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No que consiste a Santidade de Deus - J. Edwards


Não se deve considerar em conformidade com a razão qualquer idéia acerca do fim último de Deus na criação do mundo que implique, verdadeiramente, alguma indigência, insuficiência ou mutabilidade da parte de Deus, ou alguma dependência do Criador com relação à criatura pra qualquer parte de sua perfeição ou felicidade. Isso porque fica evidente, tanto pelas Escrituras quanto pela razão, que Deus é infinita, eterna, independente e imutavelmente glorioso e feliz; que ele não pode ser beneficiado de maneira alguma pela criatura, nem receber coisa alguma da criatura, nem ser sujeitado por outro ser qualquer sofrimento ou redução de sua glória ou felicidade.
A idéia de que Deus criou o mundo a fim de receber qualquer coisa em particular da criatura é contrária à natureza de Deus, mas também incoerente com o conceito de criação, o qual implica num ser receber do nada a sua existência e tudo o que corresponde a esta. Isso, por sua vez, implica na mais perfeita, absoluta e universal derivação e dependência. Se a criatura recebe TUDO de Deus, inteira e perfeitamente, como é possível que ela tenha algo a acrescentar a Deus a fim da fazê-lo, em qualquer sentido, maior do que antes, tornando o Criador dependente da criatura?
Tudo o que é bom e precioso em si mesmo é digno de ser estimado por Deus com reverência suprema. É, portanto, digno de ser estabelecido como o fim último de sua operação, caso seja passível de ser alcançado, uma vez que se pode supor que algumas coisas, preciosas e excelentes em si mesmas, não são obtidas por meio de qualquer operação divina, pois a sua existência, em todos os sentidos possíveis, deve ser concebida como algo anterior a qualquer operação divina. Assim, a existência de Deus e sua perfeição divina, apesar de serem infinitamente preciosas em si mesmas, não podem ser tidas como um fim de qualquer operação divina, pois não podem ser consideradas, em qualquer sentido, conseqüentes de quaisquer obras de Deus. Porém, tudo o que é, em si mesmo, absolutamente precioso, e passível de ser buscado e obtido, é digno de ser proposto como fim último da operação divina.
Logo aquilo que é, em si mesmo, mais precioso e alcançável pela criação é o fim supremo de Deus na criação. Tudo que é, em si mesmo, mais precioso e o era originalmente, antes da criação do mundo, e tudo que é alcançável por meio da criação, sendo também, de algum modo, superior em valor a todas as outras coisas, isso deve ser digno de ser o fim supremo de Deus na criação; deve, igualmente, ser digno de ser seu fim transcendente.
A retidão moral de Deus consiste em ELE ESTIMAR o que é mais precioso, ou seja, ELE PRÓPRIO.
Se o próprio Deus é, em qualquer sentido, devidamente passível de ser o seu fim na criação do mundo, é razoável supor que ele considera a reverência a si mesmo como o fim último e transcendente de suas obras, pois ele é digno em si mesmo de ser esse fim, uma vez que é infinitamente o maior e melhor de todos os seres. Todo o restante, no tocante a dignidade, importância e excelência, não é absolutamente nada em comparação a ele. E, portanto, se Deus demonstra a sua reverência pelas coisas segundo a sua natureza e suas proporções, deve ter a maior reverência possível por si mesmo. Seria contrário à perfeição de sua natureza, à sua sabedoria, à sua santidade e retidão perfeita, segundo as quais ele é inclinado a fazer tudo o que é mais correto, supor algo diferente.
Uma parte considerável da retidão moral de Deus, pela qual ele é inclinado a tudo o que é correto, adequado e amável (isto é, agradável, admirável) em si mesmo, consiste em ele ter a mais elevada deferência por aquilo que é, em si mesmo, superior e melhor. A retidão de Deus deve constituir uma devida reverência por aquilo que é objeto de respeito moral, ou seja, pelos seres inteligentes capazes de atos e relacionamentos morais. E, portanto, deve consistir, acima de tudo, em reverenciar apropriadamente o Ser ao qual essa reverência é devida, pois Deus é infinitamente mais digno de ser reverenciado. A dignidade de outros não é nada em comparação com a dignidade dele; a ele pertence toda reverência possível. A ele pertence toda a reverência de que qualquer ser Inteligente é capaz. A ele pertence Todo o coração. Logo, se a retidão moral do coração consiste em reverenciar sinceramente aquilo que é devido, ou que assim o requer por força de seu merecimento e propriedade, esse merecimento requer que se preste deferência infinitamente maior a Deus, e a negação dessa deferência pode ser considerada uma conduta infinitamente imprópria. Segue-se, portanto, que a retidão moral da disposição, inclinação ou afeição de Deus consiste SOBRETUDO numa deferência POR SI MESMO infinitamente superior à sua deferência por todos os outros seres; em outras palavras, é nisso que consiste a sua santidade.

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Só Conhecimento não basta - Jonathan Edwards



Não importa quanto as pessoas possam saber sobre Deus e a Bíblia, isto não é um sinal certo de salvação. O diabo antes de sua queda, era uma das mais brilhantes estrelas da manhã, uma labareda de fogo, um que excedia em força e sabedoria. (Isaías 14:12, Ezequiel 28:12-19).

Aparentemente, como um dos principais anjos, Satanás conhecia muito sobre Deus. Agora que ele está caído, seu pecado não tem destruído suas memórias de antes. O pecado destrói a natureza espiritual, mas não as habilidades naturais, tais como a memória. Que os anjos caídos têm muitas habilidades naturais pode ser visto em muitos versos da Bíblia, por exemplo, Efésios 6:12. "Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais". No mesmo modo, a Bíblia diz que Satanás é "mais astuto" do que os outros seres criados. (Gênesis 3:1, também 2 Coríntios 11:3, Atos 13:10) Portanto, podemos ver que o Diabo sempre teve grandes habilidades mentais e que é capaz de conhecer muito sobre Deus, sobre o mundo visível e invisível, e sobre muitas outras coisas.

