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24 de dez de 2010

Jonathan Edwards ( 1703 - 1758) - Um Gigante Espiritual


No começo do século 18, era visível nas 13 colônias — que em breve seriam conhecidas como Estados Unidos — o declínio da fé evangélica, provocado pela influência do processo colonizador, com seu subseqüente aumento populacional, sucessão de guerras brutais e declínio da espiritualidade dos ministros.

Um gigante espiritual

Jonathan Edwards nasceu em 1703, único filho homem de Timothy Edwards, que era pastor congregacional em East Windsor, Connecticut. Pouco antes de completar 13 anos, entrou no Yale College. Em 1720, recebeu o grau de bacharel, e aos 20 anos recebeu o grau de mestre em artes. Em abril ou maio de 1721, Edwards experimentou a conversão:

A partir daquele tempo, eu comecei a ter um novo tipo de compreensão e idéias a respeito de Cristo, e da obra da redenção e do glorioso caminho da salvação através dele. Eu tinha um doce senso interior dessas coisas, que às vezes vinham ao meu coração; e a minha alma era conduzida em agradáveis vistas e contemplações delas. E a minha mente estava grandemente engajada em gastar meu tempo em ler e meditar sobre Cristo; e a beleza e a excelência de sua pessoa, e o amável caminho da salvação, pela livre graça nele [...]. Esse senso que eu tinha das coisas divinas freqüentemente e repentinamente se inflamava, como uma doce chama em meu coração; um ardor da alma, que eu não sei expressar.

Em 1727, foi ordenado ao pastorado. Ele diz de sua consagração:
Dediquei-me solenemente a Deus e o fiz por escrito, entregando a mim mesmo e tudo que me pertencia ao Senhor, para não ser mais meu em qualquer sentido, para não me comportar como quem tivesse direitos de forma alguma [...], travando, assim, uma batalha com o mundo, a carne e Satanás até o fim da vida.
Edwards passou a auxiliar seu avô, Solomon Stoddart, no ministério da igreja congregacional de Northampton, Massachusetts. Após a morte do avô, um pastorado que durou sessenta anos, ele assumiu a igreja.
No período entre 1735 e 1737, durante uma série de pregações sobre a justificação pela graça por meio da fé, começou um pequeno avivamento em sua congregação. Seus ouvintes sentiram as grandes verdades das Sagradas Escrituras: toda boca ficará fechada no dia do juízo e "não há coisa alguma que, por um momento, evite que o pecador caia no inferno, senão o bel-prazer de Deus". Em suas palavras, "o Espírito de Deus começou a traba¬lhar de maneira extraordinária. Muita gente estava correndo para receber Jesus. Esta cidade estava cheia de amor, cheia de alegria e cheia de temor. Havia sinais notáveis da presença de Deus em quase cada casa". Entre 1739 e 1741, George Whitefield pregou em 12 das 13 colônias, e teve um papel central na continuação desse avivamento. De 25 a 50 mil pessoas se converteram, entrando para as igrejas — nessa época, a população da Nova Inglaterra era calculada em 250 mil pessoas —, sem contar os já convertidos e membros das igrejas.

Era costume de sua igreja conceder o privilégio a qualquer pessoa, mesmo sem ser membro da igreja, para participar da ceia do Senhor. Por requerer uma base estrita para participar da ceia, Edwards foi demitido de sua igreja em 1750. D. M. Lloyd-Jones disse que essa foi uma das coisas mais espantosas que já aconteceram, e deve servir como uma palavra de encorajamento para os ministros e pregadores. Lá estava Edwards — o altaneiro gênio, o poderoso pregador, o homem que estava no centro do grande avivamento — e, todavia, foi derrotado na votação de sua igreja, por duzentos e trinta votos, contra apenas vinte e três a seu favor.

Lloyd-Jones conclui: "Não se surpreendam, portanto, irmãos, quanto ao que possa acontecer com vocês em suas igrejas".

Depois disso, Edwards foi ser missionário junto aos índios mohawk e housatonic, num posto na fronteira, em Stockbridge. Foi lá que ele escreveu alguns de seus tratados teológicos mais importantes. Em 1757, aceitou a presidência do College of New Jersey, que agora é a Universidade de Princeton, e, em 1758, depois de receber uma vaci¬na contra varíola, que estava sendo testada, ele morreu.

