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Jonathan Edwards e a Visão Beatífica.

Jonathan Edwards uma vez pregou um sermão a respeito da visão beatífica, baseado no texto de Mateus 5.8. Em sua exposição, ele sustenta que a visão de Deus não será um ato físico:
Não se trata de qualquer visão com olhos físicos: a bem-aventurança da alma não entra pela porta. Isto tornaria a bem-aventurança dependente do corpo, ou a felicidade da porção superior do homem dependente da inferior (...) Não se trata de qualquer forma ou representação visível, nem de contorno, nem de cor, nem de luz brilhante, que é vista, na qual esta grande felicidade da alma consiste.
Embora a visão de Deus venha a consistir numa percepção espiritual, isto não significa que não teremos visão física no céu. Em nossos corpos ressurretos seremos capazes de desfrutar da visão do esplendor de Cristo:
Os santos no céu contemplarão uma glória visível porquanto estão na natureza humana de Cristo, a qual está unida sob a forma da Trindade, que é o corpo daquela pessoa que é Deus; e terão a aparência indubitável de uma glória e beleza divinas e imutáveis no corpo glorificado de Cristo, o que será de fato uma visão agradável e abençoada de se ver.
Mas a beleza do corpo de Cristo, vista através de olhos físicos, será encantadora e deleitável, sobretudo porque expressará sua glória espiritual.
Esta doce e majestosa visão do Cristo encarnado e glorificado não será a última visão de Deus de que nos falam as Escri­turas. Edwards diz:

Mas nisto consiste ver a Deus. E ter uma compreensão imediata, sensível e exata da gloriosa excelência e do amor de Deus.
Quando Edwards fala de uma visão "imediata" de Deus, ele quer exprimir uma visão que não é indireta, através dos olhos. É uma "visão" direta da mente. Ele descreve detalhadamente qual o significado bíblico da "visão" de Deus. A "visão" de Deus é assim chamada porque, como Edwards assinala:

a visão será muito direta; como quando vemos coisas com os olhos físicos. Deus irá, por assim dizer, revelar-se imedia­tamente . mentes, de modo que elas poderão contemplar a glória e o amor de Deus, do mesmo modo que um homem contempla o semblante de um amigo.
Edwards fornece uma segunda razão, pela qual a visão beatífica é chamada de "visão":

Ela é chamada de visão porque será mais do que certa. Quando as pessoas vêem uma coisa com os seus próprios olhos, isto lhes dá a maior certeza que elas podem ter a res­peito desta coisa, maior do que aquela que elas poderiam ter a partir da informação de terceiros. Deste modo, a visão que elas terão no céu afastará qualquer incredulidade.
Em terceiro lugar, Edwards cita a vivacidade desta experiência como sendo tão nítida quanto qualquer razão terrena:

Ela é chamada de visão, porque a percepção da glória e do amor de Deus é tão clara e vigorosa quanto qualquer coisa que vemos com olhos físicos (...) Os santos no céu verão a glória do corpo de Cristo, após a ressurreição, com olhos físi­cos, mas esta maneira de ver a glória visível não será mais imediata e perfeita do que a contemplação da glória espiri­tual e divina de Cristo (...) Eles contemplarão Deus de um modo inefável, e para nós inconcebível.
Finalmente, Edwards fala da visão da íntima natureza espi­ritual de Deus:
 A visão intelectual que os santos terão de Deus os tornará  tão sensíveis à sua presença, e lhes dará tão grandes vantagens no trato com ele, quanto a visão dos olhos físicos o fazem em relação a um amigo terreno (...) Mas suas almas terão a mais clara visão da própria natureza espiritual de Deus. Elas deverão contemplar seus atributos e disposição concer­nentes a eles de um modo mais que imediato, e portanto com uma certeza maior do que é possível de encontrar na alma de um amigo terreno através de seu discurso e de sua conduta.
Desta maneira, Edwards fornece razões lúcidas pelas quais a visão beatífica é chamada de visão. Ela envolve uma vista mais pura, mais ampla e mais deleitável do que uma visão terrena pode captar. Ele então explica a bem-aventurança que flui da visão. Ela é que torna a visão realmente beatífica:
Primeiro. Ela produz um deleite adequado à natureza de uma criatura inteligente (...) A racionalidade do homem é, por assim dizer, um clarão celestial, ou, na linguagem do sábio, a "vela de Deus". Nela consiste essencialmente a imagem natural de Deus, é ela a faculdade mais nobre do homem, é ela que deve reger as outras faculdades; sendo concedida para este fim, que ela possa dirigir a alma (...) A satisfação intelectual consiste na contemplação de excelências e belezas espirituais, mas as gloriosas excelência e beleza de Deus são para os favoritos (...) É algo extremamente agradável para a razão, que a alma deva ela própria deleitar-se nisto (...) a fim de que, quando for desfrutada, esteja com paz interior e uma doce tranqüilidade na alma.
No prazer da visão beatífica a alma finalmente alcança o fim de sua busca suprema. Finalmente adentramos este refúgio, onde encontramos nossa paz e descanso. O fim da inquietação é alcançado; a guerra entre a carne e o espírito termina. A paz que transcende a qualquer coisa neste mundo enche o coração. Alcançamos o apogeu da excelência e doçura somente sonhado neste corpo mortal. Deveremos vê-lo como ele é. Nenhum véu, nenhum escudo para esconder sua face. A visão imediata e direta inundará a alma a partir da fonte jorrando do alto. A alegria mais sublime, o prazer mais intenso, o deleite mais puro serão nossos sem mistura e sem fim.