Visto que sua ocupação no princípio era ser um anjo principal diante de Deus, é somente natural que compreender estas coisas sempre tenha sido de primeira importância para ele, e que todas suas atividades tenham a ver com estas áreas de pensamentos, sentimentos e conhecimento. Porque era sua ocupação original ser um dos anjos diante da própria face de Deus e porque o pecado não destrói a memória, é claro que Satanás conhece muito mais sobre Deus do que
qualquer outro ser criado. Depois da queda, podemos ver de suas atividades como a tentação, etc., (Mateus 4:3) que ele tem gastado seu tempo para aumentar seu conhecimento e suas aplicações práticas. Que o seu conhecimento é grande pode ser visto em quão enganador ele é quando tenta as pessoas. A astúcia de suas mentiras mostra quão sagaz ele é. Certamente não poderia manejar tão bem suas ludibriações sem um conhecimento real e verdadeiro dos fatos.
Este conhecimento de Deus e de Suas obras é desde o princípio. Satanás existia desde a
Criação, como Jó 38:4-7 mostra: "Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência... Quando as estrelas da alva juntas alegremente cantavam, e todos os filhos de Deus jubilavam?" Assim, ele deve conhecer muito sobre a maneira como Deus criou o mundo, e como Ele governa todos os eventos do universo. Além do mais, Satanás viu como Deus desenvolveu Seu plano de redenção no mundo; e não como um inocente espectador, mas como um inimigo ativo da graça de Deus. Ele viu Deus trabalhar nas vidas de Adão e Eva, em Noé, Abraão, e Davi. Ele deve ter tomando um especial interesse na vida de Jesus Cristo, o Salvador dos homens, a Palavra de Deus encarnada. Quão próximo prestou atenção a Cristo? Quão cuidadosamente ele observou Seus milagres e ouviu Suas palavras? Isto é o porque Satanás se pôs contra a obra de Cristo, e foi para o seu tormento e angústia que Satanás assistiu a obra de Cristo desvelada com sucesso.

Satanás, então, conhece muito sobre Deus e sobre a obra de Deus. Ele conhece o céu em primeira mão. Ele conhece o inferno também, com conhecimento pessoal como sua principal residência, e tem experimentado seus tormentos por todos estes milhares de anos. Ele deve ter um grande conhecimento da Bíblia: pelo menos, podemos ver que ele conhecia o suficiente para ver se conseguia tentar nosso Salvador. Além do mais, ele tem tido anos de estudo dos corações dos homens, seus campo de batalha onde ele luta contra nosso Redentor. Quanto labores, esforços, e cuidados o Diabo usou através dos séculos a medida que ludibriava os homens. Somente um ser com seu conhecimento e experiência sobre a obra de Deus, e sobre o coração do homem, portanto, poderia imitar a verdadeira religião e transformar-se em um anjo de luz. (2 Coríntios 11:14) Portanto, podemos ver que não há nenhuma quantidade de conhecimento sobre Deus e religião que poderia provar que uma pessoa tem sido salva de seu pecado. Um homem pode falar sobre a Bíblia, Deus, e a Trindade.

Ele pode ser capaz de pregar um sermão sobre Jesus Cristo e tudo que Ele fez. Imaginem, alguns podem ser capazes de falar sobre o caminho da salvação e a obra do Espírito Santo nos corações dos pecadores, talvez até mesmo mostrar a outros como se tornarem Cristãos. Todas estas coisas podem edificar a igreja e iluminar o mundo, todavia, não é uma prova certa da graça de Deus no coração de uma pessoa.

Pode também ser visto que as pessoas meramente concordarem com a Bíblia não é um sinal certo de salvação. Tiago 2:19 mostra que os demônios realmente, verdadeiramente, crêem na verdade. Da mesma forma que eles crêem que há um só Deus, eles concordam com toda a verdade da Bíblia. O diabo não é um herético: todos os artigos de sua fé estão firmemente estabelecidos na verdade.

Deve ser entendido que, quando a Bíblia fala sobre crer que Jesus é o Filho de Deus, como uma prova da graça de Deus no coração, a Bíblia tenciona dizer não um mero concordar com a verdade, mas outro tipo de crença. "Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo, é nascido de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que dele é nascido". (1 João 5:1) Este outro tipo de conhecimento é chamado "a fé dos eleitos de Deus, e o conhecimento da verdade, que é segundo a piedade". (Tito 1:1) Há um acreditar espiritual na verdade, o que será explicado mais tarde.


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Glorificação! - Jonathan Edwards

Os santos irão habitar com a natureza humana glorificada de Cristo no mesmo domicílio abençoado.

A natureza humana de Cristo ainda está em existência. Cristo ain­da continua e continuará por toda a eternidade sendo Deus e Homem. Sua natureza humana subsiste; não só a alma, mas o corpo também. Seu corpo ressuscitou dos mortos e este mesmo corpo foi exaltado e glorificado à mão direita de Deus. Aquele que estava morto, hoje vive para sempre.