Um pastor de múltiplos interesses

Ao considerarmos os escritos de Edwards, temos um vislumbre de seus interesses e aptidões. Ele escreveu cerca de mil sermões, e seu alvo era levar os homens a entenderem e sentirem a verdade do evangelho e responderem a ela. Seus sermões eram esboçados segundo o método puritano, que incluía a exposição do texto bíblico escolhido, apresentação da doutrina — apoiada por outros textos bíblicos — e aplicação às questões do dia-a-dia. Ele ocultava sua erudição por traz de uma clareza deliberadamente simples.

Pecadores nas mãos de um Deus irado (1740), baseado em Deuteronômio 32.25, é seu sermão mais famoso. Antes desse sermão, por três dias, Edwards não se alimentara nem dormira; rogara a Deus sem cessar: "Dá-me a Nova Inglaterra!". O povo, ao entrar para o culto, se mostrava indiferente e mesmo desrespeitoso diante dos cinco pregadores que estavam presentes. Edwards iria pregar, e, ao dirigir-se para o púlpito, alguém disse que ele tinha o semblante de quem fitara, por algum tempo, o rosto de Deus. Sem quaisquer gestos, encostado num braço sobre o púlpito, segurava o manuscrito e o lia numa voz calma e penetrante. O resultado do sermão foi como se Deus arrancasse um véu dos olhos da multidão para contemplar a realidade e o horror em que estavam. Em certa altura, um homem correu para frente, clamando, suplicando por oração, sendo interrompido pelos gemidos de homens e mulheres; quase todos ficaram de pé ou prostrados no chão, alguns se agarrando às colunas da igreja, pensando que o juízo final havia chegado. Durante a noite inteira ouviu-se na cidade, em quase todas as casas, o clamor daqueles que, até aquela hora, confiavam em sua própria justiça. O efeito foi duplo:

Primeiro [...], eles abandonavam as suas práticas pecaminosas [...]. Depois que o Espírito de Deus começou a ser derramado tão maravilho¬samente de uma maneira geral sobre a vila, pessoas logo deixaram as suas velhas brigas, discussões e interferências nos assuntos dos outros. A taverna logo foi deixada vazia, e as pessoas ficavam em casa; ninguém se afastava, a não ser para negócios necessários ou por causa de algum motivo religioso, e todos os dias pareciam, em muitos sentidos, como o dia de domingo. Segundo, eles começavam a aplicar os meios de salvação; leitura, oração, meditação, as ordenanças pessoais; seu clamor era: "O que devo fazer para ser salvo?".

Edwards reconheceu que "mais de 300 almas foram salvas, trazidas para Cristo", em Northampton. Nesta época sua cidade tinha cerca de 2 mil habitantes!
Não havia sequer uma pessoa na cidade, velha ou jovem, que não estivesse interessada nas grandiosas coisas do mundo eterno [...]. O trabalho de conversão era levado adiante da maneira mais surpreendente; as almas vinham, multidões delas, a Jesus Cristo.

Outro sermão magistral é uma exposição verso por verso de l joão 4, A verdadeira obra do Espírito (1741). Edwards sabia que problemas acompanham o avivamento, pois Satanás — o qual, segundo ele observou, foi "treinado no melhor seminário teológico do universo" — segue a um passo de Deus, pervertendo ativamente e caricaturando tudo quanto o Criador está fazendo. Então, na primeira patte de seu sermão, ele passa a mosrrar quais são os sinais que supostamente negam uma obra espiritual. Na segunda parte, então, ele demonstra os sinais bíblicos de uma obra do Espírito Santo. São elas: "amor por Jesus, Filho de Deus e Salvador dos homens", "agir contra os interesses do reino de Satanás, que busca encorajar e firmar o pecado, e fomentar as paixões mundanas nos homens", "profunda consideração pelas Sagradas Escrituras", revelação dos caracteres "opostos do Espírito de Deus e dos outros espíritos que falsificam suas obras" e "se o espírito que está em ação em meio a um povo opera como espírito de amor a Deus e ao homem, temos aí um sinal seguro de que esse é o Espírito de Deus". Assim era Edwards, nem crédulo nem hipercrítico, sempre examinando os dois lados.

Seu interesse por temas teológicos se evidencia pela amplidão de suas obras, abordando quase todos os temas doutrinários. As vezes, ele tem sido considerado um teólogo-filósofo, por causa de alguns de seus escritos, mas jamais deixou que a filosofia lhe ensinasse a fé ou que o desviasse da Bíblia. Ele extraía das Escrituras as convicções, e a verdadeira estatura dele deve ser aquilatada como um teólogo bíblico.