Uma prova desta felicidade irá apagar todas as memórias dolo­rosas e curar cada ferida terrivelmente exposta neste vale de lágri­mas. Nenhuma cicatriz restará. A jornada do peregrino estará completada. O corpo da morte, o peso do pecado, se evaporarão no momento em que contemplarmos a face de Deus. 
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Amor Infinito por Si Mesmo - Jonathan Edwards


Deus se coloca acima de tudo. Minha intenção é mostrar de que maneira o seu amor infinito por si mesmo e seu deleite em si mesmo o levam naturalmente a estimar essas coisas e se deleitar nelas, ou, ainda, de que maneira a estima por elas fica implícita na estima pela plenitude infinita de bem que há nele.
Ao se deleitar no exercício de sua capacidade,
Deus se deleita em si mesmo e faz de si mesmo o seu fim

No tocante à primeira das particularidades mencionadas - a deferência de Deus para com o exercício desses atributos de sua natureza que, em suas devidas operações e resultados, consiste numa capacidade de realizar tais operações - não é difícil imaginar que a deferência de Deus para consigo mesmo e a estima de suas perfeições devem levá-lo a estimar os exercícios e expressões desses atributos, visto que a sua excelência consiste na relação de tais atributos com o uso, o exercício e a operação deles. O amor de Deus por si mesmo e por seus atributos o leva, portanto, a deleitar-se naquilo que é o uso, o fim e a operação desses atributos.

 Se uma pessoa tem muito estima e se deleita nas virtudes de um amigo - como sua sabedoria, justiça, etc. - relacionadas à ação, isso a levará a se deleitar no exercício e nos resultados autênticos dessas virtudes. Assim, se Deus estima e se deleita nas próprias perfeições e virtudes, não pode evitar estimar e se deleitar nas expressões e nos resultados autênticos delas. Assim, ao se deleitar nas expressões de suas perfeições, ele manifesta um deleite por si mesmo, e, ao tornar as expressões das próprias expressões o seu fim, ele faz de si mesmo o seu fim.
Ao se deleitar no fato de sua glória ser
conhecida e desfrutada, Deus se deleita em si mesmo
e faz de si mesmo o seu fim

E, com respeito à segunda e terceira particularidades, a questão é igualmente clara, tendo em vista que aquele que ama qualquer ser e apresenta disposição de ter suas virtudes e perfeições em alta consideração e se deleitar grandemente nelas, deve, em razão da mesma disposição, ter muito prazer em fazer que suas excelências sejam descobertas, reconhecidas, estimadas e apreciadas por outros. Aquele que ama qualquer coisa também ama, naturalmente, a aprovação de tal coisa e se opõe à desaprovação desta. É o que acontece quando alguém ama as virtudes de um amigo. Também é o que acontece, necessariamente, quando um ser se ama e aprecia grandemente as próprias excelências. Assim, é apropriado que ele se ame desse modo e estime as próprias qualidades preciosas. Ou seja, é apropriado que ele se deleite em que suas excelências sejam vistas, reconhecidas e desfrutadas. É algo que fica implícito no seu amor por si mesmo e por suas perfeições, e, ao fazer disso o seu fim, ele faz de si mesmo o seu fim.
Em sua disposição de fazer sua plenitude transbordar, Deus faz de si mesmo o seu fim

 E, a respeito da quarta e última particularidade, ou seja, a de que Deus apresenta uma disposição para a comunicação copiosa e emanação gloriosa da plenitude infinita de bem que ele possui e, igualmente, do seu conhecimento, suas excelências e felicidade, ao se considerar a questão com toda a atenção, fica evidente que, nisso também, Deus faz de si mesmo o seu fim para manifestar claramente e dar testemunho de uma deferência máxima e suprema para consigo mesmo.

A disposição geral de transbordar em sua plenitude precede e alicerça a existência das criaturas

Tomando como base apenas essa disposição de causar uma emanação de sua glória e plenitude - que são anteriores à existência de qualquer ser e devem ser consideradas os motivos que o impeliram a dar existência a outros seres -, não se pode dizer propriamente que Deus fez da criatura o seu fim, do mesmo modo que fez de si mesmo. Porquanto, nesse momento, a criatura ainda não é considerada existente. Essa disposição ou desejo de Deus deve ser anterior à existência da criatura, deve estar presente de antemão, pois é a base original da existência futura, projetada e ante vista da criatura.
 A benevolência de Deus, no tocante à criatura, pode ser considerada num sentido mais amplo ou em outro mais restrito. Num sentido mais amplo, é possível que se refira simplesmente à boa disposição de sua natureza de comunicar sua plenitude em geral, [como] seu conhecimento, sua santidade e felicidade e fazer as criaturas existirem a fim de receberem tal comunicação. Pode-se chamar isso de benevolência ou amor, pois é a mesma disposição favorável exercitada no amor. É a fonte da qual o amor, no seu sentido mais exato, se origina e tem a mesma inclinação geral e o mesmo resultado no bem-estar da criatura. No entanto, não pode apresentar qualquer existência criada presente ou futura particular para o seu objeto, pois é anterior a qualquer objeto e a própria fonte da futurição [isto é, do vir a ser] de sua existência. Na verdade, também não é diferente do amor de Deus por si mesmo, como ficará mais claro adiante.

O amor de Deus pode, ainda, ser considerado num sentido mais estrito do que a disposição geral de comunicar o bem, voltando-se, nesse caso, para determinados objetos. No sentido mais estrito e correto, o amor pressupõe a existência de um objeto amado, pelo menos como conceito e expectativa, representado na mente com referência ao futuro. Deus não amou os anjos no sentido mais estrito, mas em decorrência de sua intenção de criá-los e, portanto, em função do conceito de anjos que viriam a existir. Logo, o seu amor por eles não foi exatamente o que estimulou nele a intenção de criá-los. O amor ou a benevolência, considerado em termos mais estritos, pressupõe um objeto existente, do mesmo modo que a compaixão [pressupõe] um objeto miserável e sofredor. 

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Doutrina e Exemplo - Jonathan Edwards


Por Jonathan Edwards
Presidente da Universidade de Princeton - 1758

Existem duas maneiras para representar e recomendar a verdadeira religião e a virtude ao homem — uma é mediante a doutrina e o preceito; a outra é por instância e exemplo. Ambas são abundantemente usadas nas Sagradas Escrituras. 

Deus também, na sua providência, tem se inclinado a fazer uso de ambos esses métodos para trazer luz e motivações à humanidade para que ela cumpra seus deveres, em todas as épocas. Ele tem, de tempos em tempos, levantado ensinadores eminentes para exibirem e darem testemunho da verdade pela sua doutrina, e para oporem-se aos erros, às trevas e à impiedade do mundo. Também Ele tem levantado pessoas eminentes que têm deixado brilhantes exemplos daquela religião que é ensinada e prescrita na Palavra de Deus; exemplos esses que, no curso da providência divina, têm sido mostrados ao povo. 

