Páginas

O Pecado em nosso Coração - Jonathan Edwards


Como observamos, naturalmente é, muito difícil avaliar honestamente o nosso próprio pecado. Mas, se estivermos realmente preocupados com isso, se formos rígidos e sondarmos totalmente o nosso coração, podemos, na maioria das vezes, descobrir o pecado no íntimo. As pessoas que querem agradar e obedecer a Deus, com toda luz que desfrutamos, certamente, não precisam continuar nos caminhos pecaminosos por causa da ignorância.

É verdade que o nosso coração é muito enganoso. Mas Deus, em sua santa palavra, nos deu luz suficiente para o estado de trevas em que nos encontramos. Por meio do cuidado e da averiguação, podemos conhecer nossas responsabilidades espirituais e saber se estamos vivendo em algum caminho mau. Todo aquele que tem algum amor a Deus ficará grato pela ajuda bíblica nesta questão. Tais pessoas estão preocupadas em andar em todas as coisas que Deus queria que andassem, como agradá-lo e honrá-lo. Se a vida delas, de alguma maneira, ofende a Deus, terão prazer em saber disso e de maneira nenhuma optam por ocultar de si mesmas o próprio pecado.
Também, aquele que pergunta com sinceridade, O que eu devo fazer para ser salvo? irá querer identificar o pecado em sua vida, já que é o pecado o que separa de Cristo.

Há duas maneiras pelas quais chegamos ao conhecimento do nosso pecado:

Conhecimento da Lei de Deus. Se você deseja saber se vive em pecado desconhecido, deve familiarizar-se totalmente com o que Deus quer de você. Na Bíblia, Deus nos deu normas perfeitas e verdadeiras pelas quais devemos andar. Ele expressou seus preceitos clara e fartamente, assim, somos capazes de saber — a despeito das nossas trevas e desvantagens espirituais — exatamente o que ele requer de nós. Que revelação da mente divina completa e abundante temos nas Escrituras! Quão clara é em nos instruir sobre como nos comportar! Quão freqüentemente seus preceitos são repetidos! E quão explicitamente são revelados, de várias maneiras, a fim de que pudéssemos entendê-los completamente!

Mas que proveito há em tudo isso se negligenciamos a revelação de Deus e não nos esforçamos em nos inteirar dela? Que proveito há em se ter princípios piedosos se ainda não os conhecemos? Por que Deus revelaria a sua mente, se não nos importamos em saber o que é ela?
No entanto, a única maneira pela qual podemos saber se estamos pecando é conhecendo sua lei moral: "Pela lei vem o pleno conhecimento do pecado" (Rm 3.20). Entretanto, se não queremos continuar desagradando a Deus, devemos estudar diligentemente os princípios do certo e do errado que ele revelou. Devemos ler e pesquisar muito mais as santas Escrituras. E devemos fazer isso com a intenção de conhecer todo o nosso dever, assim a Palavra de Deus pode ser "lâmpada para os [nossos] pés e luz para os [nossos] caminhos" (SI 119.105).

E, assim sendo, está claro que a maior parte das pessoas é muito mais culpada simplesmente por causa da sua negligência aos deveres espirituais. Antes de tudo, são culpáveis porque desprezam a Palavra de Deus e outras fontes que poderiam informá-las. Agem como se o estudo fosse somente um trabalho dos pastores. Tal ignorância é freqüentemente uma negligência proposital e deliberada. Se não são conscientes do que Deus quer delas, é sua própria falta. Elas têm oportunidade suficiente para saber, e poderiam saber se o quisessem. Além disso, se esforçam para ter outros tipos de conhecimen¬to. São bem treinadas em qualquer interesse mundano que lhes agradam. Aprendem qualquer coisa que seja necessário para ganhar a vida no mundo. Porém, não gastam nenhuma energia para buscar o que conta para a eternidade.

O autoconhecimento. Segundo, se você deseja saber se está odiando o seu pecado secreto deve examinar a si mesmo. Compare a sua vida com a lei de Deus, e veja se você se conforma com o padrão divino. Este é o caminho primário que devemos tomar para descobrir nosso próprio caráter. Esta é uma diferença importante entre o ser humano e os animais irracionais: o homem é capaz da auto-reflexão, capaz de contemplar seus próprios atos e avaliar a natureza e a qualidade deles. Sem dúvida nenhuma isso foi parte do motivo pelo qual Deus nos deu o seu poder — a fim de que pudéssemos conhecer e avaliar nossos próprios caminhos.

Devemos nos examinar até descobrirmos se concordamos ou não com os princípios da Bíblia. Isso requer a máxima atenção, a fim de não omitir os nossos próprios erros, ou de não permitir que nenhum caminho mau se esconda de maneira dissimulada.

Ler Mais

Fortaleza e Estabilidade – Jonathan Edwards

O apóstolo Paulo apresenta uma razão por que ele continuava com tamanha coragem e firmeza imóveis em meio a tantas labutas, sofrimentos e perigos a serviço do Senhor. Sua atitude fazia com que seus inimigos, os falsos mestres entre os coríntios, o reprovassem por estar fora de si e impulsionado por um tipo de loucura. Na parte final do capítulo precedente, o apóstolo informa os coríntios cristãos que a razão de ele agir assim era porque ele cria firmemente nas promessas que Jesus fizera aos seus servos fiéis, de uma futura recompensa gloriosa e eterna. Ele sabia que estas aflições presentes eram leves e momentâneas em comparação àquele mui excelente e eterno peso de glória. Neste capítulo, ele prossegue insistindo na razão de sua firmeza no sofrimento e exposição à morte na obra do ministério, até chegar ao estado mais feliz que esperava desfrutar depois da morte. Este é o tema do meu texto, sobre o qual faremos algumas observações:

1. O grande privilégio futuro de estar presente com Cristo, fato que o apóstolo esperava desfrutar. As palavras no original significam habitar com Cristo no mesmo país ou cidade, ou fazer uma casa com Cristo.

2.  O tempo em que o apóstolo gozaria este privilégio, isto é, quando ele estaria ausente do corpo. Ele quer dizer a mesma coisa em Filipenses 1.22,23: "Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei, então, o que deva escolher. Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor".

3.  O valor que o apóstolo deu a este privilégio era tão grande que por esta causa ele escolheu estar ausente do corpo. Ele estava propenso, ou (como a palavra corretamente significa) lhe era mais agradável, partir da vida presente e de todos os seus prazeres no interesse de possuir este grande benefício.