Como disse J. I. Packer, "por toda a sua vida, Edwards alimentou a alma com a Bíblia; por toda a sua vida, alimentou o rebanho com a Bíblia". Ele é mais freqüentemente estudado por causa da sua descrição agostiniana do pecado humano e da total suficiência da graça de Deus em Cristo por meio do Espírito. Mark Noli diz que, para Edwards, a raiz da pecaminosidade humana era o antagonismo contra Deus; Deus era justificado ao condenar os pecadores que menosprezavam a obra de Cristo em favor deles; a conversão importava uma mudança radical do coração; o cristianismo verdadeiro envolvia não somente compreender algo de Deus e dos fatos das Escrituras, como também um novo senso da beleza, santidade e verdade divinas. Na mente de Edwards, as implicações para a conversão, que o conceito da natureza humana subentendia, ocupavam o lugar principal. Ele dizia que um pecador, por natureza, nunca escolheria glorificar a Deus, a não ser que o próprio Deus mudasse o caráter daquela pessoa ou — segundo a expressão do próprio Edwards — implantasse um novo 'senso do coração' para amar e servir a Deus.

A regeneração, ato de Deus, era a base para as ações humanas do arrependimento e da conversão. Ele cria que o Deus onipotente exigia arrependimento e fé das suas criaturas; então, proclamava tanto a absoluta soberania de Deus quanto a urgente responsabilidade dos homens.

O Tratado das afeições religiosas (1746), baseado numa série de sermões em 1 Pedro 1.8, é um tratado clássico de psicologia da religião. Apesar de sua educação lógica e racional, Edwards argumentava que a religião verdadeira reside no coração, no centro das afeições, emoções e inclinações. Ele detalhava de forma minuciosa os tipos de emoções religiosas que, em grande medida, são irrelevantes à espiritualidade verdadeira. Esse livro termina com uma descrição de 12 marcas que indicam a presença da verdadeira espiritualidade cristã. A primeira era uma afeição que surgia "daquelas influências e operações sobre o coração, que são espirituais, sobrenaturais e divinas". A última era a manifestação de afeições genuínas e verdadeiras, que demonstram seus frutos na prática cristã. A análise cuidadosa de Edwards sobre a fé genuína enfatizava que não é a quantidade de emoções que indica a presença da verdadeira espiritualidade, mas as origens de tais afeições em Deus, e a sua manifestação em obras que o glorifiquem.

Pela influência de seus escritos, ele é considerado o maior teólogo dos Estados Unidos. Lloyd-Jones, que devia muito aos escritos de Edwards, disse: "Eu sou tentado, talvez tolamente, a comparar os puritanos aos Alpes, Lutero e Calvino ao Himalaia e Jonathan Edwards ao monte Everest". Edwards dependia totalmente da graça de Deus, que dominava sua peregrinação intelectual, sempre mantendo seu intelecto e estudos subordinados à Escritura.

A família

Edwards se casou aos 24 anos, em 1728, com Sarah Pierrepont, filha de um pastor. Ela era uma mulher muito inteligente, porém, como seu marido, totalmente devota à glória de Deus e a uma experiência de oração que a levava, algumas vezes, à quase falência física. Sarah sempre acompanhava o marido nos momentos de oração.

Em seu momento devocional diário, Edwards ia a cavalo para um bosque, e caminhava sozinho, meditando. Anotava suas idéias em pedaços de papel e, para não perdê-los, os pendurava no casaco. Ao voltar para casa, era recebido por Sarah, que o ajudava a tirar as anotações. Eles eram profundamente dedicados um ao outro, e entre as últimas palavras de Edwards, quando estava à beira da morte em New Jersey, algumas dirigiam-se a Sarah, que ainda estava em Stockbridge. Ele disse: "Dê o meu mais bondoso amor para minha esposa, e diga a ela que a excepcional união, que tem subsistido entre nós por tanto tempo, tem sido de tal natureza, que eu creio ser espiritual, e, portanto, continuará para sempre". Pensaram que Edwards havia morrido logo depois de dizer isso, e começaram a lamentar; então, ele disse suas últimas palavras: "Confiai em Deus e não precisareis temer".

Eles tiveram 11 filhos, todos cristãos, e sua vida familiar foi um modelo para todos os que os visitaram.