Um exemplo assim temos na excelente pessoa cuja vida é publicada nestas páginas. Seu exemplo é visto com uma grande variedade de circunstâncias tendentes a prender a atenção do povo religioso. Ele foi o instrumento de um mui notável despertamento, uma maravilhosa e permanente alteração e transformação moral de pessoas que tornam a mudança peculiarmente rara e admirável. 

No relato que segue, o leitor terá a oportunidade de ver não somente quais foram as circunstâncias externas e notáveis desta pessoa, seu comportamento, e como gastou seu tempo, dia após dia, mas também o que se passava em seu próprio coração. Aqui, o leitor verá a maravilhosa mudança que ele experimentou em sua mente e em sua disposição; verá a maneira como aquela mudança foi operada, como continuou, quais foram suas conseqüências na disposição íntima dele, nos seus pensamentos, afeições e exercícios secretos, através de muitas dificuldades e provas por mais de oito anos. 

Estou longe de supor que os exercícios e as experiências internas de Brainerd, ou sua conduta externa, estiveram livres de imperfeição. O exemplo de Jesus Cristo é o único que já existiu, na natureza humana, totalmente perfeito; o que, portanto, é um critério para testar todos os outros exemplos. As disposições, as atitudes e as práticas de outros devem ser recomendadas e seguidas na medida que foram seguidoras de Cristo. 

Há uma coisa facilmente discernível na vida de Brainerd, que por muitos pode ser considerada uma objeção às evidências extraordinárias de sua religiosidade e devoção, a saber, que ele era, por sua própria constituição e temperamento natural, muito inclinado para a melancolia e desânimo de espírito. Há quem pense que a religião é algo melancólico e que aquilo que se chama de experiência cristã é pouco mais do que melancolia, que perturba o cérebro e excita imaginações entusiásticas. 

Mas, ainda que o temperamento e a constituição de Brainerd o inclinassem ao desalento, não é justo supor que sua extraordinária devoção fosse apenas o fruto de uma imaginação calorosa. A despeito dessa inclinação para o desânimo, é claro que ele era um daqueles homens que, usualmente, vivem bem longe de uma imaginação fervilhante, sendo dotado de um gênio penetrante, de pensamento claro, de raciocínio lógico e de julgamento muito exato, como era patente para todos que o conheciam. Possuidor de grande discernimento da natureza humana, perscrutador e judicioso em geral, ele também sobressaía em juízo e conhecimento teológico, e, sobretudo, na religião experimental. 

Ele distinguía claramente entre a piedade real, sólida, e o mero entusiasmo; entre aquelas afeições que são racionais e bíblicas, alicerçadas sobre a luz e o bom juízo, e aquelas baseadas em presunções excêntricas, com impressões fortes na imaginação e em emoções veementes dos espíritos animalescos. Era extremamente sensível à exposição dos homens à estas impressões, à quão extensivamente elas tinham prevalecido, à quantas multidões tinham sido enganadas, às suas perniciosas conseqüências, e ao temível prejuízo que elas têm feito no mundo cristão. Brainerd não confiava nesse tipo de religião e tinha farto testemunho contra ele. Ele percebia de imediato quando coisas dessa natureza surgiam, ainda em seus estágios primários, disfarçadas da maneira mais plausível e aparentemente justa. Ele tinha um talento, como nunca vi igual, para descrever as várias operações dessa religião entusiástica e imaginária, desmascarando sua falsidade e vaidade e demonstrando a enorme dife rença entre ela e a autêntica devoção espiritual. 

Seu espírito judicioso não transparecia somente quando distinguia entre as experiências alheias, mas também entre os vários exercícios de sua própria mente, em particular ao discernir o quê, em seu próprio íntimo, devia ser lançado na conta da melancolia, no que ele excedeu a todas as pessoas melancólicas que conheci. Sem dúvida, isso devia-se à profundeza de seu juízo; pois é deveras raro que pessoas, sob a influência da melancolia, mostrem-se sensíveis para com sua própria fraqueza, reconhecendo que os seus frutos e operações deveriam ser atribuídos a mesma. 

Brainerd não adquiriu esse grau de habilidade com rapidez, mas gradualmente; e isso o leitor poderá discernir através deste relato de sua vida. Na parte inicial de sua carreira religiosa, ele atribuía muito desse tipo de tristeza mental ao afastamento espiritual, ao passo que na segunda metade de sua vida reconhecia que era devido à doença de melancolia; conforme freqüentemente fez menção de modo claro em seu diário, atribuindo seus surtos de tristeza a essa causa. Em suas conversações, por muitas vezes referiu-se à diferença entre a melancolia e a tristeza piedosa; entre a verdadeira humilhação e o afastamento espiritual; e também sobre o perigo de confundir uma coisa com a outra, e sobre a natureza mui prejudicial da melancolia. Discursava com grande discernimento sobre ela, sem dúvida, com muito mais profundidade com base naquilo que conhecia por experiência própria. 

Uma outra imperfeição em Brainerd, que pode ser observada neste relato de sua vida, é que ele era excessivo em seus labores, não levando em conta a devida proporção entre a sua própria fadiga e as suas forças. De fato, os aparentes chamados da Providência, eram, por muitas vezes, extremamente difíceis, levando-o a labutar acima de suas próprias forças. Sem dúvida, as suas circunstâncias e atividades como missionário entre os índios eram tais que tornavam-se inevitáveis grande fadiga física e dificuldades. No entanto, finalmente deixou-se convencer de que estava errando quanto a essa questão e que deveria ter exercido maior cautela, mostrando-se mais resoluto a resistir à tentação para um tal grau de trabalho que lhe prejudicava a saúde. Foi em consonância com isso que advertiu a seu irmão, que o sucedeu no campo missionário, a ser cuidadoso para evitar esse erro. 