4. O benefício que o apóstolo já desfrutava pela fé e esperança deste futuro privilégio, ou seja, que ele recebeu coragem, garantia e constância de mente de acordo com a significação própria da palavra que é traduzida por "temos confiança". O apóstolo está dando a razão dessa fortaleza e estabilidade mental inabalável com as quais ele passou por extremas labutas, sofrimentos e perigos que menciona neste discurso, de forma que, no meio de tudo isso ele não desfalecia, não ficava desencorajado, mas tinha luz constante e apoio, força e consolo interiores: "Por isso, não desfalecemos; mas, ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia" (2 Co 4.16). O mesmo pensamento é expresso mais particularmente nos versículos 8 a 10 do mesmo capítulo: "Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos; trazendo sempre por toda parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos". No capítulo 6, versículos 4 a 10, lemos: "Antes, como ministros de Deus, tornando-nos recomendáveis em tudo: na muita paciência, nas aflições, nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns, na pureza, na ciência, na longanimidade, na benignidade, no Espírito Santo, no amor não fingido, na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, à direita e à esquerda, por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama, como enganadores e sendo verdadeiros; como desconhecidos, mas sendo bem conhecidos; como morrendo e eis que vivemos; como castigados e não mortos; como contristados, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo e possuindo tudo".

Ler Mais

Paixões Enganosas - Jonathan Edwards


A Sutileza de Satanás. O demônio trabalha corpo a corpo com as nossas paixões enganosas. Ele labuta para tornar-nos cegos às nossas faltas. Continuamente se esforça para nos levar ao pecado, e então, trabalha com a nossa mente carnal nos bajulando com a idéia de que somos melhores do que realmente somos. Assim, ele cega a consciência. É o príncipe das trevas. Cegar e enganar têm sido seu trabalho desde os nossos primeiros pais.

A força do hábito. Algumas pessoas se esquecem dos pecados que lhe são habituais. Freqüentemente os pecados habituais entorpecem a mente, e dessa maneira, tais pecados, que uma vez afligiram a consciência, começam a parecer inofensivos.

O exemplo dos outros. Alguns se tomam insensíveis ao próprio pecado porque deixam a opinião popular ditar o seu padrão. Observam o compor¬tamento dos outros a fim de discernir o que está certo ou errado. Porém, a sociedade é tão tolerante com o pecado que muitos deles perderam seu estigma. As coisas que não agradam a Deus e são consideradas abomináveis à sua vista parecem inocentes quando visualizadas através dos olhos da opinião popular. Talvez as vejamos sendo praticadas por pessoas que esti¬mamos, ou nossos superiores, ou por aqueles que são considerados sábios. Isso tende a favorecer essas coisas e a diminuir o sentido de sua pecaminosidade. É especialmente perigoso quando homens piedosos, líderes cristãos respeitados são vistos comprometidos com práticas pecaminosas. Isso especificamente tende a calejar o coração do observador e a cegar a mente a respeito de qualquer hábito maligno.

Obediência incompleta. Aqueles que obedecem a Deus indiferentemente ou pela metade correm o risco de viverem em pecado encoberto. Alguns cristãos professos negligenciam parte de seus deveres espirituais enquanto se concentram em outra parte. Seus pensamentos talvez estejam completamente voltados à oração secreta, à leitura bíblica, à adoração pública, à meditação e a outros deveres religiosos — enquanto ignoram os deveres morais: suas responsabilidades em relação à esposa, aos filhos ou aos vizinhos.

Sabem que não devem defraudar o seu vizinho, mentir ou fornicar. Mas parecem não considerar quanto mal há em falar dos outros de modo leviano, censurar o vizinho, contender e brigar com as pessoas, viver hipocritamente diante da família ou negligenciar a instrução espiritual de seus filhos.

Esse tipo de pessoa parece ser muito consciente em algumas coisas — aquelas áreas de sua obrigação sobre as quais se mantém vigilante — mas negligencia completamente outras áreas importantes.

Ler Mais

A natureza cega e enganosa do pecado – Jonathan Edwards


O coração humano é cheio de pecado e corrupção; e a corrupção tem um efeito espiritual de cegueira. O pecado sempre carrega um grau de obscuridade. Quanto mais ele prevalece, mais ele obscurece e ilude a mente. Ele nos cega para a realidade que está no nosso próprio coração. Assim, o problema não é, em absoluto, a falta da luz da verdade de Deus. A luz brilha suficientemente ao nosso redor, mas a falha está nos nossos olhos; estão obscurecidos e cegos pela incapacidade mortal que resulta do pecado.

O pecado engana facilmente porque controla a vontade humana, e isso altera o julgamento. Quando a concupiscência prevalece, predispõe a mente para aprová-la. Quando o pecado influencia nossas preferências, ele parece agradável e bom. A mente é naturalmente predisposta a pensar que tudo o que é agradável é correto. Portanto, quando um desejo pecaminoso vence a vontade, também lesa o entendimento. Quanto mais a pessoa anda no pecado, provavelmente, mais a sua mente será obscurecida e cega. Assim é que o pecado assume o controle das pessoas.
Portanto, quando elas não estão conscientes do seu pecado, fica extremamente difícil fazê-las enxergar o erro. Afinal de contas, o mesmo desejo maligno que as levou ao pecado, as cegará. Quanto mais uma pessoa raivosa consente com a malícia ou com a inveja, mais esses pecados cegarão seu entendimento para que ela os aprove. Quanto mais um homem odeia o seu vizinho, mais ele tende a pensar que tem uma boa causa para odiar, e que aquele vizinho é digno de ódio, que merece ser odiado, e que não é seu dever amá-lo. Quanto mais prevalece os desejos de um homem impuro, mais doce e agradável o pecado lhe parecerá, e mais ele tenderá a pensar que não há mal nisso.

Semelhantemente, quanto mais uma pessoa deseja coisas materiais, provavelmente mais pensa que é desculpável por agir assim. Dirá a si mesmo que precisa de certas coisas, e que não pode viver sem elas. Se são necessárias, raciocina ele, não é pecado desejá-las. E as concupiscências do coração podem assim ser justificadas. Quanto mais prevalecem, mais cegam a mente e influenciam o julgamento que as aprova. Por isso, a Bíblia denomina os apetites mundanos de "as concupiscências do engano" (Ef 4.22). Até pessoas piedosas podem por um tempo permanecer cegas e iludidas pela concupiscência, e assim viverem de uma maneira que desagrada a Deus.

A concupiscência também incita a mente carnal a inventar desculpas para as práticas do pecado. A natureza humana é muito sutil quanto se trata de racionalizar o pecado. Alguns são tão devotados às suas maldades que quando a consciência os importuna, torturam a mente a fim de encontrar argumentos que façam com que ela se cale e que os convençam de que procederam licitamente quando pecaram.

O amor a si mesmo também predispõe as pessoas a desculparem o seu pecado. Elas não gostam de se condenar. São naturalmente preconceituosas em seu próprio favor. Procuram bons nomes para denominar suas tendências pecaminosas. Elas as transformam em virtudes — ou no mínimo em tendências inocentes. Rotulam a avareza de "prudência", ou então chamam a ganância de "negócio inteligente". Quando se alegram com as calamidades do próximo, fingem que é porque esperam que isso trará algum bem à pessoa. Se bebem muito, é porque sua constituição física o exige. Se caluniam, ou falam do vizinho, afirmam ser zelosos quanto ao pecado. Se entram numa discussão, dizem ter uma consciência obstinada e consideram sua discórdia mesquinha uma questão de princípios. E assim, encontram bons nomes para todas as formas de mal.

