onze filhos cristãos  no lar da família Edwards era a "união excepcional" que Jonathan desfrutava com a sua esposa, uma ligação arraigada numa teologia magnífica da alegria. Nas palavras do seu bisneto: "A religião de Sarah não era, de maneira alguma, melancólica ou proibitiva em seu caráter. Por mais incomum que fosse em sua intensidade, era, acima de tudo, uma religião de alegria". A história de Sarah é muito bem contada na obra de Elisabeth Dodd, Marriage to a Difficult Man [O casamento com um homem difícil] e recebe uma interpretação histórica-fictícia em Jonathan and Sarah Edwards: An Uncommon Union, de Edna Gerstner.

John Piper
Ler Mais

Amor por Cristo, Alegria em Cristo – Jonathan Edwards


O apóstolo Pedro diz, sobre a relação entre cristãos e Cristo: "a quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória." (1Ped. 1:8).Como os versículos anteriores deixam claro, os crentes a quem Pedro escreveu sofriam perseguição. Aqui, ele observa como seu cristianismo os afetou durante essas perseguições. Ele menciona dois sinais claros da autenticidade de seu cristianismo.

(i) - Amor por Cristo. "A quem, não havendo visto, amais." Os que não eram cristãos maravilhavam-se da prontidão dos cristãos em se expor a tais sofrimentos, renunciando às alegrias e confortos deste mundo. Para seus vizinhos incrédulos, estes cristãos pareciam loucos; pareciam agir como se detestassem a si mesmos. Os incrédulos não viam nenhuma fonte de inspiração para tal sofrimento. De fato, os cristãos não viam coisa alguma com seus olhos físicos. Amavam alguém a quem não podiam ver! Amavam a Jesus Cristo, pois viam-nO espiritualmente, mesmo sem poder vê-lO fisicamente.

(ii) - Alegria em Cristo. Embora seu sofrimento exterior fosse terrível, suas alegrias espirituais internas eram maiores que seus sofrimentos. Essas alegrias os fortaleciam, possibilitando que sofressem alegremente.

Pedro nota duas coisas sobre essa alegria. Primeiro, ele nos fala da origem dela. Ela resultou da fé. "Não vendo agora, mas crendo, exultais."

Segundo, ele descreve a natureza dessa alegria: "alegria indizível e cheia de glória." Era alegria indizível, por ser tão diferente das alegrias do mundo. Era pura e celeste; não havia palavras para descrever sua excelência e doçura. Era também inexprimível quanto à sua extensão, pois Deus havia derramado tão livremente essa alegria sobre Seu povo sofredor.

Depois, Pedro descreve essa alegria como sendo "cheia de glória." Essa alegria enchia as mentes dos cristãos, ao que parecia, com um brilho glorioso. Não corrompia a mente, como fazem muitas alegrias mundanas; pelo contrário, deu-lhe glória e dignidade. Os cristãos sofredores partilhavam das alegrias celestes. Essa alegria enchia suas mentes com a luz da glória de Deus, fazendo-os brilhar com aquela glória.

A doutrina que Pedro nos está ensinando é a seguinte: A RELIGIÃO VERDADEIRA CONSISTE PRINCIPALMENTE EM EMOÇÕES SANTAS. Pedro destaca as emoções espirituais de amor e alegria quando descreve a experiência desses cristãos. Lembrem-se que ele está falando sobre fiéis que estavam sendo perseguidos.

Seu sofrimento purificava sua fé, resultando em que "redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo" (v.7). Estavam, assim, em condição espiritualmente saudável, e Pedro ressalta seu amor e alegria como evidência de sua saúde espiritual.
Ler Mais

A glória implica visão da excelência – Jonathan Edwards


A glória de Deus é a honra concedida a ele pela criatura

O termo glória, quando aplicado a Deus nas Escrituras, também implica visão ou conhecimento da excelência divina. A glória é demonstrada para que seja vista pelos observadores. A manifestação da glória - a emanação ou o resplendor de claridade - é relacionada ao olho. A luz ou a claridade é uma qualidade que diz respeito ao sentido da visão; vemos um luminar por causa da sua luz. E, nas Escrituras, é comum a luz representar o conhecimento.

Com freqüência, a palavra glória nas Escrituras significa ou subentende honra, como qualquer um pode ver sem dificuldade ao consultar uma concordância.96 Porém, a honra implica conhecimento da dignidade e excelência daquele que a tem, o que muitas vezes é indicado mais especificamente pelo termo glória, quando aplicado a Deus. Números 14.21: "Porém, tão certo como eu vivo, e como toda a terra se encherá da glória do SENHOR", OU seja, todos os habitantes da terra verão as manifestações que darei de minha santidade perfeita e da abominação do pecado e, portanto, da minha excelência infinita.

O contexto deixa isso claro e o mesmo se aplica ao caso de Ezequiel 39.21,22,23: "Manifestarei a minha glória entre as nações, e todas as nações verão o meu juízo, que eu tiver executado, e a minha mão, que sobre elas tiver descarregado. Desse dia em diante, os da casa de Israel saberão que eu sou o SENHOR, seu Deus. Saberão as nações que os da casa de Israel, por causa da sua iniqüidade, foram levados para o exílio". Também fica evidente em várias passagens de acordo com as quais Deus se glorifica ou é glorificado, que uma intenção imediata é tornar conhecida a sua grandeza e excelência divinas.

Ler Mais
 
Jonathan Edwards | by ©2010