Além das imperfeições mencionadas, pode-se admitir prontamente que havia algumas imperfeições que lhe marcaram pela vida toda, misturadas a seus afetos e exercícios religiosos, havendo alguma mistura do que era espiritual com o que era natural, tal como acontece com os melhores santos neste mundo. Sem dúvida, o temperamento natural tinha alguma influência nos exercícios religiosos de Brainerd, como visível mente tinha em homens devotos como Davi e os apóstolos Pedro, João e Paulo. Não há dúvida que sempre havia alguma mescla de melancolia com verdadeira tristeza piedosa e real humildade cristã; alguma mistura do fogo natural da juventude com o seu zelo santo por Deus; e também alguma influência de princípios naturais misturados com a graça divina em vários outros aspectos, como sempre foi e será com os santos, enquanto eles estão neste lado do céu. Talvez ninguém se mostrasse mais sensível para com as imperfeições de Brainerd do que ele mesmo; ou talvez ninguém pudesse detectá-las melhor, distinguindo o que era natural da­quilo que era espiritual. É fácil para o leitor cuidadoso observar que à medida que as graças amadureciam nele, os exercícios religiosos de seu coração tornavam-se mais e mais puros; e quanto mais ele vivia, mais perspicaz ficava em seu juízo. Ele tinha muito para purificar e ensinar a si mesmo e não falhou em beneficiar-se. 

Apesar de todas essas imperfeições, todo leitor piedoso e cuidadoso reconhecerá de pronto que aquilo que aqui expomos é uma notável demonstração da verdadeira e eminente piedade, no coração e na prática — tendendo grandemente a confirmar a realidade da religião vital e do poder da piedade. Isso é mui digno de imitação, em vários sentidos calculado para promover o benefício espiritual de observadores atentos. 

O leitor deve tomar consciência de que aquilo que Brainerd escreveu em seu diário, do qual esta narrativa de sua vida foi principalmente tirada, foi registrado para seu próprio uso, e não a fim de conquistar o aplauso e honra humanos, nem com o propósito de ser apreciado pelo mundo, nem enquanto vivia nem após a sua morte. Só não foi para seu uso algumas poucas coisas que escreveu, já quase à morte, depois de ter sido persuadido, com dificuldade, a não suprimir inteiramente todos os seus escritos privados, Ele mostrou-se quase invencivelmente contra a publicação de qualquer porção do seu diário, depois que morresse. E quando ele pensava que estava morrendo, em Boston, deu as mais estritas e decisivas ordens sobre isto. Mas depois que alguns de seus amigos dali conseguiram convencê-lo, ele retirou essa proibição estrita e absoluta, tendo cedido até ao ponto em que seus papéis fossem deixados em minhas mãos, a fim de que eu dispusesse deles conforme eu pensasse "redundar mais para a glória de Deus e para o interesse da religião".  

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O Segredo de Janathan Edwards




É assombroso o novo interesse por Jonathan Edwards durante os últimos 40 anos, pouco mais, pouco menos. Posso ilustrar isso com a minha própria experiência. Pouco antes de entrar no mi­nistério em 1927, procurei ajuda, quanto à leitura, de um amigo meu que, fazia pouco tempo, havia se graduado com honra em teologia na Universidade de Oxford. Ele recomendou grande numero de livros que estivera lendo com vistas à sua gradua­ção. Entre os livros havia um intitulado Pensamento Protestante Antes de Kant ("Protestant Thought before Kant"), de autoria de um homem chamado McGiffert. A única coisa que me impressionou naquele livro foi um capítulo sobre um homem chamado Jonathan Edwards, apesar de ser tratado como filósofo. Mas o meu interesse foi despertado imediatamente. Na próxima vez que me encontrei com o meu amigo, perguntei: "Você pode, me dizer onde poderei encontrar mais alguma coisa sobre Jonathan Edwards?" "Quem é ele?", disse o outro. Ele não sabia nada sobre Edwards, e apesar de eu fazer muita pesquisa, não pude achar ninguém que me dissesse algo sobre Edwards ou sobre as suas obras. Só uns dois anos mais tarde, casualmente, achei os dois volumes das obras completas de Jonathan Edwards, que comprei então por cinco xelins. Foi como o homem da parábola do nosso Senhor, que achou uma pérola de grande valor. Sua influência sobre mim não posso expressar com palavras.


Todavia, daquele tempo em diante, e começan­do no princípio da década de 1930, houve um despertamento do interesse por Edwards, de ma­neira a mais assombrosa. O professor Perry Miller é grandemente responsável por isso, mas não é o único. Parece que todo ano surgem livros sobre Jonathan Edwards. Há dois homens que passam suas férias na biblioteca da Universidade de Yale examinando cuidadosamente os sermões manus­critos de Jonathan Edwards. Noutras palavras, eles estão reeditando as obras completas de Edwards -uma edição definitiva. Tive o privilegio de encon­trar-me com esses dois homens em 1967 e de manusear alguns dos manuscritos dos sermões desse grande homem. Os dois volumes recente­mente reimpressos pela Banner of Truth Trust muitas vezes têm sido considerados como sendo as Obras Completas, contudo não são. Um homem publicou na década de 1860 um livro que consiste de numerosas outras coisas que não estão naqueles dois volumes, e existem mais - sermões, cartas, anotações ocasionais, miscelâneas, e assim por diante. Tudo vai ser publicado na edição definitiva.


A explicação desse fato espantoso é, natural­mente, que, entre outras coisas, Jonathan Edwards é o maior filósofo da América. Todos parecem admitir isso e, assim, estão interessados nele. Gos­taria de dizer uma palavra de advertência neste ponto: vocês precisam exercer discriminação quan­do lerem alguns desses livros mais recentes sobre Jonathan Edwards. Vários deles são escritos por professores de literatura inglesa, outros por filóso­fos; e eles estão interessados nele mormente como um grande pensador, como um grande escritor, como um homem que exerceu dominadora influên­cia ate sobre a literatura dos Estados Unidos e que, em certo sentido, foi um precursor do movimento romântico da literatura inglesa. Mas, como muitos desses homens não são cristãos, tendem, inconsci­ente e involuntariamente, a interpretá-lo mal e a descrevê-lo mal. Por isso devem ser lidos com discernimento. Entretanto estou chamando a aten­ção para o fato de que esse homem admirável, que morreu há mais de 200 anos, ainda exerce esta poderosa influência sobre o pensamento vivo da América, como o fez através do século passado. Naturalmente, ele dividiu a opinião. Ele tem sido denunciado sem medida. Oliver Wendell Holmes, por exemplo, escreve sobre Jonathan Edwards assim: "Edwards tinha uma teologia cujas raízes estavam nas maiores profundezas do inferno", e escrevia numa "linguagem que choca a sensibilida­de de uma geração mais recente". Ele continua dizendo: "Tivesse Edwards vivido mais tempo, não tenho dúvida de que o seu credo teria abranda­do, tornando-se uma crença amável, humanizada". Noutras palavras, Edwards teria escrito o tipo de literatura que se vê em O Autocrata à Mesa do Desjejum ("The Autocrat at the Breakfast Table"). Graças a Deus, temos Edwards como ele é, não como Oliver Wendell Holmes, o humanista, que nunca entendeu Edwards de jeito nenhum, gostaria que ele fosse.


