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10 de mar de 2010

Muita humanidade, pouca divindade




Jonathan Edwards possuía um discernimento profundo dessa situação diretamente ligada à ausência do teocentrismo: "Um dos grandes motivos pelos quais os pontos especulativos [da doutrina] são considerados tão irrelevantes é o fato de que a religião moderna consiste de pouco respeito pelo Ser divino e quase inteiramente da benevolência em relação aos homens'. Em outras palavras, a enfermidade que precisa ser curada é o principal empecilho para a cura.
Isso significa que o "estilo magnífico [de Jonathan Edwards] de sentir e pensar não corresponde ao nosso estilo e é inteiramente estranho ao nosso modo de vida". A seriedade absoluta de Edwards - sua "austeridade entranhada", como Thomas Chalmers a caracterizou - o torna fora de sincronia com a nossa espiritualidade loquaz, informal, caprichosa e voltada para o entretenimento. A percepção de Edwards da condição desesperadora da humanidade sem Deus é tão intensa que chega a nos tirar o fôlego. H. Richard Niehbur comentou que a consciência de Edwards a respeito da precariedade da vida o colocou numa categoria à parte: "Ele entendeu aquilo que Kierkegaard quis dizer quando descreveu a vida como caminhar sobre águas de dez mil braças de profundidade".
Precisamos de muito mais do que Benjamin Franklin

Porém, justamente nesse ponto, as dificuldades intimidantes de compreender a grande visão de Edwards acerca de Deus podem dar lugar à esperança. É possível que o empobrecimento teológico da igreja norte-americana, a precariedade da vida e o esgotamento da superficialidade "bem-sucedida" tomem a voz de Jonathan Edwards mais atraente do que foi considerada durante séculos.
Não foram poucos os que demonstraram essa esperança ao contrastar a influência de Edwards com a do seu contemporâneo Benjamin Franklin. Randall Stewart argumenta:
Franklin nos colocou no caminho que nos conduziu ao paraíso das invenções e das engenhocas modernas. Porém, agora que está se tornando assustadoramente claro que toda essa tecnologia não é capaz de nos salvar, e que ela pode muito bem nos destruir ... agora que o pára-raios de Franklin começa a parecer, em certo sentido, como um símbolo patético de orgulho e inadequação humanos, enquanto o esquadrinhamento da alma proposto por Edwards parece mais penetrante para esta geração de leitores do que, talvez, jamais tenha parecido antes, é possível que Edwards ainda se revele, que já esteja se mostrando o mais verdadeiramente útil dos dois.
Perry Miller, que afirmou não compartilhar a fé de Edwards, via a nossa condição de maneira semelhante: "[Edwards] nos faz lembrar que, embora a nossa civilização tenha escolhido vagar pelas campinas mais agradáveis para as quais Franklin nos convidou, há certas ocasiões em que, em função dos desastres ou do autoconhecimento, a ciência aplicada e The Way to Wealth [O caminho para a riqueza] de Benjamin Franklin parecem não ser uma filosofia adequada para a vida de nossa nação". Diante do início do século 21, essa declaração, feita em 1949, me parece o mais absoluto eufemismo. O pragmatismo de Franklin está teologicamente, moralmente e espiritualmente falido. E possível que justamente essa falência cultural desperte os evangélicos da insensatez da imitação.

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