As pessoas têm a tendência de adaptar os seus princípios à sua prática, e não o contrário. Além de permitir que seu comportamento se conforme com a consciência, despenderão uma energia tremenda tentando fazer com que sua consciência se adapte ao seu comportamento.

Como o pecado é tão enganoso, e como temos muito pecado no coração, é difícil julgar nossos próprios caminhos com justiça. Por causa disso, deveríamos fazer um auto-exame diligente e nos preocupar em descobrir se há em nós algum caminho mau. "Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo; pelo contrário, exortai-vos mutuamente cada dia, durante o tempo que se chama Hoje, a fim de que nenhum de vós seja endurecido pelo engano do pecado" (Hb 3.12,13).

As pessoas vêem mais facilmente os erros dos outros do que os seus. Quando vêem os outros errarem, imediatamente os condenam — até mesmo enquanto se desculpam pelos mesmos pecados! (cf. Rm 2.1). Todos vemos um argueiro nos olhos dos outros e não a trave nos nossos olhos. "Todo caminho do homem é reto aos próprios olhos" (Pv 21.2). "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?" (Jr 17. 9). Não podemos confiar em nosso coração nesta questão. Em vez disso, devemos nos vigiar, interrogar nosso coração cuida¬dosamente, e pedir a Deus que nos sonde completamente. "O que confia no seu próprio coração é insensato" (Pv 28.26).
Ler Mais

A Beleza das Coisas Espirituais – Jonathan Edwards


O objetivo fundamental das emoções espirituais é a excelência e beleza das coisas espirituais como são em si mesmas, não a relação que têm com o nosso interesse pessoal.

Alguns dizem que todo amor resulta do amor de si mesmo. É impossível, dizem, para qualquer pessoa amar a Deus sem que o amor por si mesmo esteja à raiz de tudo. De acordo com essas pessoas, quem quer que ame a Deus e deseje comunhão com Ele e deseje a Sua glória, deseja estas coisas somente a propósito de sua felicidade. Assim, um desejo pela própria felicidade (amor a si próprio) está na base do amor por Deus. Entretanto, aqueles que dizem isso deveriam perguntar-se porque uma pessoa colocaria sua felicidade em dependência da comunhão com Deus e Sua glória. Certamente isso é o efeito do amor a Deus. Uma pessoa tem de amar a Deus antes de perceber a comunhão com Ele e Sua glória como a sua própria felicidade.

E claro que existe um tipo de amor por outra pessoa que surge do amor por si mesmo. Isso ocorre quando a primeira coisa que atrai o nosso amor por alguém é algum favor que nos tenha demonstrado ou algum presente que nos deu. Nesse caso, o amor a si mesmo certamente está à raiz do amor ao outro. É completamente diferente quando a primeira coisa que atrai o nosso amor ao outro é nosso apreço por suas qualidades, que são lindas em si mesmas.

O amor a Deus que emana essencialmente do amor a si mesmo não pode ser de natureza espiritual. O amor próprio é um princípio puramente natural. Existe nos corações de demônios como nos de anjos. Assim, nada pode ser espiritual se for meramente resultado do amor a si mesmo. Cristo fala sobre isso em Luc. 6:32: "Se amais os que vos amam, qual é a vossa recompensa? Porque até os pecadores amam aos que os amam."

A causa mais profunda do verdadeiro amor a Deus é a suprema beleza da natureza divina. É a única coisa razoável a se acreditar. O que faz, principalmente, um homem ou qualquer criatura belo é sua excelência. Certamente a mesma coisa é verdadeira no que diz respeito a Deus. A natureza de Deus é infinitamente excelente; é beleza, fulgência e glória infinitas em si mesmas. Como podemos amar corretamente a excelência e beleza de Deus se não o fazemos por causa delas mesmas. Aqueles cujo amor a Deus é baseado na utilidade que Deus tem para eles mesmos, estão partindo do ponto errado. Estão vendo a Deus somente do ponto de vista do interesse próprio. Falham em apreciar a glória infinita da natureza de Deus, que é a fonte de toda a bondade e toda a beleza.

O amor natural a si mesmo pode produzir muitas emoções dirigidas a Deus e a Cristo, onde não há apreciação da beleza e glória da natureza divina. Por exemplo, amor por si mesmo pode produzir uma gratidão meramente natural a Deus. Isso pode ocorrer por idéias erradas sobre Deus, como se Ele fosse somente amor e misericórdia, sem justiça vingadora, ou como se Deus estivesse obrigado a amar uma pessoa pelos seus merecimentos. Desse ponto de vista, os homens podem amar a um deus criado por sua própria imaginação, quando não têm nenhum amor pelo Deus verdadeiro.

Mais uma vez, o amor próprio pode produzir um amor a Deus mediante a falta de convicção de pecado. Algumas pessoas não têm qualquer percepção da perversão do pecado, nem da infinita e santa aversão de Deus ao pecado. Pensam que Deus não tem padrões mais altos que os deles! Assim, dão-se bem com Ele, mas amam a um deus imaginário, não ao Deus verdadeiro. Existem também outros cujo amor a si mesmos produz um tipo de amor a Deus, simplesmente pelas bênçãos materiais que recebem de Sua providência. Nisso também não há qualquer coisa espiritual!

Além disso, outros sentem um amor vigoroso por Deus, por crerem fortemente que Ele os ama. Depois de passarem por grande desespero e medo do inferno, podem subitamente começar a crer que Deus os ama, perdoou seus pecados e os adotou como Seus filhos. Isso pode ocorrer por uma impressão em suas imaginações, ou uma voz falando de dentro deles, ou de alguma outra forma não bíblica. Se você perguntar a essas pessoas se Deus é amável e excelente em Si mesmo, podem perfeitamente dizer que sim. Entretanto, a verdade é que sua boa opinião sobre Deus foi obtida pela grande benção que imaginam ter recebido dEle. Permitem que Deus seja amável nEle mesmo, somente porque Ele os perdoou e os aceitou, ama-os tanto e prometeu levá-Los ao céu. É fácil amar a Deus e dizer que Ele é amável quando acreditam nisso. Qualquer coisa é amável para uma pessoa interesseira quando promove o seu próprio interesse.

O verdadeiro amor espiritual por Deus surge nos cristãos de uni modo completamente diferente. Cristãos verdadeiros não vêem primeiro que Deus os ama e depois descobrem que Ele é amável. Vêem primeiro que Deus é amável, que Cristo é excelente e glorioso. Seus corações são primeiramente cativados por essa visão de Deus e seu amor por Ele surge principalmente dessa percepção. O verdadeiro amor se inicia com Deus, amando-0 por aquilo que Ele é. Amor por si mesmo começa com a pessoa e ama a Deus por interesse em si mesmo.