Clarence Darrow, o homem que defendeu aque­le mestre-escola, Scopes, que foi perseguido por ensinar evolucionismo no início da década de 1920, e que se levantou contra William Jennings Bryan no famoso "julgamento de macaco", escreveu: "Não é surpreendente que a principal ocupação de Edwards no mundo era assustar mulheres tolas e crianças, e blasfemar o Deus que ele professava adorar... Nada, senão uma mente perturbada ou enferma, poderia produzir o seu Pecadores nas Mãos de Um Deus Irado ("Sinners in the Hands of an Angry God")". Citei isso por causa dessa alusão ao sermão pregado por Edwards, com o título Pecadores nas Mãos de Um Deus Irado. Vocês podem ouvir não infreqüentes referencias a esse sermão na televisão e alhures. O fato é que, segun­do parece, tudo o que a maioria sabe sobre Edwards é que uma vez ele pregou um sermão com esse título. Isso é tudo que as pessoas sabem a respeito dele, e provavelmente nem leram aquele sermão. Apenas vão repetindo o que os outros dizem a respeito, e ele é considerado, como se conclui das palavras de Oliver Wendell Holmes, como nada mais que uma agressão, uma bombástica agressão à sensibilidade, e como uma violência à razão, e tudo mais. Está claro que isso é completamente ridículo.


Quem quer que saiba algo sobre Jonathan Edwards sabe que ele estava tão longe quanto é possível um homem estar de ser um orador bom­bástico. Mas ele disse algumas coisas muito fortes e alarmantes, passíveis de serem mal entendidas. O próprio Edwards deu resposta àquela crítica. Diz ele: "Outra coisa da qual alguns ministros têm sido muito acusados, e penso que injustamente, é de transmitir grande terror aos que já estão aterroriza­dos, em vez de animá-los. Na verdade, se em tais casos os ministros andarem aterrorizando as pesso­as com algo que não é verdadeiro, ou procurando atemorizá-las descrevendo a situação delas pior do que é, ou modificando-a nalgum aspecto, deverão ser condenados; não obstante, se as aterrorizam tão-somente pelo fato de lançarem mais luz sobre elas, e de as fazerem entender mais da sua situação, deverão ser completamente justificados. Quando as consciências são grandemente despertadas pelo Espírito de Deus, é-lhes comunicada alguma luz, capacitando os homens a enxergarem a sua situa­ção, nalguma medida, como ela é; e, se lhes for dirigida mais luz, esta os aterrorizará ainda mais. Contudo, os ministros não deverão, portanto, ser condenados por seu empenho em lançar mais luz à consciência, em vez de lhes aliviar a dor sob a qual se acham interceptando e obstruindo a luz que já brilha. Dizer qualquer coisa aos que jamais creram no Senhor Jesus Cristo, descrever a situação deles doutro modo, senão que é extraordinariamente terrível, não é pregar-lhes a Palavra de Deus; pois a Palavra de Deus só revela a verdade; mas isso é iludi-los" (Vol. 1,392). Noutras palavras, Edwards cria que a Bíblia diz coisas terríveis sobre quem morre em seus pecados. Isso era tudo que Edwards fazia. Era puro argumento com as palavras das Escrituras. Não era o que Edwards dizia; era o que as Escrituras diziam; e ele achava que era seu dever advertir as pessoas. Mas ele suavizou isso, dizen­do: "Sei de um caso apenas em que a verdade deve ser sustada e não dita aos pecadores aflitos em sua consciência, o que se deve dar em caso de melan­colia; e eles deverão ser poupados dela, não como se a verdade tendesse a feri-los, e sim porque, se lhes falarmos a verdade, poderão as vezes ser enganados e levados ao erro pela estranha disposi­ção que há neles de entender mal as coisas" (Vol. 1, 392). Noutras palavras, ninguém estava mais longe da violência de um bombástico evangelista itinerante, do que Jonathan Edwards. Essa é a defesa que se deve fazer quando se ouvem pessoas referindo-se a ele como aquele homem terrível que pregou um sermão sobre Pecadores nas Mãos de um Deus Irado.


Estudemos agora esse homem que teve tão duradoura influência e  que parece estar se tornando outra vez uma influência dominadora no pensa­mento religioso da América. Confesso com franqueza que esta é uma das tarefas mais difíceis que já tentei em toda a minha vida. O tema é quase impossível, e em grande parte, pela razão que já dei, a saber, a influência de Edwards sobre mim. Re­ceio, e o digo com muito pesar, que devo colocá-lo adiante até de Daniel Rowland e de George Whitefield. De fato eu tentei, talvez tolamente, comparar os puritanos com os Alpes, Lutero e Calvino com o Himalaia, e Jonathan Edwards com o Monte Everest! Ele sempre me pareceu ser o homem mais semelhante ao apostolo Paulo. Natu­ralmente, Whitefield foi um grande e poderoso pregador, como o foi Daniel Rowland, mas Edwards o foi também. Nenhum deles teve o intelecto, nenhum deles teve a compreensão da teologia que Edwards teve, nenhum deles foi o filósofo que ele foi. Ele sobressai, parece-me, inteiramente pelo que ele é, entre os homens. Assim, a tarefa que me confronta, se posso seguir a minha analogia do Monte Everest, será decidir se devo abordá-lo pelo passo sul ou pelo passo norte. Há muitos meios de abordar aquele grande pináculo; mas não é só isso, a atmosfera é tão espiritualmente rarefeita, e há este fulgurante brancor da santidade do homem mesmo, e a sua grande ênfase à santidade e à glória de Deus; e acima de tudo a fraqueza do pequeno alpinista quando encara este altíssimo pico que aponta para o céu. Tudo que posso esperar fazer é dar-lhes alguns vislumbres deste homem e da sua vida, e do que ele fez, com o fim e objetivo culminante de persuadir cada um a comprar estes dois volumes das suas obras, e a lê-los!