Há um lugar, uma determinada região da criação exterior, onde Cristo foi e permanece. Este lugar é o céu dos céus, um lugar além de todos os céus visíveis: "Ora, isto — ele subiu — que é, senão que também, antes, tinha descido às partes mais baixas da terra? Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas" (Ef 4.9,10). E o mesmo lugar que o apóstolo chama de terceiro céu (2 Co 12.2), computando o céu aéreo como o primeiro céu, o céu estrelado como o segundo e o céu mais alto como o terceiro. Este é o domicílio dos anjos santos. Eles são chamados "os anjos dos céus" (Mt 24.36), "os anjos nos céus" (Mc 12.25), "os anjos que estão no céu' (Mc 13.32). Está escrito que "os seus anjos nos céus sempre vêem a face de meu Pai que está nos céus" (Mt 18.10). Em outros lugares, vemos os anjos diante do trono de Deus ou a rodear seu trono no céu, e de lá enviados, des­cendo com mensagens para este mundo. E para lá que as almas dos santos são conduzidas quando morrem. Ela não fica num domicílio separado do céu superior, mas fica guardada em um lugar de des­canso até o dia do julgamento. Esse lugar que uns chamam o Hades dos felizes, mas que na realidade vai diretamente para o céu. Esta é a casa dos santos, sendo a casa de seu Pai. Eles são "peregrinos e estrangeiros" na terra, e esta é a "outra e melhor pátria" para a qual estão viajando (Hb 11.13-16). Esta é a cidade à qual eles perten­cem; "A nossa cidade [cidadania, como significa corretamente a palavra] está nos céus" (Fp 3.20). Este é indubitavelmente o lugar ao qual o apóstolo se refere quando diz: "Nós estamos dispostos a abandonar nossa primeira casa, o corpo, e habitar na mesma casa, cidade ou país em que Cristo habita", que é a significação adequada das palavras no original. O que pode ser esta casa, cidade ou país, senão a casa que é mencionada em outros lugares como a casa deles, a casa do Pai deles, a cidade e país aos quais eles adequadamente pertencem, para a qual eles estão viajando durante o tempo em que continuam neste mundo e a casa, cidade e país onde sabemos que está a natureza humana de Cristo? Este é o descanso dos santos, ali está seu coração enquanto vivem na terra e ali está seu tesouro, a "herança incorruptível, incontaminável e que se não pode murchar, guardada nos céus para vós", que está designada para eles, reservada no céu (1 Pe 1.4). Eles nunca têm descanso adequado e pleno ate que cheguem ali. A alma, sem dúvida, quando ausente do corpo pela morte (as Escrituras a representam num estado de descanso perfeito), chega ali. Os dois santos, Enoque e Elias, que deixaram este mundo para, sem morrer, entrarem no descanso em outro mundo, foram para o céu. Elias foi visto subindo ao céu, como viram Cristo. Há toda razão para pensarmos que Enoque e Elias foram para o mesmo lugar de descanso ao qual os santos irão quando, pela morte, deixarem o mundo. Moisés, quando morreu no cume do monte, subiu para o mesmo domicílio glorioso com Elias, que subiu sem morrer. Eles são companheiros em outro mundo, pois apareceram juntos na transfiguração de Jesus. Eles estavam jun­tos naquele momento com Cristo no monte, quando houve uma representação da sua glória no céu. Não há o que duvidar que eles também estavam juntos com Ele mais tarde, quando de fato e ple­namente Ele foi glorificado no céu. Lá, incontestavelmente, estava a alma de Estêvão que subiu quando expirou. As circunstâncias de sua morte demonstram este fato, segundo relato que temos: "Mas ele, estando cheio do Espírito Santo e fixando os olhos no céu, viu a glória de Deus e Jesus, que estava à direita de Deus, e disse: Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem [ou seja, Jesus em sua natureza humana], que está em pé à mão direita de Deus. Mas eles gritaram com grande voz, taparam os ouvidos e arremeteram unâ­nimes contra ele. E, expulsando-o da cidade, o apedrejavam. [...] E apedrejaram a Estêvão, que em invocação dizia: Senhor Jesus, rece­be o meu espírito" (At 7.55-59). Antes de sua morte, ele teve uma visão extraordinária da glória que o Salvador tinha recebido no céu, não só para si próprio, mas para Jesus e todos os seguidores fiéis, de modo que Estêvão se encorajasse com a esperança desta glória para alegremente entregar a vida por Ele. Por conseguinte, ele morre nessa esperança, dizendo: "Senhor Jesus, recebe o meu espírito". Com estas palavras ele irrefutavelmente queria dizer: "Recebe o meu espí­rito, Senhor Jesus, para estar contigo nessa glória em que te vejo agora no céu, à mão direita de Deus". Para lá foi a alma do ladrão penitente na cruz. Cristo lhe disse: "Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23.43). O Paraíso é o terceiro céu mencionado em 2 Coríntios 12.2-4.0 que no versículo 2 é chama­do de terceiro céu, no versículo 4 é chamado de Paraíso. As almas dos apóstolos e profetas estão no céu, como está claro pelas palavras: Alegra-te sobre ela, ó céu, e vós, santos apóstolos e profetas" (Ap 18.20). A Igreja de Deus é de vez em quando diferenciada nas Es­crituras com estas duas partes: a parte que está no céu e a que está na terra: "Jesus Cristo, do qual toda a família nos céus e na terra toma o nome" (Ef 3.14,15); "E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo to­das as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão nos céus" (Cl 1.20). Que "coisas que estão nos céus" são essas pelas quais a paz foi feita mediante o sangue da cruz de Cristo, e que por Ele recon­ciliou a Deus, senão os santos nos céus? Do mesmo modo lemos sobre Deus "tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra" (Ef 1.10). Os "espíritos dos justos aper­feiçoados" estão na mesma "cidade do Deus vivo" com os "muitos milhares de anjos" e com "Jesus, o Mediador de uma nova aliança", como é evidente na epístola de Hebreus 12.22-24. A Igreja de Deus é chamada na Escritura pelo nome de Jerusalém, e o apóstolo fala da Jerusalém "que é de cima" ou "que está nos céus" como a mãe de todos nós. Portanto, se nenhuma parte da Igreja ou ninguém — exceto Enoque e Elias — está no céu, então não é provável que a Igreja fosse chamada a Jerusalém que está no céu.

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O Incessante Fruto do Espírito - Jonathan Edwards

 Nós podemos considerar a igreja de Cristo com relação aos seus membros em particular, dos quais ela consiste. Aqui ficará manifesto que o amor, o amor cristão, é um incessante fruto do Espírito. Cada um dos verdadeiros membros da igreja invisível de Cristo possui deste fruto no co­ração. O divino amor, o amor cristão, é implan­tado, habita, e reina ali, como um eterno fruto do Espírito, e como um fruto que nunca cessa. Ele nunca cessa neste mundo, mas permanece através de todas as provações e oposições, pois o apóstolo nos diz que nada "poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor" (Romanos 8.38,39). E ele não cessa quando os santos vierem a morrer. Quando os apóstolos e outros dos seus dias morreram e foram para o céu, eles deixaram atrás de si todos os seus dons mi­raculosos, com seus corpos. Contudo, eles não deixaram para trás o amor que estava nos seus corações, mas o carregaram consigo para o céu, onde ele foi gloriosamente aperfeiçoado. Quando os homens ímpios morrem, homens que tiveram as influências comuns do Espírito, seus dons cessarão eternamente, mas a morte nunca destrói o amor cristão, aquele grande fruto do Espírito, em qual­quer um que o tenha. Aqueles que o tem podem deixar e deixarão após si muitos outros frutos do Espírito que tiveram em comum com os homens ímpios. E ainda que eles deixarão tudo que era comum à sua fé, e esperança, e tudo aquilo que não é pertinente a este divino e santo amor, mesmo assim este amor eles não deixarão para trás, mas irá com eles para a eternidade e será aperfeiçoado lá, e viverá e reinará com glorioso e perfeito do­mínio nas suas almas para todo o sempre. E assim, outra vez,