Entretanto, não gostaria que pensassem que toda a gratidão a Deus por Suas bênçãos seja meramente natural e egoísta. Existe gratidão espiritual. A verdadeira gratidão espiritual se diferencia da gratidão meramente interesseira dos seguintes modos:

(i) A verdadeira gratidão a Deus por Suas bênçãos flui de um amor a Deus como Ele é em Si mesmo. O cristão já viu a glória de Deus, e ela cativou o seu coração. Assim, o seu coração se torna sensível e é facilmente tocado quando este Deus glorioso lhe dirige favores e bênçãos. Posso ilustrar isso a partir da vida humana. Se um homem não tem amor por outra pessoa, pode ainda assim sentir gratidão por algum ato de bondade feito a ele por aquela pessoa; ainda assim, isto é diferente da gratidão de um homem a um amigo amado, por quem seu coração já tem uma grande afeição. Quando nossos amigos nos ajudam, o amor que já sentimos por eles aumenta. Do mesmo modo, um amor a Deus por Sua beleza e glória rios inclina a ainda maior amor quando este grande Deus derrama bênçãos sobre nós. Assim, não podemos excluir todo amor a si mesmo da gratidão espiritual. "Amo o Senhor, porque ele ouve a minha voz e as minhas súplicas" (Sal. 116:1). No entanto, nosso amor pelo que Deus 6, prepara o caminho para nossa gratidão pelo que Ele faz.

(ii) Em gratidão espiritual, a bondade de Deus toca o coração das pessoas não só porque os abençoa, mas porque a bondade 6 parte da glória e beleza de Sua própria natureza. A incomparável graça de Deus revelada na obra da redenção e resplandecendo na face de Cristo, é infinitamente gloriosa em si mesma. O cristão vê essa glória e se delicia nela. Seu interesse na obra de Cristo, como um pecador necessitando de salvação, ajuda a focalizar sua mente nela. A visão da bondade de Deus agindo por sua redenção faz com que preste ainda mais atenção à natureza gloriosa da bondade de Deus. Por isso, o amor próprio se torna o servo da contemplação espiritual.

Alguns podem fazer objeções a tudo o que eu disse, citando do I Jo. 4:19: "Nós o amamos porque Ele nos amou primeiro." Eles pensam que isto significa que nosso conhecimento do amor de Deus por nós é o que primeiramente faz com que amemos a Ele. Discordo. Penso que João quer dizer algo bem diferente. Quer dizer que o nosso amor a Deus é algo que Ele coloca em nossos corações, como sinal de Seu amor por nós. Nós O amamos, porque Ele graciosamente inclina os nossos corações a amá-10; Ele faz isso devido a Seu amor gratuito e soberano por nós; pelo que, Ele nos escolheu eternamente para nos tornar os que O amam. Nesse sentido, nós O amamos porque Ele primeiro nos amou. E o que equivale a dizer: "Somos salvos porque Ele nos amou quando não tínhamos amor por Ele."

Admito que existem outros modos em que amamos a Deus porque Ele primeiro nos amou, todavia isso tem que se referir a um amor espiritual por Deus, não a um amor meramente egoísta. Por exemplo, o amor de Deus em Jesus Cristo pelos pecadores é uma das revelações mais importantes das Suas gloriosas perfeições morais. Assim, o amor de Deus por nós produz um amor pela perfeição moral de Deus. De novo, o amor de Deus por uma pessoa eleita em particular, revelado na conversão daquela pessoa, é uma grande demonstração da glória de Deus para ela; por isso produz santa gratidão espiritual, como foi explicado acima. Desses vários modos amamos a Deus com amor santo e espiritual, pois Ele primeiro nos amou. Por que não deveríamos presumir que esse é o tipo de amor a Deus sobre o qual trata I Jo. 4:19, em vez de um simples amor egoísta?

Até aqui discuti o amor de um cristão por Deus. O que eu disse se aplica igualmente à alegria e prazer em Deus. Prazer espiritual em Deus surge principalmente de Sua beleza e perfeição, não das bênçãos que nos são dadas por Ele. Mesmo o caminho da salvação por Cristo é prazeroso principalmente por Sua exibição gloriosa das perfeições de Deus. E claro, o cristão se regozija por Cristo ser seu Salvador pessoal. Contudo, esta não é a causa mais profunda de sua alegria.

Quão diferente é com os falsos cristãos! Quando ouvem do amor de Deus ao enviar Seu Filho, o amor de Cristo em morrer pelos pecadores e as grandes bênçãos que Cristo comprou para Seu povo, e prometeu a ele, podem escutar com grande prazer e se sentir grandemente jubilosos. Todavia, se examinarmos essa alegria, descobrimos que eles estão se regozijando porque essas bênçãos são suas, tudo isso os alegra. Podem até se deliciar na doutrina da eleição, pois lisonjeia seu amor próprio pensar que são os favoritos do céu! Sua alegria é realmente em si mesmos, não em Deus.

Por conseguinte, em todas as alegrias dos falsos cristãos, seus olhos estão em si mesmos. Suas mentes estão ocupadas com suas próprias experiências, não com a glória de Deus ou a beleza de Cristo. Ficam pensando, "Como isso é uma boa experiência! Que enormes revelações estou recebendo! Que boa história posso contar para os outros agora!" Desse modo, põem suas experiências no lugar de Cristo. Em vez de se regozijarem na beleza e plenitude de Cristo, regozijam-se em suas maravilhosas experiências; e isso se mostra em sua conversa. São grandes conversadores sobre si mesmos. O verdadeiro cristão, quando se sente espiritualmente aquecido e fervoroso, gosta de falar de Deus, de Cristo e das verdades gloriosas do evangelho. Falsos cristãos são repletos de conversa sobre si mesmos, as maravilhosas experiências que eles tiveram, como estão seguros que Deus os ama, como suas almas estão seguras, como sabem que eles irão para o céu, etc.
Ler Mais

A Importância dos Sentimentos na Vida Espiritual – Jonathan Edwards



O apóstolo Pedro diz, sobre a relação entre cristãos e Cristo: "a quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória." (1Ped. 1:8).Como os versículos anteriores deixam claro, os crentes a quem Pedro escreveu sofriam perseguição. Aqui, ele observa como seu cristianismo os afetou durante essas perseguições. Ele menciona dois sinais claros da autenticidade de seu cristianismo.

(i) - Amor por Cristo. "A quem, não havendo visto, amais." Os que não eram cristãos maravilhavam-se da prontidão dos cristãos em se expor a tais sofrimentos, renunciando às alegrias e confortos deste mundo. Para seus vizinhos incrédulos, estes cristãos pareciam loucos; pareciam agir como se detestassem a si mesmos. Os incrédulos não viam nenhuma fonte de inspiração para tal sofrimento. De fato, os cristãos não viam coisa alguma com seus olhos físicos. Amavam alguém a quem não podiam ver! Amavam a Jesus Cristo, pois viam-nO espiritualmente, mesmo sem poder vê-lO fisicamente.