Comecemos com o homem propriamente dito. A primeira coisa que se deve dizer é que ele foi um fenômeno. Aí está esse homem criado naquele país ainda não desenvolvido. Naturalmente havia gente capaz por lá, e já havia escolas - Harvard e Yale existiam. Mas não o explicam. Ele nasceu numa região relativamente isolada e, todavia, ele sobres­sai como um consumado gênio, pondo em ridículo quaisquer noções de evolução, ou a teoria dos caracteres adquiridos, e assim por diante. Diversa­mente da maioria dos outros homens sobre os quais estivemos ouvindo nesta Conferência, ele não este­ve nem em Oxford nem em Cambridge. Ele era um intelecto vigoroso, capaz de um súbito espocar de florescência, original, acompanhado de brilhante imaginação, admirável originalidade, porém, aci­ma de tudo, de honestidade. Ele é um dos mais honestos escritores que já li. Nunca foge de um problema; enfrenta-os todos. Nunca fica rodeando uma dificuldade; ele tinha esse curioso interesse pela verdade em todos os seus aspectos, e depois, com todos aqueles dotes cintilantes, há a sua humil­dade e modéstia e, somada a isso, a sua excepcional espiritualidade. Ele sabia mais da religião experi­mental do que a maioria dos homens; e dava grande ênfase ao coração. Noutras palavras, o que toca a gente, quanto a Edwards, quando se olha para o homem como um todo, é a inteireza, o equilíbrio. Ele era ao mesmo tempo um vigoroso teólogo e um grande evangelista. Quão tolos nos tornamos nós! Este homem era ambas as coisas, como o fora o apóstolo Paulo. Ele foi também um grande pastor; cuidava das almas e dos seus problemas. Era igual­mente hábil com os adultos e com as crianças. Era um grande defensor da conversão das crianças, e dava grande atenção às crianças, permitindo-lhes até que tivessem suas próprias reuniões. Ele parece que é tudo e que é perfeitamente equilibrado. Ele se opunha ao hiper-calvinismo, e igualmente se opu­nha ao arminianismo. Esse elemento de equilíbrio em seu ensino e em sua posição é demonstrado na seguinte afirmação: "Na graça eficaz não somos meramente passivos, nem ainda Deus faz um pou­co e nós fazemos o restante. Mas Deus faz tudo, e nós fazemos tudo. Deus produz tudo, e nós agimos em tudo. Pois é isso que ele produz, isto é, os nossos atos. Deus é o único verdadeiro autor e a única verdadeira fonte; nós somos tão-somente os verda­deiros agentes. Somos, em diferentes aspectos, totalmente passivos e totalmente ativos" (Vol. 2, 557, parágrafo 64).


Pois bem, essa era a posição de Edwards, e notamos este elemento de equilíbrio que estou salientando. Não há contradição ali; o antinômio final é apresentado perfeitamente.


Então, qual era o segredo deste homem? Não hesito em dizer isto: nele, sempre o espiritual dominava o intelectual. Creio que ele deve ter tido uma grande luta com o seu elevado intelecto e com o seu pensamento original. Além disso, era um leitor voraz e, para um homem como esse, teria sido a coisa mais simples do mundo tornar-se um puro intelectual, como Oliver Wendell Holmes, Perry Miller e muitos outros queriam que ele se tornasse. No entanto, como eles o expressavam, a teologia mantinha o comando. Ora, isso constitui a glória especial desse homem - e é isso que o explica -que ele sempre mantinha a sua filosofia e as suas especulações subservientes à Bíblia e as considera­va simples servas. Fosse o que fosse que ele tentasse pensar, a Bíblia era suprema: tudo estava subordi­nado a Palavra de Deus. Todos os seus ricos e brilhantes dons não somente eram mantidos como subservientes, e sim eram usados como servos. Noutras palavras, ele era dominado por Deus. Alguém disse dele que "ele combinava uma apai­xonada devoção com uma mente profundamente completa".


Martyn Lloyd-Jones
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Marca Distintiva dos Santos - J. Edwards