 Nós podemos considerar a igreja de Cristo coletivamente, ou como um corpo. E aqui, nova­mente, ficará manifesto que o amor, o amor cristão, nunca cessará. Embora outros frutos do Espírito cessem na igreja, este nunca cessará. No passado, quando houve interrupções dos dons mi­raculosos do Espírito na igreja, e quando houve épocas nos quais nenhum profeta ou pessoa ins­pirada apareceu que possuía tais dons, ainda ali nunca houve qualquer interrupção total deste ex­celente fruto ou influência do Espírito. Dons miraculosos foram interrompidos por longo tempo que se estendeu de Malaquias até próximo ao nas­cimento de Cristo; mas em todo este tempo a influência do Espírito, em manter o divino amor na igreja, nunca foi suspensa. Como Deus sem­pre teve uma igreja de santos no mundo, desde a primeira criação da igreja após a queda, assim esta influência e o fruto do Espírito nunca cessou nela. E quando, depois da conclusão do cânon das Escrituras, os dons miraculosos do Espírito parecem finalmente ter cessado e desaparecido na igreja, esta influência do Espírito em produzir o divino amor nos corações dos santos não cessou, mas tem sido mantida por todas as épocas desde aquele tempo até hoje, e assim será até o fim do mundo. E no fim do mundo, quando a igreja de Cristo for colocada no seu estado final, mais com­pleto e eterno, e todos os dons comuns, tal como convicção e iluminação, e todos os dons miracu­losos, estarão eternamente findados, ainda então o divino amor não cessará, mas será trazido à sua mais gloriosa perfeição em cada membro indivi­dual da igreja resgatada no céu. Então, em cada coração, aquele amor que agora aparece apenas como uma faísca, será aceso num brilhante e in­candescente fulgor, e cada alma resgatada será como se estivesse numa fogueira de divino e santo amor, e permanecerá e crescerá nesta gloriosa per­feição e bem-aventurança por toda a eternidade!
Eu darei apenas uma singular razão em favor da verdade da doutrina que tem sido deste modo apresentada. E a grande razão porque assim é, que os outros frutos do Espírito cessam, e o grande fruto do amor permanece, é que, o amor é o grande fim de todos os outros frutos e dons do Espírito. O princípio e o exercício do divino amor no coração, e os frutos dele na conduta, e a fe­licidade em que ele consiste e que jorra dele — estas coisas são o grande fim de todos os frutos do Espírito que cessam. O amor, o divino amor, é o fim para o qual toda a inspiração, e todos os dons miraculosos que já existiram no mundo, são apenas os meios. Eles foram somente meios de graça, mas o amor, o divino amor, é a graça mesmo; e não só isto, mas a soma de toda graça. Revelação e milagres nunca foram dados para qualquer outro fim senão apenas para promover santidade e edificar o reino de Cristo no coração dos homens, mas o amor cristão é a soma de toda santidade, e seu crescimento é apenas o cresci­mento do reino de Cristo na alma. Os frutos extraordinários do Espírito foram dados para re­velar e confirmar a palavra e a vontade de Deus, para que os homens crendo possam ser confor­mados àquela vontade; e eles eram valiosos e úteis somente na medida em que tendiam para este fim. E daí, quando este fim foi obtido, e quando o cânon das Escrituras, o grande e poderoso meio da graça foi completado, e as ordenanças do Novo Testamento e da última dispensação foram com­pletamente estabelecidas, os dons extraordinários cessaram, e chegaram ao fim, não sendo mais úteis. Dons miraculosos sendo um meio para um fim posterior são bons só enquanto se dirigem para aquele fim. Mas o divino amor é aquele fim mes­mo, e portanto permanece quando os meios para ele cessam. O fim não é somente um bem, mas a mais elevada qualidade de bem em si mesmo, e portanto permanece para sempre. E assim é com relação aos dons comuns do Espírito, que foram dados em todas as épocas, tais como iluminação, convicção, etc. Eles não tiveram nenhum bem em si mesmos, e somente são úteis enquanto tendem a promover aquela graça e santidade que sumaria e radicalmente consiste em divino amor, e, por­tanto, quando este fim é completamente satisfeito, haverá um término para sempre destes dons co­muns, enquanto o divino amor, que é o fim de todos eles, permanecerá eternamente.


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Para que ninguém se Glorie - Jonatham Edwards