(ii) - Alegria em Cristo. Embora seu sofrimento exterior fosse terrível, suas alegrias espirituais internas eram maiores que seus sofrimentos. Essas alegrias os fortaleciam, possibilitando que sofressem alegremente.

Pedro nota duas coisas sobre essa alegria. Primeiro, ele nos fala da origem dela. Ela resultou da fé. "Não vendo agora, mas crendo, exultais."

Segundo, ele descreve a natureza dessa alegria: "alegria indizível e cheia de glória." Era alegria indizível, por ser tão diferente das alegrias do mundo. Era pura e celeste; não havia palavras para descrever sua excelência e doçura. Era também inexprimível quanto à sua extensão, pois Deus havia derramado tão livremente essa alegria sobre Seu povo sofredor.

Depois, Pedro descreve essa alegria como sendo "cheia de glória." Essa alegria enchia as mentes dos cristãos, ao que parecia, com um brilho glorioso. Não corrompia a mente, como fazem muitas alegrias mundanas; pelo contrário, deu-lhe glória e dignidade. Os cristãos sofredores partilhavam das alegrias celestes. Essa alegria enchia suas mentes com a luz da glória de Deus, fazendo-os brilhar com aquela glória.

A doutrina que Pedro nos está ensinando é a seguinte: A RELIGIÃO VERDADEIRA CONSISTE PRINCIPALMENTE EM EMOÇÕES SANTAS. Pedro destaca as emoções espirituais de amor e alegria quando descreve a experiência desses cristãos. Lembrem-se que ele está falando sobre fiéis que estavam sendo perseguidos.

Seu sofrimento purificava sua fé, resultando em que "redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo" (v.7). Estavam, assim, em condição espiritualmente saudável, e Pedro ressalta seu amor e alegria como evidência de sua saúde espiritual.

O QUE SÃO EMOÇÕES?

Nesse ponto pode-se perguntar: "O que exatamente quer dizer quando fala sobre emoções?"
Respondo da seguinte forma: "Emoções são as ações mais vivas e intensas da inclinação da alma e da vontade."

Deus deu às almas humanas dois poderes principais: o primeiro é a compreensão, pela qual examinamos e julgamos as coisas; o segundo poder nos permite ver as coisas, não como espectadores indiferentes, mas gostando ou não delas, agradando-nos ou não nelas, aprovando-as ou rejeitando-as. Às vezes chamamos a esse segundo poder, nossa inclinação. Relacionando-as com nossas decisões, normalmente damos-lhes o nome de vontade. Quando a mente exercita sua inclinação ou vontade, então muitas vezes chamamos à mente "o coração ".

Seres humanos agem por suas vontades de duas formas, (i) Podemos nos dirigir para as coisas que vemos, apreciando-as e aprovando-as. (ii) Podemos nos distanciar das coisas que vemos, e rejeitá-las. Esses atos da vontade, é claro, diferem muito em grau. Algumas inclinações de gosto ou desgosto movem-nos somente um pouco além da apatia total. Existem outros graus, nos quais o gosto ou desgosto é mais forte, até o ponto em que a força seja tal que agimos de modo enérgico e determinado. São esses atos mais enérgicos e intensos da vontade que chamamos de "emoções".

Nossa vontade e emoções não são coisas diferentes. Nossas emoções diferem dos atos casuais da escolha somente em sua energia e vivacidade. Admito, entretanto, que a linguagem pode expressar somente um sentido imperfeito dessa diferença. De certo modo, as emoções da alma são a mesma coisa que sua vontade, e a vontade nunca sai de um estado de apatia, exceto pelo sentimento. Todavia, há muitos atos da vontade que não chamamos de "emoções"; a diferença não está na natureza, e sim na força da atividade e na forma de agir da vontade.

Em todo ato da vontade, gostamos ou não daquilo que vemos. Nosso gosto por algo, se for suficientemente vigoroso e vivo, é exatamente a mesma coisa que a emoção do amor; e um desgosto igualmente forte é o mesmo que ódio. Era cada ato da vontade para ou em direção a algo, estamos em alguma medida inclinados àquela coisa; e se essa inclinação for forte, nós o chamamos de desejo. Em cada ato da vontade em que aprovamos algo, há um grau de prazer; e se o prazer for grande, nós o chamamos de alegria ou delícia. E se nossa vontade não aprova algo, ficamos desagradados em alguma medida; se o desagrado for grande, nós o chamamos de pesar ou tristeza.

Todo ato da vontade é relacionado com aprovação e preferência ou então com desaprovação e rejeição. Nossas emoções são, portanto, de dois tipos. Existem emoções que nos levam para o que vemos, unindo-nos ao que vemos ou apegando-nos a ele. Essas emoções incluem amor, desejo, esperança, alegria, gratidão e prazer. Existem por outro lado, emoções que nos afastam do que vemos, opondo-nos ao que vemos, incluem ódio, medo, raiva ou pesar.
Ler Mais

A maior arma de Satanás – Jonathan Edwards

A questão mais crucial para a raça humana e para todo o indivíduo é: quais as características que distinguem as pessoas que gozam o favor de Deus - aquelas que estão de caminho para o céu ? Ou, de outra forma: qual a natureza da religião verdadeira ? Que tipo de religião pessoal é aprovado por Deus?

É difícil dar uma resposta objetiva para esse tipo de questão controversa; mais difícil ainda escrever objetivamente a respeito. O mais difícil é ler objetivamente sobre o assunto! Possivelmente muitos de meus leitores ficarão magoados ao descobrirem que critiquei muitas emoções e experiências religiosas. Por outro lado, talvez, outros fiquem irados quanto ao que defendi e aprovei. Tentei ser equilibrado. Não é fácil sustentar o que é bom em avivamentos religiosos, examinando e rejeitando ao mesmo tempo o que é ruim neles. Contudo, seguramente temos que fazer as duas coisas se quisermos que o reino de Cristo prospere.

Admito que há algo muito misterioso no assunto; existe tanta coisa boa misturada com tanta coisa má na Igreja! É tão misterioso quanto a mescla de bem e mal no cristão como indivíduo; mas nenhum desses mistérios é novo. Não é novidade o florescimento de religião falsa em tempo de avivamento, ou o aparecimento de hipócritas entre os verdadeiros fiéis. Isso ocorreu no grande avivamento no tempo de Josias, como vemos em Jer. 3:10 e 4:3-4. O mesmo se deu nos dias de João Batista. João despertou toda a Israel por suas pregações, mas a maioria apostatou pouco depois. João 5:35 - "por um tempo, estão dispostos a se alegrar em sua luz". O mesmo ocorreu quando o próprio Cristo pregou; muitos O admiraram por um tempo, mas poucos foram fiéis até o fim. De novo, a mesma coisa ocorreu quando os apóstolos pregaram, como sabemos pelas heresias e divisões que perturbaram as igrejas durante o tempo dos apóstolos.