Onde descansa as marcas distintivas daquela virtude e santidade que é aceitável aos olhos de Deus?
Embora isto seja de tal importância, e apesar de termos clara e abundante luz na Palavra de Deus para nos dirigir neste assunto, todavia não há um ponto em que os Cristãos professos façam mais diferença um do outro. Seria sem fim calcular a variedade de opiniões, neste ponto, que divide o mundo Cristão; fazendo manifesta a verdade da declaração de nosso Salvador: “Estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem”.
A consideração destas coisas tem por muito tempo me engajado a atentar para esta matéria com a maior diligência e cuidado, e toda a exatidão de busca e investigação de que eu fui capaz. Este é um assunto sobre o qual minha mente tem sido peculiarmente solícita, desde a primeira vez que entrei no estudo da teologia.  Mas quanto ao sucesso de minhas investigações, isto deve ser deixado ao julgamento do leitor do tratado que se segue.
Sou consciente de que é difícil julgar imparcialmente o assunto deste discurso, no meio da poeira e fumaça da presente controvérsia, sobre as coisas desta natureza. Pois, assim como é muito difícil escrever imparcialmente, do mesmo modo é muito difícil ler imparcialmente.  Muitos provavelmente serão magoados, ao encontrar tanto do que pertence às afeições religiosas, aqui condenadas: e talvez indignações e desprezo serão excitados em outros, ao achar tanto justificado e aprovado. E pode ser que alguns estarão prontos para acusar-me de inconsistência comigo mesmo, em tanto aprovando algumas coisas, como condenando outras; como tenho encontrado, isto tem sido sempre objetado a mim por alguns, desde o princípio de nossas últimas controvérsias sobre religião. É uma coisa difícil ser um sincero e zeloso amigo do qual tem sido bom e glorioso nas últimas aparências extraordinárias, e regozijar muito nele; e ao mesmo tempo, ver a tendência má e perniciosa dos que tem sido maus, e ardentemente opor a isso. Mas, todavia, estou humildemente, mas inteiramente persuadido que nós nunca estaremos no caminho da verdade, um caminho aceitável a Deus, e tendendo ao avanço do reino de Cristo, até que façamos assim. Há certamente algo muito misterioso nisto, esse tão bom e esse tão mau, devem ser misturado juntamente na igreja de Deus: como é uma coisa misteriosa, e que tem embaraçado e assombrado muitos bons Cristãos, que deva existir o que é tão divino e precioso, como a graça salvadora de Deus, residindo no mesmo coração, com tanta corrupção, hipocrisia, e iniqüidade, em um santo em particular. Contudo, nenhum destes é mais misterioso do que real. E nenhum deles é uma coisa nova. Não é uma coisa nova, que tanta falsa religião deva prevalecer no tempo de grande reavivamento; e que, ao mesmo tempo, multidões de hipócritas devam brotar entre os verdadeiros santos. Foi assim na grande reforma, e reavivamento da religião, no tempo de Josias; como aparece em Jeremias 3:10, e Jeremias 4:3,4, e também pela grande apostasia que houve na nação, tão logo após seu reinado. Assim foi com o grande derramamento do Espírito sobre os Judeus, nos dias de João Batista; como se mostra pela grande apostasia daquele povo, tão logo depois de tão geral despertamento, e os temporários confortos e alegrias de muitos; João 5:35: “E vós quisestes alegrar-vos por um pouco de tempo com a sua luz”. Assim foi naquelas grandes comoções entre a multidão, ocasionas pela pregação de Jesus Cristo. Muitos são chamados, mas poucos escolhidos ; da multidão que foi excitada e afetada pela Sua pregação  e em um tempo ou outro pareciam poderosamente engajados, cheios de admiração por Cristo, e elevados com alegria  mas poucos eram verdadeiros discípulos, que agüentaram os abalos das provas, e perseveraram até o fim. Muitos eram semelhantes a terra pedregosa ou espinhosa; e porém poucos, comparativamente, eram semelhantes a boa terra. Do monte inteiro que foi recolhido, grande parte era palha, que o vento mais tarde levou; e o monte de trigo que foi deixado, era comparativamente pequeno; assim como aparece abundantemente pela história do Novo Testamento. Assim foi no grande derramamento do Espírito que houve nos dias dos apóstolos; como se mostra por Mateus 24:10-13; Gálatas 3:1; e 4:11,15; Filipenses 2:21; e capítulo 3:18,19, e as duas epístolas aos Coríntios, e muitas outras partes do Novo Testamento. E assim foi na grande reforma do papismo  Parece claramente ter estado na igreja visível de Deus, nos tempos dos grandes reavivamentos, assim como as árvores frutíferas na primavera; há uma multidão de flores, que parecem legítimas e belas, e há uma aparência promissora de frutos novos: mas muitos delas são de curta duração; elas breve murcharão, e nunca chegarão a maturidade.
Não é, contudo, para ser suposto que será sempre assim. Porque embora nunca haverá, neste mundo, uma inteira pureza, em cada um dos santos em particular, por uma perfeita libertação das misturas de corrupção, ou na igreja de Deus, sem qualquer mistura de hipócritas com santos  ou religião falsifica e falsas aparências de graça com verdadeira religião e real santidade  todavia é evidente, virá um tempo de pureza muito maior na igreja, do que tem havido nas erras passadas. Isto se mostra claramente por estes textos das Escrituras: Isaías 52:1; Ezequiel 44:6,7,9; Joel 3:17; Zacarias 14:21; Salmos 69:32,35,36; Isaías 35:8,10; capítulo 4:3,4; Ezequiel 20:38; Salmos 37:9,10,11,29. E uma grande razão disto será que naquele tempo, Deus dará uma luz muito maior para Seu povo, para distinguir entre a verdadeira religião e suas falsificações. Malaquias 3:3: “E assentar-se-á como fundidor e purificador de prata; e purificará os filhos de Levi, e os refinará como ouro e como prata; então ao SENHOR trarão oferta em justiça”. Com o versículo 18, que é a continuação da profecia dos mesmos tempos felizes: “Então voltareis e vereis a diferença entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus, e o que não o serve”.
É pela mistura da falsificada religião com a verdadeira, não discernida e distinguida, que o diabo tem tido suas maiores vantagens contra a causa e o reino de Cristo. É por este meios, principalmente, que ele tem prevalecido contra todos os reavivamentos da religião, desde a fundação da igreja Cristã. Com isto, ele prejudicou a causa do Cristianismo, tanto na era apostólica como depois, tanto mais do que por todas as perseguições tanto de Judeus como de gentios. Os apóstolos, em todas suas epístolas, nos mostram muito mais concernente ao primeiro dano, do que o segundo. Com isto, Satã prevaleceu contra o reforma, iniciada por Lutero, Zwínglio, etc., para colocar uma parada em seu progresso, e traze-la à desgraça, dez vezes mais do que por todas aquelas sanguinárias e cruéis perseguições da igreja de Roma. Com isto, principalmente, ele prevaleceu contra os reavivamentos da religião em nossa nação. Com isto ele prevaleceu contra a Nova Inglaterra, apagando o amor e saqueando a alegria de seus matrimônios, aproximadamente cem anos atrás. E penso que tive bastante oportunidades para ver claramente, que por isto o diabo tem prevalecido contra o último grande reavivamento da religião na Nova Inglaterra, tão feliz e prometedor em seu princípio. Aqui, mais evidentemente, tem sido a principal vantagem de Satã contra nós; por isto ele tem nos frustrado. É por estes meios que a filha de Sião nesta terra agora descansa no chão, em semelhantes lastimosas circunstâncias, com seus vestuários rasgados, sua face desfigurada, sua nudez exposta, seus membros quebrados, e encapelando no sangue de suas próprias feridas, e de maneira nenhuma capaz de levantar; e isto, tão rapidamente depois de sua última grande felicidade e esperança. Lamentações 1:17: “Estende Sião as suas mãos, não há quem a console; mandou o SENHOR acerca de Jacó que lhe fossem inimigos os que estão em redor dele; Jerusalém é entre eles como uma mulher imunda”. Tenho visto o diabo prevalecer pelo mesmo caminho, contra dois grandes reavivamentos de religião neste país.  