Os cristãos aos quais o apóstolo Paulo remeteu a epísto­la aos Coríntios viviam em uma parte do mundo onde a sabedoria humana ti­nha grande reputação. Como o apóstolo observa no versículo 22 deste capítulo, "os gregos buscam sabedoria". Corinto não ficava longe de Atenas, que por muitos séculos foi a mais famosa cidade da filosofia e aprendizagem no mundo. O apóstolo lhes observa como Deus, pelo evangelho, destruiu e aniquilou a sabedoria de­les. Os gregos cultos e seus notáveis filósofos, mediante toda sua sabedoria, não conheceram a Deus, nem puderam descobrir a ver­dade acerca das coisas divinas. Mas, depois de em vão terem feito o máximo que puderam, por fim aprouve a Deus se revelar pelo evangelho que eles consideravam tolice: "Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus esco­lheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes. E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são para aniquilar as que são" (1 Co 1.27,28).
O apóstolo os informa no texto por que Ele fez assim: "Para que nenhuma carne se glorie perante ele" — sobre cujas palavras po­demos fazer duas observações:
1.  O que Deus visa na disposição das coisas na questão da redenção, ou seja, para que o homem não se glorie em si mesmo, mas só em Deus; "para que nenhuma carne se glorie perante ele. Para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor" (1 Co 1.29,31).
2.Como este propósito é alcançado na obra de redenção, ou seja, pela dependência absoluta e imediata que os homens têm em Deus e nessa obra, visando ao seu benefício.
Em primeiro lugar, consideremos todo o benefício que eles pos­suem em Cristo e através dEle. Ele nos "foi feito por Deus sabe­doria, e justiça, e santificação, e redenção". Todo o benefício da criatura caída e redimida consiste nestas quatro características e não pode ser melhor distribuído do que nelas. Através de nós, Cristo é cada uma delas, e não temos nenhuma delas senão por Ele. Cristo nos foi feito por Deus sabedoria. NEle está todo o benefício e a verdadeira excelência do entendimento. A sabedo­ria era algo que os gregos admiravam, mas Cristo é a verdadeira luz do mundo; somente por Ele que a verdadeira sabedoria é concedida à mente. Através de Cristo temos justiça. E permane­cendo nEle que somos justificados, temos nossos pecados per­doados e somos recebidos como justos no favor de Deus. Atra­vés de Cristo temos santificação. Temos nEle a verdadeira exce­lência de coração como também de entendimento. Ele nos é feito justiça inerente como também imputada. E através de Cristo que temos redenção ou a verdadeira libertação de toda miséria e a concessão de toda felicidade e glória. Portanto, temos todo o nosso benefício por Cristo que é Deus.
Em segundo lugar, outra instância na qual aparece nossa depen­dência de Deus para o nosso próprio benefício, é esta, que Deus é quem nos deu Cristo, e que nós podemos ter estes benefícios através dEle, pois Ele nos "foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção".
Em terceiro lugar, é por Deus que estamos em Cristo Jesus e viemos a ter interesse nEle, e assim recebemos essas bênçãos que nos foram concedidas por Ele. Deus nos dá a fé por meio da qual aceitamos a Cristo.
Este versículo demonstra nossa dependência em relação a cada pessoa da Trindade, para o nosso próprio benefício. Somos de­pendentes de Cristo, o Filho de Deus, visto que Ele é nossa sabe­doria, justiça, santificação e redenção. Nós somos dependentes do Pai que nos deu Cristo e o fez ser estas características por nós. Nós somos dependentes do Espírito Santo, pois por meio dEle estamos em Cristo Jesus. O Espírito de Deus nos dá fé em Cristo, pelo qual o recebemos e o aceitamos.


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A diferença entre fim "supremo" e fim "principal" - J. Edwards

[1] Com o intuito de evitar qualquer confusão nas investigações acerca do fim para o qual Deus criou o mundo, deve-se observar uma distinção entre o fim principal com o qual um agente realiza algum trabalho e o fim supremo. Essas duas expressões nem sempre possuem exatamente o mesmo significado e, apesar de o fim principal ser sempre um fim supremo, nem todo fim supremo é sempre um fim principal. Um fim principal é o oposto de um fim inferior e um fim supremo é o oposto de um fim subordinado.
Fins "subordinados" são os meios usados para alcançar fins "supremos"

[21 Um fim subordinado é aquilo que um agente tem como objetivo, não em função desse próprio fim, mas sim em função de um fim ulterior do qual o primeiro é considerado um meio. Assim, quando um homem sai [para] uma viagem com o propósito de conseguir um medicamento para restaurar a sua saúde, a obtenção desse medicamento é o seu fim subordinado, mas não o fim que ele estima em si mesmo, considerando-o antes, inteiramente, um meio de alcançar um fim ulterior, ou seja, a saúde. Se o medicamento for separado desse fim ulterior, não será, de modo algum, desejado.
[3] Um fim supremo é aquele que o agente busca, no que ele faz, por si mesmo; é o que ele ama, valoriza e tem prazer por si mesmo, e não apenas como um meio de alcançar um fim ulterior. E o caso, por exemplo, de um homem que gosta do sabor de determinado tipo de fruta e despende esforços e recursos para obtê-la visando o prazer daquele sabor que ele estima de per si, do mesmo modo que estima o seu próprio prazer, e não visando a outro benefício que suponha ser possível obter por meio desse deleite.
[4] Alguns fins são subordinados não apenas a um fim supremo, mas também a outro fim, que é subordinado. Por certo, pode haver uma sucessão ou cadeia de vários fins subordinados, um dependente do outro, um sendo buscado por causa do outro, antes de se chegar a qualquer coisa que seja o objetivo do agente e que seja buscada por si mesma. É o caso, por exemplo, de um homem que vende uma peça de roupa para conseguir dinheiro - a fim de comprar implementos - para arar a sua terra - para obter uma safra - a fim de supri-lo com alimentos - para satisfazer o apetite. Ele procura satisfazer o seu apetite de per si, como algo que é, em si mesmo, grato. Aqui, o fim para o qual ele vendeu a peça de roupa para conseguir dinheiro não é outra coisa senão um fim subordinado, e não apenas para o fim supremo - a satisfação do seu apetite -, mas para um fim contíguo, uma vez que a compra e a obtenção de implementos agrícolas são apenas fins subordinados, com o objetivo de arar a terra. A aragem da terra não é um fim buscado de per si, mas sim com o objetivo de produzir uma safra; a safra produzida, por sua vez, é um fim buscado apenas para fazer o pão; e o pão é feito para satisfazer o apetite.
[5] Nesse caso, a satisfação do apetite é chamada de fim supremo, pois é o final da cadeia na qual se encontra o objetivo final do homem. Assim, sempre que um homem chega àquilo que deseja e cessa a busca, sendo o objeto do seu desejo algo valorizado por si mesmo, alcança um fim supremo, quer a cadeia seja mais longa, quer mais curta, mesmo que haja somente um elo ou um passo a ser dado antes de se chegar a esse fim. É o que acontece, por exemplo, quando um homem que gosta muito de mel coloca um pouco deste na boca por causa do prazer do sabor, sem ter outro objetivo. Assim, um fim visado por um agente pode ser tanto imediato quanto supremo; seu próximo fim e seu fim último. O fim que é buscado de per si, e não por causa de outro fim, é um fim supremo; nele, o propósito do agente se detém e cessa.3
[6] Uma coisa que é buscada pode ter a natureza de um fim supremo e também de um fim subordinado, do mesmo modo como pode ser buscada parcialmente em razão de si mesma e, parcialmente, visando a um fim ulterior. Assim, um homem pode, naquilo que faz, buscar o amor e o respeito de determinada pessoa, em parte de per si, pois lhe é agradável ser o objeto da estima e do amor de outros e, em parte, porque espera, por meio da amizade dessa pessoa, receber o auxílio dela em outras questões e, desse modo, ser colocado numa posição de vantagem para alcançar fins ulteriores.
Dos fins "supremos", o fim "principal" ou "transcendente" é o mais valorizado