Essa mistura da religião falsa com a verdadeira tem sido a maior arma de satanás contra a causa de Cristo. É por isso que devemos aprender a distinguir entre a religião verdadeira e a falsa - entre emoções e experiências que realmente advêm da salvação e as imitações que são exteriormente atraentes e plausíveis, porém falsas.

Deixar de distinguir entre religião verdadeira e falsa, tem conseqüências terríveis. Por exemplo:

(1) Muitos oferecem adoração falsa a Deus, pensando ser aceitável a Ele, mas que Ele rejeita.

(2) Satanás engana a muitos sobre o estado de suas almas; desse modo arruína-os eternamente. Em alguns casos, satanás leva as pessoas a pensar que são extraordinariamente santas, quando na realidade são o pior tipo de hipócritas.

(3) Satanás estraga a fé dos verdadeiros crentes; mistura deformações e corrupções à religião, causando os verdadeiros crentes a se tornarem frios em suas emoções espirituais. Ele confunde também a outros com grandes dificuldades e tentações.

(4) Os inimigos explícitos do cristianismo se animam quando vêem a Igreja tão corrompida e desviada.

(5) Os homens pecam na ilusão de estarem servindo a Deus; portanto, pecam sem restrições.

(6) Falso ensinamento ilude até os amigos do cristianismo a fazerem, sem perceber, o trabalho de seus inimigos. Destroem o cristianismo com muito mais eficiência que os inimigos declarados podem fazer, na ilusão de o estarem fazendo progredir.

(7) Satanás divide o povo de Cristo e coloca-os uns contra os outros; os cristãos disputam acaloradamente, como que com zelo espiritual. O cristianismo degenera em disputas vazias; as partes em disputa correm para lados opostos, até que o caminho correto, ao meio, fica totalmente negligenciado.

Quando os cristãos vêem as terríveis conseqüências da falsa religião passar por religião verdadeira, suas mentes ficam perturbadas. Não sabem para onde se voltar nem o que pensar. Muitos duvidam da existência de qualquer realidade no cristianismo. Heresia, incredulidade e ateísmo começam a se propagar.

Por essas razões, é vital que façamos todo o possível para compreender a natureza da verdadeira religião. Até que o façamos, não podemos esperar que os avivamentos tenham longa duração, nem podemos esperar muito proveito de nossas discussões e debates religiosos, uma vez que sequer sabemos sobre o que estamos discutindo.
Ler Mais

A razão é um guia imperfeito – Jonathan Edwards


A verdade é que este assunto parece, em regra, uma questão de revelação divina. Afim de [determinar] o propósito da criação da estrutura magnífica do universo que contemplamos, devemos observar e nos fiar no que ELE, O arquiteto, nos disse. É ele quem conhece melhor o próprio coração e sabe dos fins e propósitos das obras maravilhosas que realizou. Também não devemos supor que a humanidade - a qual, desprovida de revelação, mas pelo aperfeiçoamento máximo de sua razão e dos avanços na ciência e na filosofia, não foi capaz de chegar a uma conclusão irrefutável acerca do autor do mundo - poderia formar qualquer conclusão definida e razoável acerca do fim que o autor se propôs nessa obra tão vasta, complexa e maravilhosa das suas mãos.

A revelação refinou o uso da razão, mas não o suficiente

E verdade que a revelação dada por Deus aos homens - como uma luz brilhando em meio às trevas - promoveu um aperfeiçoamento considerável de suas faculdades e ensinou aos homens como usar a razão. Também é verdade que, com a ajuda incessante dessa luz divina ao longo das eras, a humanidade tem realizado grandes feitos no exercício habitual da razão. No entanto, considerando que Deus concedeu uma revelação que contém instruções acerca desse assunto específico, não seria apropriado nos fiarmos excessivamente na razão a fim de tratar da questão do fim último de Deus na criação do mundo, deixando de ser conduzidos, acima de tudo, pela revelação divina.

Porém, a razão pode ajudar a responder a objeções à revelação

Ainda assim, uma vez que as objeções contra o que acredito ser a revelação verdadeira das Escrituras são levantadas principalmente com base nos supostos preceitos da razão, convém considerar seriamente, em primeiro lugar, algumas coisas que parecem suposições racionais a respeito desse assunto e, só então, considerar o que a revelação divina esclarece sobre isso.

Ler Mais

O grande fim de todos os outros frutos e dons do Espírito - J. Edwards

O amor cristão, é um incessante fruto do Espírito. Cada um dos verdadeiros membros da igreja invisível de Cristo possui deste fruto no co­ração. O divino amor, o amor cristão, é implan­tado, habita, e reina ali, como um eterno fruto do Espírito, e como um fruto que nunca cessa. Ele nunca cessa neste mundo, mas permanece através de todas as provações e oposições, pois o apóstolo nos diz que nada "poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor" (Romanos 8.38,39). E ele não cessa quando os santos vierem a morrer. 

Quando os apóstolos e outros dos seus dias morreram e foram para o céu, eles deixaram atrás de si todos os seus dons mi­raculosos, com seus corpos. Contudo, eles não deixaram para trás o amor que estava nos seus corações, mas o carregaram consigo para o céu, onde ele foi gloriosamente aperfeiçoado. Quando os homens ímpios morrem, homens que tiveram as influências comuns do Espírito, seus dons cessarão eternamente, mas a morte nunca destrói o amor cristão, aquele grande fruto do Espírito, em qual­quer um que o tenha. Aqueles que o tem podem deixar e deixarão após si muitos outros frutos do Espírito que tiveram em comum com os homens ímpios. E ainda que eles deixarão tudo que era comum à sua fé, e esperança, e tudo aquilo que não é pertinente a este divino e santo amor, mesmo assim este amor eles não deixarão para trás, mas irá com eles para a eternidade e será aperfeiçoado lá, e viverá e reinará com glorioso e perfeito do­mínio nas suas almas para todo o sempre.

Nós podemos considerar a igreja de Cristo coletivamente, ou como um corpo. E aqui, nova­mente, ficará manifesto que o amor, o amor cristão, nunca cessará. Embora outros frutos do Espírito cessem na igreja, este nunca cessará. No passado, quando houve interrupções dos dons mi­raculosos do Espírito na igreja, e quando houve épocas nos quais nenhum profeta ou pessoa ins­pirada apareceu que possuía tais dons, ainda ali nunca houve qualquer interrupção total deste ex­celente fruto ou influência do Espírito. Dons miraculosos foram interrompidos por longo tempo que se estendeu de Malaquias até próximo ao nas­cimento de Cristo; mas em todo este tempo a influência do Espírito, em manter o divino amor na igreja, nunca foi suspensa. Como Deus sem­pre teve uma igreja de santos no mundo, desde a primeira criação da igreja após a queda, assim esta influência e o fruto do Espírito nunca cessou nela. 