Satã continua com a humanidade assim como ele começou com eles. Ele prevaleceu contra nossos primeiros pais, e lhes arremessou para fora do paraíso, e subitamente trouxe toda sua felicidade e glória ao fim, aparentando ser um amigo de seu estado feliz, e fingindo avançar-lhes a um degrau mais alto. Assim, a mesma serpente perspicaz que enganou Eva através de sua astúcia, nos apartando da simplicidade que há em Cristo, tem subitamente nos privado daquele justo prospecto que tínhamos, há pouco tempo atrás, de uma espécie de estado paradisíaco da igreja de Deus na Nova Inglaterra.
Após a religião reviver na igreja de Deus, e os inimigos aparecer, as pessoas que são engajadas a defender sua causa são comumente mais expostas, onde elas estão sensíveis de perigo. Enquanto elas estão inteiramente atentas sobre a oposição que aparece abertamente diante deles, para fazer cabeça contra esta, e enquanto elas negligenciam cuidadosamente para olhar ao redor, o diabo vem atrás deles, e dá uma punhalada fatal não vista; e ele tem oportunidade para dar uma pancada mais interna, e machucar o profundo, porque ele ataca em seu descanso e não sendo obstruído por nenhuma guarda ou resistência.
E assim provavelmente sempre será na igreja, não importa quando a religião reviver consideravelmente, até que nós tenhamos aprendido bem a distinguir entre a verdadeira e a falsa religião, entre as emoções e experiências salvídicas e aquelas diversas impressões atraentes e aparências brilhantes, pelas quais elas são falsificadas; as conseqüências das quais, quando elas não são distinguidas, são freqüentemente indizivelmente terríveis. Por estes meios , o diabo gratifica a si mesmo, pois as multidões oferecem uma adoração falsa a Deus sob a ilusão de um culto aceitável, que é na realidade acima de todas as coisas abominável a Ele.Por estes meios, ele ludibriou grandes multidões sobre o estado de suas almas; fazendo-lhes pensar que eles são alguma coisa, quando eles não são nada; e assim eternamente lhes desfazendo; e não somente assim, mas estabelecendo muitos na forte confiança de sua eminente santidade, que, aos olhos de Deus, são alguns dos vis hipócritas. Por este meios, ele muitas vezes desanimou e feriu a religião nos corações dos santos, obscureceu e deformou-a pelas misturas corrompidas, fez com que suas emoções religiosas tristemente se degenerassem, e algumas vezes, por um considerável tempo, ser como o maná que produziu vermes e fedor; e terrivelmente enlaçou e confundiu as mentes de outros, trazendo-lhes à grandes dificuldades e tentações, e embaraçando-lhes em uma vastidão, dentre os quais eles não podiam de forma alguma se desembaraçar. Por estes meios, Satanás poderosamente encoraja os corações dos inimigos explícitos, fortalecendo suas mãos, enchendo-lhes com armas, e fortalecendo suas fortalezas; quando ao mesmo tempo, a religião e a igreja de Deus permanece exposta a eles, como uma cidade sem muralhas. Por estes meios, ele faz com que os homens ímpios pequem na ilusão de estarem servindo a Deus; e portanto, pecam sem restrições, sim, com ardente solicitude e zelo, e com todo sua força. Por estes meios, ele faz que até os amigos da religião, insensivelmente, façam o trabalho de seus inimigos, destruindo a religião em uma maneira mais eficaz do que os inimigos declarados podem fazer, na ilusão de o estarem fazendo progredir. Por estes meios, o diabo dispersa o rebanho de Cristo, e colocá-os uns contra os outros com grande calor de espírito, sob uma noção de zelo por Deus; e a religião, gradualmente, degenera em vãs disputas. Durante os conflitos, Satanás conduz ambas as partes para fora do caminho correto, dividindo cada um em grandes extremos, um na mão direita, e o outro na esquerda, conforme ele os encontra mais inclinados, ou mais facilmente movidos e oscilantes, até que o caminho correto no meio é quase completamente negligenciado. No meio desta confusão, o diabo tem grande oportunidade para avançar em seu próprio interesse, para fazê-lo forte de inumeráveis modos, de obter o governo de todas as coisas em suas próprias mãos, e operar sua própria vontade. E pelo que é visto das terríveis conseqüências desta falsificação, quando não distinguida da verdadeira religião, o povo de Deus em geral têm suas mentes perturbadas na religião, e não sabem onde colocar os seus pés, ou o que pensar, e muitos são trazidos à duvidar de o quer que seja na religião; e heresia, infidelidade, e ateísmo prevalece grandemente.
Conseqüentemente, é vital que nos esforcemos ao máximo para claramente discernir, e ter bem assentado e estabelecido, no que consiste a verdadeira religião. Até que isto seja feito, não podemos esperar que grandes avivamentos de religião tenham longa duração; até que isto seja feito, não podemos esperar muito proveito de todos nossos calorosos debates, em conversação e a partir da impressa, não sabendo claramente e distintivamente o que devemos contender.
Meu propósito é contribuir com o meu pouco, e usar o meu melhor (embora débil) esforçando-me para este fim, no subseqüente tratado: no qual deve ser notado que é um tanto diferente do propósito de que eu tinha anteriormente publicado, que foi para mostrar As marcas distintivas da obra do Espírito de Deus, incluindo tanto suas operações comuns e salvifícas. O que tenciono agora, é mostrar a natureza e sinais das graciosas operações do Espírito de Deus, pelas quais elas são distinguidas de todas as outras  sejam quais forem - que não são de uma natureza salvífica. Se eu for sucedido nesta minha intenção, em qualquer medida tolerável, espero que tenda a promover o interesse da religião. E se eu for sucedido em trazer alguma luz para este assunto ou não, e embora meus esforços possam ser reprovados, nestes tempos ardilosos e censuradores, espero na misericórdia da graça e justiça de Deus, para aceitação da sinceridade de meus esforços; e espero também pelo candor e orações dos verdadeiros seguidores do manso e benevolente Cordeiro de Deus. 
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