[7] Um fim  principal, que é oposto a um fim inferior, é algo distinto de um fim supremo; ele é extremamente valorizado e, portanto, buscado com muito afinco pelo agente. É evidente que um fim mais estimado do que outro não é exatamente a mesma coisa que um fim estimado acima de todos, ou em si mesmo. Esse fato fica claro ao se considerar que:
[8] Dois fins diferentes podem ser supremos e, no entanto, não ser principais. Ambos podem ser estimados de per si e buscados mediante o mesmo esforço ou ato e, mesmo assim, um pode ser mais estimado do que o outro e buscado mais do que o outro. Por conseguinte, um homem pode sair [para] uma viagem com o propósito de obter dois benefícios ou prazeres, considerando ambos agradáveis em si mesmos e, no entanto, um pode ser muito mais agradável do que o outro, consistindo, portanto, naquilo a que ele se dedicará acima de tudo. Assim, um homem pode sair [para] uma viagem para pedir em casamento uma moça que lhe é extremamente querida e, também, para satisfazer a sua curiosidade de conhecer um telescópio ou algum instrumento óptico recém-inventado, sendo um fim não propriamente subordinado ao outro e, portanto, ambos podendo ser fins supremos. No entanto, obter a noiva amada pode ser o seu fim principal, enquanto o benefício de usar o instrumento óptico pode ser o seu fim inferior.
[9] Nem sempre um fim supremo é um fim principal, pois alguns fins subordinados podem ser mais estimados e buscados do que alguns fins supremos. Assim, um homem pode, por exemplo, ter dois objetivos em sua viagem: visitar amigos e receber uma grande soma de dinheiro. Este último pode não passar de um fim subordinado; o homem pode não estimar a prata e o ouro de per si, mas apenas por causa dos prazeres, satisfação e honra que estes proporcionam; o dinheiro é estimado apenas como um meio para obter alguma coisa. No entanto, a obtenção do dinheiro pode ser mais valorizada - e, portanto, ser um fim transcendente de sua viagem - do que o prazer de ver os seus amigos, embora esse último seja valorizado em si mesmo e, portanto, seja um fim supremo.

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Havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão - J. Edwards


Todos estes outros frutos do Espírito são apenas para uma época, e, ou já cessaram, ou, em algum tempo, cessarão. Quanto aos dons mi­raculosos de profecia e de línguas, etc, eles são apenas de uso temporário, e não podem ser con­tinuados no céu. Eles foram dados unicamente como meios extraordinários de graça que Deus outrora agradou-se em conceder à sua igreja no mundo. Porém, quando os santos que outrora go­zaram do uso destes meios foram para o céu, tais meios de graça cessaram, pois eles não mais eram necessários. Não há ocasião para quaisquer meios de graça no céu, quer ordinários, tais como os comuns e estabelecidos meios da casa de Deus, quer extraordinários, tais como os dons de línguas, de conhecimento e de profecia. Ele afirma que não há lugar para quaisquer destes meios de graça serem continuados no céu, porque lá o fim de todos os meios de graça é completamente obtido na per­feita santificação e felicidade do povo de Deus. O apóstolo falando no capítulo 4 de Efésios, dos vários meios de graça, diz que eles são dados para "o aperfeiçoamento dos santos, para o desempe­nho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade''. Porém, quando isto tiver acontecido, e os santos estiverem aperfeiçoados, e já chegado à medida da estatura da plenitude de Cristo, então não haverá posterior ocasião para quaisquer destes meios, quer ordinários, quer ex­traordinários. Neste sentido isto é muitíssimo semelhante aos frutos da lavoura, que necessitam de cultivo, chuva e luz solar, até que estão ma­duros e são colhidos, e então não necessitam mais destas coisas.

E como estes dons miraculosos do Espírito foram apenas temporários com relação àquelas pessoas em particular, que os gozaram, assim eles são apenas para uma época com relação à igreja de Deus considerada como um corpo coletivo. Estes dons não são frutos do Espírito, que foram dados para serem continuados na igreja durante todas as épocas. Eles foram continuados ou pelo menos concedidos de vez em quando, ainda que não sem algumas consideráveis interrupções, desde o co­meço do mundo até que o cânon das Escrituras fosse completado. Eles foram outorgados à igreja antes do começo do cânon sagrado, isto é, antes que o livro de Jó e os cinco livros de Moisés fos­sem escritos. Naquele tempo as pessoas tinham a palavra de Deus de outra maneira, a saber, por revelação imediata de vez em quando dada à emi­nentes pessoas, que foram como que pais na igreja de Deus, e esta revelação foi transmitida deles para outros por tradição oral. Era uma coisa muito comum naquele tempo, o Espírito de Deus co­municar a si mesmo em sonhos e visões, como aparece em várias passagens no livro de Jó. Eles tiveram extraordinários dons do Espírito antes do dilúvio. Deus revelou a si mesmo de uma maneira imediata e miraculosa a Adão e Eva, e da mesma forma a Abel, e a Enoque, que, como somos in­formados (Judas 14), tinha o dom de profecia. E do mesmo modo Noé teve revelações imediatas que lhe foram feitas, e da parte de Deus avisou o mundo antigo; e Cristo, pelo Espírito de Deus falando através dEle, foi e pregou aos espíritos agora em prisão, que em algum tempo foram desobedientes, quando então a longanimidade de Deus esperava enquanto a arca estava sendo preparada (1 Pedro 3.19,20). E da mesma forma Abraão, Isaque e Jacó foram favorecidos com revelações imediatas, e José tinha extraordinários dons do Espírito, e assim também Jó e seus amigos. Desde este tempo até o tempo de Moisés, parece ter ha­vido uma interrupção dos dons extraordinários do Espírito; e do tempo de Moisés até o tempo de Malaquias eles foram continuados numa sucessão de profetas, ainda que com algumas interrupções. Depois deste, parece ter havido uma longa inter­rupção de uns quatrocentos anos, até a aurora do dia do evangelho, quando o Espírito começou no­vamente a ser dado em seus dons extraordinários, como para Ana, Simeão, Zacarias, Isabel, Maria, José e João Batista.