E quando, depois da conclusão do cânon das Escrituras, os dons miraculosos do Espírito parecem finalmente ter cessado e desaparecido na igreja, esta influência do Espírito em produzir o divino amor nos corações dos santos não cessou, mas tem sido mantida por todas as épocas desde aquele tempo até hoje, e assim será até o fim do mundo. E no fim do mundo, quando a igreja de Cristo for colocada no seu estado final, mais com­pleto e eterno, e todos os dons comuns, tal como convicção e iluminação, e todos os dons miracu­losos, estarão eternamente findados, ainda então o divino amor não cessará, mas será trazido à sua mais gloriosa perfeição em cada membro indivi­dual da igreja resgatada no céu. Então, em cada coração, aquele amor que agora aparece apenas como uma faísca, será aceso num brilhante e in­candescente fulgor, e cada alma resgatada será como se estivesse numa fogueira de divino e santo amor, e permanecerá e crescerá nesta gloriosa per­feição e bem-aventurança por toda a eternidade!

Eu darei apenas uma singular razão em favor da verdade da doutrina que tem sido deste modo apresentada. E a grande razão porque assim é, que os outros frutos do Espírito cessam, e o grande fruto do amor permanece, é que, o amor é o grande fim de todos os outros frutos e dons do Espírito. O princípio e o exercício do divino amor no coração, e os frutos dele na conduta, e a fe­licidade em que ele consiste e que jorra dele — estas coisas são o grande fim de todos os frutos do Espírito que cessam. O amor, o divino amor, é o fim para o qual toda a inspiração, e todos os dons miraculosos que já existiram no mundo, são apenas os meios. Eles foram somente meios de graça, mas o amor, o divino amor, é a graça mesmo; e não só isto, mas a soma de toda graça. Revelação e milagres nunca foram dados para qualquer outro fim senão apenas para promover santidade e edificar o reino de Cristo no coração dos homens, mas o amor cristão é a soma de toda santidade, e seu crescimento é apenas o cresci­mento do reino de Cristo na alma. Os frutos extraordinários do Espírito foram dados para re­velar e confirmar a palavra e a vontade de Deus, para que os homens crendo possam ser confor­mados àquela vontade; e eles eram valiosos e úteis somente na medida em que tendiam para este fim. 

E daí, quando este fim foi obtido, e quando o cânon das Escrituras, o grande e poderoso meio da graça foi completado, e as ordenanças do Novo Testamento e da última dispensação foram com­pletamente estabelecidas, os dons extraordinários cessaram, e chegaram ao fim, não sendo mais úteis. Dons miraculosos sendo um meio para um fim posterior são bons só enquanto se dirigem para aquele fim. Mas o divino amor é aquele fim mes­mo, e portanto permanece quando os meios para ele cessam. O fim não é somente um bem, mas a mais elevada qualidade de bem em si mesmo, e portanto permanece para sempre. E assim é com relação aos dons comuns do Espírito, que foram dados em todas as épocas, tais como iluminação, convicção, etc. Eles não tiveram nenhum bem em si mesmos, e somente são úteis enquanto tendem a promover aquela graça e santidade que sumaria e radicalmente consiste em divino amor, e, por­tanto, quando este fim é completamente satisfeito, haverá um término para sempre destes dons co­muns, enquanto o divino amor, que é o fim de todos eles, permanecerá eternamente.
Ler Mais

A Visão de Jonathan Edwards do Pecado Original


Um espantoso lampejo intuitivo a respeito do pecado original

Há um espantoso lampejo intuitivo que se destaca das 335 páginas do trabalho exegético e teológico poderoso de Edwards para entender o pecado original. Ele pergunta de que maneira um homem (como eu) pode estar moralmente envolvido no pecado de outro (como Adão). Ele responde indagando por que o "eu" que existe hoje é responsável pelos atos morais que realizei ou deixei de realizar ontem. A resposta, evidentemente, é que existe uma união entre o "eu" de hoje e o "eu" de ontem. Mas por que isso? - ele pergunta então. E responde: "Deus está mantendo a substância criada ou causando a sua existência a cada momento sucessivo, fato esse que, na sua totalidade, é equivalente a uma produção imediata a partir do nada, a cada momento, pois a sua existência neste momento não se deve apenas parcialmente a Deus, mas inteiramente a ele, e não se deve, em qualquer parte ou grau, à sua existência anterior".

Pode-se deduzir, portanto, que a união essencial entre o "eu" de hoje e o "eu" de ontem depende inteiramente da "constituição arbitrária" de Deus. "Não existe identidade ou singularidade... que não dependa da constituição arbitrária do Criador, o qual, mediante sua instituição soberana e sábia, une, desse modo, novos efeitos sucessivos, os quais ele trata como um só, comunicando-lhes propriedades, relações e circunstâncias". Isso significa que, em última análise, o motivo pelo qual o "eu" de hoje é moralmente responsável pelos atos do "eu" de ontem é: Deus quis arbitrariamente que fosse assim.

Uma constituição divina estabelece a verdade nas questões dessa natureza

Podemos ver aonde Edwards quer chegar com esse conceito em relação ao pecado original. Por que a posteridade de Adão é tão responsável pelo pecado dele a ponto de morrer como parte da condenação dele (Rm 5.18)? De que maneira pode haver uma verdadeira união entre nós e Adão a ponto de estarmos envolvidos com o pecado dele? De acordo com a resposta de Edwards, do mesmo modo que Deus determina arbitrariamente a união entre a consciência moral de uma pessoa de um dia para o outro, também pode estabelecer uma união entre Adão e sua posteridade de acordo com a analogia da unidade de uma árvore, incluindo suas raízes e seus ramos. Ele responde, então, à objeção de que isso não corresponde à verdade, dizendo: "A objeção da qual estamos tratando, levantada contra uma suposta constituição divina - segundo a qual Adão e sua posteridade são considerados e tratados como um, de acordo com a maneira e os propósitos atribuídos a eles, considerando-a incoerente com verdade, uma vez que não há constituição que possa tornar essas coisas uma só -, me parece elaborada sobre uma hipótese falsa, pois, ao que tudo indica, é a constituição divina que estabelece a verdade nas questões dessa natureza".

Não sei se isso ajuda o leitor a compreender a realidade do pecado original, ensinada pelo apóstolo Paulo em Romanos 5.12-21, mas, sem dúvida, foi útil para mim, não tornando tudo simples e claro, porém mostrando que há possibilidades de conceitualidade e realidade sobre as quais ainda nem sequer comecei a pensar. Isso significa que convém manter-me calado em vez de questionar um ensinamento bíblico difícil. Trata-se de um trabalho de humildade, que Edwards realizou por mim em mais de uma ocasião.