As missões cristãs

Edwards também escreveu um livro intitulado Uma humilde tentativa de promover uma clara concordância e união visível do povo de Deus em extraordinária oração, pelo reavivamento da religião e o avanço do Reino de Cristo na terra (1748). Nessa obra ele faz um apelo às muitas pessoas, "em diferentes partes do mundo, por ex-pressa concordância para se chegar a uma união visível em extraordinária, [...] fervente e constante oração, por aquelas grandes efusões do Espírito Santo, o qual trará o avanço da igreja e do Reino de Cristo". Sua convicção era que, "quando Deus tem algo muito grande a realizar por sua igreja, é de sua vontade que seja precedido pelas extraordinárias orações do seu povo".

Nesse tempo, a condição espiritual das igrejas batistas na Inglaterra era deplorável. John Sutcliff, pastor da igreja batista de Olney, Buckinghamshire, leu o livro de Edwards e propôs aos seus companheiros pastores, na Associação Northampshire, que separassem uma hora na primeira segunda-feira à noite de cada mês para orar, para que "o Espírito Santo possa ser derramado em seus ministérios e igrejas, para que os pecadores possam ser convertidos, os santos edificados, o interesse da religião revificado e o nome de Deus glorificado".

Um grande avivamenro se seguiu a tais reuniões. A influência de Edwards sobre Sutcliff e seus amigos, que incluíam William Carey e Andrew Fuller, foi tal que este escreveu: "Alguns dizem que, se Sutcliff e alguns outros tivessem pregado mais de Cristo, e menos de Jonathan Edwards, eles teriam sido mais úteis", replicando em seguida: "Se aqueles que falam assim, pregassem Cristo metade do que Edwards fazia, e fossem metade tão úteis como ele foi, sua utilidade seria o dobro do que ela é". Por causa da profunda impressão do livro de Edwards, em 1792 esses homens fundaram a Sociedade Batista Particular para Propagação do Evangelho entre os Pagãos — que veio a se tornar a Baptist Missionary Society —, sendo Fuller seu primeiro secretário

O legado

Há pelo menos duas aplicações que podemos fazer. Uma diz respeito à necessidade de avivamento, em nossa época. Devemos temer e combater os excessos que ocorrem nesses despertamentos — que mesmo em Atos aconteceram —, mas não eles. Como Edwards disse: "Pode-se observar que, desde a queda do homem até os nossos dias, a obra de redenção, em seus feitos, tem sido realizada principalmente por extraordinárias comunicações do Espírito Santo". As Escrituras nos exortam a ser cheios do Espírito (Ef 5.18), a provar os espíritos (ljo 4.1) e a não extinguir o Espírito (lTs 5.19). Edwards nos ensina que os despertamentos, à semelhança dos dons, são dádivas de Deus (ICo 12.11), que não podem ser fabricados ou manipulados pelo homem, mas esperados na misericórdia e soberania de Deus.
A pobreza da reflexão moderna sobre Deus é evidente. Somos uma geração que perdeu a consciência da beleza da glória do Senhor, quando comparada com o que podemos aprender daquilo que Edwards compartilha conosco:

Deus é um Deus glorioso. Não há ninguém como ele, que é infinito em glória e excelência. Ele é o altíssimo Deus, glorioso em santidade, temível em louvores, que faz maravilhas. Seu nome é excelente em toda a terra, e sua glória está acima dos céus. Entre todos os deuses não há nenhum como ele [...]. Deus é a fonte de todo o bem e uma fonte inextinguível; ele é um Deus todo suficiente, capaz de proteger e defender [...] e fazer todas as coisas [...].Ele é o Rei da glória, o Senhor poderoso na batalha: uma rocha forte, e uma torre alta. Não há nenhum como o Deus [...] que cavalga no céu [...]: o eterno Deus é um refugio, e sob ele estão braços eternos. Ele é um Deus que tem todas as coisas em suas mãos, e faz tudo aquilo que lhe agrada: ele mata e faz viver; ele leva ao túmulo e ergue de lá; ele faz o pobre e o rico: os pilares da terra são do Senhor [...]. Deus é um Deus infinitamente santo; não há nenhum santo como o Senhor. E ele é infinitamente bom e misericordioso. Muitos outros adoram e servem como deuses, são seres cruéis, espíritos que procuram a ruína das almas; mas este é um Deus que se deleita na misericórdia; sua graça é infinita, e permanece para sempre. Ele é o próprio amor, uma infinita fonte e um oceano dele.

Franklin Ferreira

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