Estas comunicações do Espírito de Deus fo­ram dadas para preparar o caminho para Aquele que tinha o Espírito sem medida, o grande profeta de Deus, por meio de quem o Espírito é comu­nicado a todos os outros profetas. E nos dias da sua carne, os seus discípulos tiveram uma medida dos dons miraculosos do Espírito, sendo assim capacitados a ensinar e operar milagres. Mas de­pois da ressurreição e ascenção, houve a mais completa e notável efusão do Espírito em seus dons miraculosos que jamais aconteceu, começando com o dia de Pentecostes, depois que Cristo res­suscitara e ascendera ao céu. E como conseqüência disto, não somente aqui e ali uma pessoa extraor­dinária era dotada com estes dons extraordinários, mas eles eram comuns na igreja, e assim conti­nuaram durante a existência dos apóstolos, ou até à morte do último deles, até mesmo à do apóstolo João, que aconteceu cerca de 100 anos depois do nascimento de Cristo; de modo que os primeiros cem anos da era cristã, ou o primeiro século, foi a era dos milagres. Todavia, logo depois daquilo, tendo sido completado o cânon das Escrituras quando o apóstolo João escreveu o livro de Apo­calipse, pouco antes da sua morte, estes dons miraculosos não mais foram continuados na igreja. Pois agora havia sido completada uma firme re­velação escrita da mente e da vontade de Deus, na qual Deus tinha plenamente gravado uma per­manente e suficiente regra para sua igreja em todas as épocas. E sendo desfeita a nação e igreja judia, e sendo estabelecida a igreja cristã e a última dispensação da igreja de Deus, os dons miraculosos do Espírito não eram mais necessários, e, portanto, cessaram, pois, ainda que haviam continuado na igreja por tantas épocas, eles cessaram.

Deus os fez cessar porque não havia ocasião posterior para eles. E assim foram cumpridas as palavras do texto: "havendo profecias, desapare­cerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará". E agora parece haver um término para todos os frutos do Espírito tais como estes, e nós não temos razão para esperá-los mais. E quanto àqueles frutos do Espírito que são comuns, tais como a convicção, a iluminação, o crer, etc., que são comuns tanto para o crente como para o in­crédulo, estes são dados em todas as épocas da igreja no mundo; e ainda com respeito às pessoas que têm estes dons comuns, eles cessarão quando elas morrerem; e com respeito à igreja considerada coletivamente, eles cessarão, e não haverá mais deles depois do dia do julgamento. Eu passo, então, a mostrar como foi proposto. 
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J. Edwards - A Queda como uma redução do interesse pela alma.

Em 1738, Edwards pregou uma série de mensagens sobre 1 Coríntios 13, publicada posteriormente com o título Charity and Its Fruits. Seu sermão sobre o versículo 5 - "[o amor] não procura os seus interesses" - é chamado "O espírito da caridade, o oposto de um espírito egoísta". Nele, Edwards apresenta o seu diagnóstico do coração humano. Tudo começou na queda do homem em pecado no jardim do Éden:
A ruína que a Queda provocou na alma do homem consiste, em grande parte, no fato de que ele perdeu os princípios mais nobres e amplos, sendo subjugado inteiramente pelo governo do amor-próprio ... Logo depois da Queda, a mente do homem se reduziu em relação à sua grandeza e extensão primitivas, tornando-se extremamente pequena e limitada ... enquanto, em outros tempos, sua alma se encontrava sob o governo do princípio nobre do amor divino pelo qual era, por assim dizer, expandida para ter um tipo de compreensão de todas as outras criaturas; e não apenas isso, mas também ... estendida até o Criador, e dispersada amplamente naquele oceano infinito ... Porém, assim que foi cometida a transgressão, esses princípios nobres se perderam imediatamente e toda a amplitude excelente da alma humana desapareceu e, daí por diante, se reduziu até um ponto minúsculo, limitado e preso em si mesmo, excluindo todo o resto. Deus foi abandonado, as outras criaturas foram abandonadas e o homem se retraiu e passou a ser inteiramente governado por princípios restritos e egoístas. O amor-próprio se tornou o senhor absoluto de sua alma, depois que os princípios mais nobres e espirituais pressentiram o perigo e fugiram.

O mais importante para os nossos propósitos é que, na Queda, ou seja, no pecado original, o coração humano sofreu uma redução; ele se contraiu e se tornou "extremamente pequeno e limitado"; abandonou a Deus e passou a ser escravo de um amor-próprio individualista, restrito e confinado. Esse é 0     grande problema do cristão - seja ele moderno ou antigo - e sua vida
pública. Amamos a nós mesmos de modo estreito e limitado e somos
indiferentes aos outros, à sociedade, às nações e a Deus.
.    O hedonismo cristão pode sobreviver à acusação de Edwards de amor-próprio?

Isso dá origem a uma questão - um problema para alguém como eu -, que gosta de usar a expressão "hedonismo cristão" para descrever a obediência bíblica e a teologia de Jonathan Edwards. O hedonismo cristão sugere que toda verdadeira adoração e virtude envolve a busca pelo prazer supremo - o que parece muito uma forma de amor-próprio.

Até mesmo o título deste capítulo levanta essa questão com as palavras "O prazer em Deus e a transformação cultural". A expressão "prazer em Deus" parece confundir as coisas, deixando implícito que devo buscar algum prazer para mim mesmo, quando Edwards diz que a essência da depravação humana é escravidão ao "amor-próprio". Se encararmos esse problema, chegaremos bem perto do cerne da ética de Edwards e veremos como é uma pessoa de espírito público autêntico.
O uso negativo da expressão "amor-próprio" - Egoísmo estreito

A primeira coisa a dizer é que Edwards usa o termo "amor-próprio" de duas maneiras bastante diferentes, uma negativa e outra neutra. O uso negativo é o mais freqüente. Em suas palavras: "O amor-próprio, conforme essa expressão é usada coloquialmente, significa, em geral, a deferência do homem pelo seu eu privado, ou o amor por si mesmo visando ao seu interesse privado"} E isso o que Edwards quer dizer com "amor-próprio" ao diagnosticar a nossa depravação.
Trata-se de um termo praticamente sinônimo de egoísmo. De acordo com Edwards, as pessoas governadas pelo amor-próprio "colocam a felicidade em boas coisas que são restritas ou limitadas a elas, e que excluem outros. E isso é egoísmo. E a isso que se relaciona mais diretamente o amor-próprio condenado pelas Escrituras". É o que Paulo tem em mente ao dizer em 1 Coríntios 13.5: "[o amor] não procura os seus interesses". "Quando se diz que o amor não procura os seus interesses, deve-se entender que se trata do seu bem privado, o bem limitado a si mesmo". Em outras palavras, o verdadeiro amor espiritual não é governado por uma busca estreita, limitada e confinada do próprio prazer.