John Piper

Ler Mais

O Que Devemos Buscar? - Jonathan Edwards


O fim supremo exigido das criaturas morais é o fim supremo da criação

O que a Palavra de Deus requer que as partes inteligentes e morais do mundo busquem como fim supremo e transcendente pode ser considerado legitimamente o fim último para o qual Deus as criou e, o fim último para o qual ele criou o mundo inteiro.

Uma das principais diferenças entre as partes inteligentes e morais e o restante do mundo se encontra nisto: as primeiras são capazes de conhecer o seu Criador e o fim para o qual ele as criou e são capazes de aquiescer ativamente ao intento divino na sua criação e de levar esse propósito adiante, enquanto as outras criaturas só são capazes de levar adiante o propósito para o qual foram criadas de modo passivo e eventual.

E, tendo em vista que elas são capazes de conhecer o fim para o qual seu autor as criou, certamente é seu dever cumprir esse fim. A vontade delas deve ceder à vontade do Criador, buscando acima de tudo aquilo que é o fim último delas, aquilo que Deus busca acima de tudo como o fim último delas. Essa deve ser a lei da natureza e da razão em relação a elas.

E devemos supor que a lei revelada de Deus e a lei da natureza concordam entre si, e que a sua vontade como legislador deve concordar com a sua vontade como Criador. Logo, podemos deduzir devidamente que o que a lei revelada de Deus requer que as criaturas inteligentes busquem como o seu fim último e máximo é o que Deus, o seu Criador, determinou como fim último dessas criaturas e, portanto, [é] o fim da criação do mundo.
Ler Mais

Sem Nova Natureza Emoções Religiosas não são Espirituais – J. Edwards


EMOÇÕES ESPIRITUAIS SEMPRE COEXISTEM COM UMA MUDANÇA DE NATUREZA

Todas as emoções espirituais surgem de uma compreensão espiritual, na qual a alma vê a excelência e glória das coisas divinas. Essa visão espiritual tem um efeito transformador. "E todos nós com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito" (II Cor. 3:18). Este poder transformador vem somente de Deus - do Espírito do Senhor.

As Escrituras descrevem a conversão em termos que implicam ou significam uma mudança de natureza: nascer de novo, tornar-se novas criaturas, levantar-se dos mortos, ser renovado em espírito e na mente, morrer para o pecado e viver para a retidão, descartando o homem velho e vestindo o novo, partilhar da natureza divina, e assim por diante.

Segue-se que se não há mudança real e duradoura nas pessoas que pensam estar convertidas, então sua religião não têm nenhum valor, não importa quais tenham sido suas experiências. A conversão é o volver do homem total do pecado para Deus. É claro que Deus pode impedir as pessoas não convertidas de pecar, todavia na conversão Ele volve o próprio coração e sua natureza do pecado para a santidade. A pessoa convertida se torna uma inimiga do pecado. O que, então, podemos pensar de alguém que diz ter tido uma experiência de conversão, mas cujas emoções religiosas logo morrem, deixando-o muito parecido com a pessoa que foi antes? Ele parece egoísta, mundano, tolo, perverso e não cristão como sempre. Isso fala contra ele mais alto do que qualquer experiência religiosa possa falar a favor dele. Em Jesus Cristo, não importam circuncisão ou incircuncisão, experiência dramática ou silenciosa, testemunho maravilhoso ou enfadonho. A única coisa que importa é uma nova criação.

E claro que devemos levar em conta o temperamento natural dos indivíduos. A conversão não destrói o temperamento natural. Se nosso temperamento faz com que sejamos inclinados a certos pecados antes de nossa conversão, muito possivelmente tenderemos aos mesmos pecados depois da conversão. Entretanto, a conversão fará alguma diferença até nesse ponto. Embora a graça de Deus não destrua as falhas de temperamento, pode corrigi-las. Se um homem antes de sua conversão era inclinado por seu temperamento natural à lascívia, bebedeira ou vingança, sua conversão terá um poderoso efeito sobre essas inclinações más. Ainda pode correr perigo desses pecados, mais que quaisquer outros, porém eles não dominarão sua alma e sua vida como fizeram antes. Não serão mais parte de seu verdadeiro caráter. De fato, arrependimento sincero fará com que uma pessoa odeie e tema particularmente os pecados dos quais foi exteriormente mais culpado.

Ler Mais

Entusiasmo no Louvor não é Sinal de Conversão – J. Edwards


Muitos parecem pensar que se as pessoas forem entusiásticas no louvor a Deus, é um sinal certo de conversão. Examinei abreviadamente isso antes. Mais quero fazê-lo mais detalhadamente aqui, devido à grande ênfase colocada por alguns no louvor como sinal de vida espiritual.

Nenhum cristão condenará outra pessoa pelo entusiasmo no louvor a Deus. Não obstante, devemos reconhecer que tal entusiasmo não é sinal certo de conversão. Como já vimos, satanás pode imitar todos os tipos de emoções espirituais. E as Escrituras nos dão muitos exemplos de pessoas não salvas dando louvor a Deus e a Cristo entusiasticamente.

Quando Jesus realizou milagres em várias ocasiões, as Escrituras dizem das multidões: "a ponto de se admirarem todos e darem glória a Deus" (Mar. 2:12), "Então glorificavam ao Deus de Israel" (Mat. 15:31), "Todos ficaram possuídos de temor, e glorificavam a Deus" (Luc .7:16). Também eram entusiásticos louvando o próprio Jesus: "E ensinava nas sinagogas, sendo glorificado por todos" (Luc. 4:15). "Hosana ao Filho de Davi; bendito o que vem em nome do Senhor. Hosana nas alturas!" (Mat. 21:9). Infelizmente, sabemos quão poucos daqueles tiveram uma fé verdadeira em Deus e em Cristo.

Depois de Jesus ter subido aos céus, lemos em Atos que aqueles que viviam em Jerusalém "todos glorificavam a Deus pelo que acontecera" (At.4:21). Isso foi porque Pedro e João haviam curado um mendigo coxo. Mas quão poucos daqueles que viviam em Israel partilhavam a fé de Pedro e João! Quando Paulo e Barnabé pregaram aos gentios em Antioquia, esses gentios "regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor" (At. 13:48). Entretanto, somente alguns foram salvos; pois, "creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna."

Israel cantou louvores a Deus no Mar Vermelho, contudo em breve estava adorando o bezerro de ouro. Os judeus no tempo de Ezequiel mostraram muito amor por Deus com suas bocas, mas seus corações estavam presos ao dinheiro e às posses (Ez. 33:31-32). Isaías diz que aqueles que odiavam os verdadeiros servos de Deus clamavam: "Mostre o Senhor a sua glória" (Is. 66:5). Desses exemplos e muitos outros nas Escrituras, segue-se que o entusiasmo no louvor a Deus e a Cristo não é sinal confiável de conversão.

Ler Mais
 
Jonathan Edwards | by ©2010