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J. Edwards – Uma Mente apaixonada por Deus.


Jonathan Edwards pode nos ajudar. E a primeira coisa que ele nos diria seria: Cuidem para que, até mesmo na descrição do problema, seu diagnóstico não seja vitimado pelos termos do pragmatismo que constitui o problema. Em outras palavras, não lamentem a condição do evangelicalismo por este se encontrar oco e frágil - como se o verdadeiro objetivo fosse a proeminência permanente, e não temporária. Antes, lamentem a situação do evangelicalismo, pois ela contradiz a verdade de Deus e desdoura a sua excelência.
A que ele estaria se referindo? A algo que está implícito no título deste capítulo - "Jonathan Edwards, uma mente apaixonada por Deus". Temos, aqui, dois termos voltados para Deus: mente o paixão. Essas duas palavras correspondem a uma das lições mais profundas que Jonathan Edwards ensinou. A mente (ou entendimento) e a paixão (ou sentimento) correspondem a dois atos importantes de Deus e a duas maneiras de os seres humanos, feitos à sua imagem, refletirem a glória de Deus. Edwards se expressa da seguinte maneira nos seus cadernos - chamados de Miscelâneas -, muitos dos quais formaram a base para O fim para o qual Deus criou o mundo

Deus é glorificado em si mesmo destas duas maneiras: 
1. Ao revelar-se ... em seu entendimento perfeito [de si mesmo], ou no seu Filho, que é o resplendor da sua glória. 
2. Ao desfrutar a si mesmo e deleitar-se em si mesmo, fluindo em amor infinito e deleite para consigo mesmo, ou no seu Espírito Santo ... Assim, Deus glorifica a si mesmo em relação às suas criaturas também de duas maneiras: 
1. Ao revelar-se ... ao entendimento delas. 
2. Ao comunicar-se ao coração delas, no regozijo e no prazer delas nas manifestações divinas que lhes são concedidas pelo próprio Deus ... Deus é glorificado não apenas no fato de sua glória ser vista, mas no fato de essa glória ser objeto de deleite. Quando aqueles que a vêem se deleitam nela, Deus é mais glorificado do que quando eles apenas a vêem. Sua glória é, então, recebida por toda alma, tanto pelo intelecto quanto pelo coração. Deus fez o mundo a fim de poder transmitir a sua glória, e fez as criaturas a fim de poderem receber essa glória, não apenas na mente, mas também no coração. Aquele que demonstra ter uma idéia da glória de Deus [não] glorifica a Deus tanto quanto aquele que demonstra de que aprova e se deleita nessa glória.
Glorificar a Deus ao desfrutá-lo para sempre
Trata-se da mesma visão de Deus que apresentamos no Capítulo Um. E, como eu disse naquela ocasião, é praticamente impossível exagerar o que a sua teologia e a sua pregação significam para a minha vida. Quase tudo o que escrevi é uma tentativa de explicar e ilustrar essa verdade. No Capítulo Um, parafraseei Edwards com as palavras: "Deus é plenamente glorificado em nós quando nos satisfazemos inteiramente nele". Aqui, a minha paráfrase é: "O fim maior do ser humano é glorificar a Deus ao desfrutá-lo para sempre". Essa é a essência daquilo que chamo de "hedonismo cristão".3 Em última análise, não há conflito entre a paixão de Deus por ser glorificado e a paixão do homem por ser saciado. Eis outro modo de Edwards expor essa idéia:
Assim, pelo fato de prezar infinitamente a própria glória, que consiste do conhecimento de si mesmo, do amor por si mesmo e da complacência4 [isto é, satisfação, deleite] e alegria em si mesmo, ele prezou a imagem, a transmissão ou a participação dessas coisas na criatura. E é pelo fato de prezar-se que ele se deleita no conhecimento, no amor e na alegria das criaturas, uma vez que ele próprio é o objeto desse conhecimento, amor e complacência [isto é, satisfação, deleite] ... [Assim] A deferência de Deus pelo bem da criatura [isto é, a nossa paixão por sermos saciados] e sua deferência por si mesmo [isto ê, a sua paixão por ser glorificado] não é dividida, mas sim unida, uma vez que o seu objetivo - a felicidade da criatura - é a felicidade da união da criatura com ele.

Nossa paixão pela alegria nunca é excessiva

Segue-se de tudo isso que é impossível alguém buscar a alegria ou satisfação com paixão, intensidade ou zelo excessivos. Nas palavras de Edwards: "Suponho que não seja possível dizer de qualquer pessoa que o seu amor por sua alegria ... pode ser de um grau demasiadamente elevado".6 Talvez essa paixão esteja voltada para as coisas erradas, mas nunca é intensa demais. É o mesmo que C. S. Lewis disse na passagem profética que começou a virar o meu mundo de cabeça para baixo em 1968:
Se considerarmos as promessas ousadas de recompensas e a natureza surpreendente das recompensas prometidas nos evangelhos, pode nos parecer que o Senhor não considera os nossos desejos demasiadamente intensos, mas sim demasiadamente fracos. Somos criaturas sem ardor, que brincamos com a bebida, o sexo e a ambição enquanto a alegria infinita nos é oferecida; somos como uma criança ignorante que quer continuar brincando na lama numa favela, pois não sabe a que se refere a oferta de passar as férias à beira-mar. Somos fáceis demais de agradar.7
O pecado é o abandono suicida da alegria

Em outras palavras, a busca pela satisfação da nossa alma - da nossa alegria, do nosso deleite e da nossa felicidade - não é pecado. O pecado consiste justamente no contrário: buscar a alegria onde não se pode encontrar qualquer alegria duradoura. "Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas" (Jr 2.13). Pecar é tentar saciar a sede insaciável de nossa alma com qualquer coisa além de Deus. Ou, mais sutilmente, pecar é buscar a satisfação na direção certa, mas com uma disposição morna e titubeante (Ap 3.16). 

John Piper
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