Páginas

3 de fev de 2010

Jonathan Edwards - Nossa Inabilidade Moral


Uma das distinções mais importantes feitas por Edwards é aquela entre a habilidade natural e a habilidade moral. Ele também faz uma distinção entre a necessidade natural e a necessidade moral. A necessidade natural refere-se às coisas que ocorrem via força natural. A necessidade moral refere-se aos efeitos resultantes das causas morais como a força da inclinação ou motivo. Ele aplica essas distinções ao tema da inabilidade moral.
Somos ditos naturalmente incapazes de fazer alguma coisa quando não podemos fazê-la se desejarmos, porque o que é mais comumente chamado de natureza [não] a permite, ou por causa de algum defeito pendente ou obstáculo que é extrínseco à vontade; seja na faculdade do entendimento, constituição do corpo ou objetos externos. A inabilidade moral não consiste em qualquer uma dessas coisas, mas no desejo da inclinação ou na força da inclinação contrária ou no desejo dos suficientes motivos em vista, para induzir e estimular o ato da vontade ou na força dos aparentes motivos em contrário. Ou reunidos, eles podem ser resolvidos em um; e pode ser dito numa palavra, que a inabilidade moral consiste na oposição ou desejo da inclinação.
O homem pode ter o desejo de fazer coisas que ele não pode fazer por causa dos limites impostos pela natureza. Podemos desejar ser o Super-homem, capaz de pular edifícios altos num único salto, ser mais poderosos do que uma locomotiva e mais rápidos do que uma bala veloz. Mas, a não ser que nos tornemos homens de quinze milhões de dólares (aumentado dos seis milhões por causa da inflação), é altamente improvável que iremos realizar tais façanhas prodigiosas. A natureza capacita os pássaros a voarem através dos ares sem a ajuda de dispositivos mecânicos e peixes a viveram sob a água sem se afogarem. Eles são assim constituídos em suas naturezas para serem capazes de fazer essas coisas. Mas nós não temos asas e penas ou guelras e barbatanas. Essas limitações são impostas pela nossa natureza. Elas revelam uma carência ou deficiência das faculdades necessárias ou equipamentos.
A inabilidade moral também lida com uma deficiência, a carência de motivo suficiente ou inclinação. Edwards cita vários exemplos de inabilidade moral: uma mulher honrada que é moralmente incapaz de ser uma prostituta, uma criança amorosa que não tem vontade de matar seu pai, um homem lascivo que não pode controlar a sua luxúria.
Devido à inabilidade moral do homem, a vontade não pode deixar de ser livre. A vontade é sempre livre para agir de acordo com o motivo mais forte ou inclinação no momento. Para Edwards, isso é a essência da liberdade. Ser capaz de escolher o que se deseja é ser livre nesse sentido. Quando digo que a vontade não pode deixar de ser livre, quero dizer que a vontade não pode escolher contra sua inclinação mais forte. Ela não pode escolher o que não deseja escolher. Edwards refere-se ao significado comum de liberdade: "...aquele poder e oportunidade de alguém fazer e conduzir como deseja, ou de acordo com a sua escolha". A palavra nada diz sobre "a causa ou origem desta escolha".
Edwards observa que arminianos e pelagianos têm um significado diferente para o termo liberdade. Ele relaciona alguns aspectos dessa definição:
1.Ela consiste num poder autodeterminante ou uma certa soberania que a vontade tem sobre si mesma, segundo a qual determina suas próprias volições.
2.A indiferença pertence à liberdade prévia ao ato da volição, in equilíbrio.
3.A contingência pertence à liberdade e é essencial a ela. A não ser que a vontade seja livre nesse sentido, ela não é considerada livre de forma alguma.
Edwards então mostra que a noção pelagiana é irracional e conduz a um retrocesso infinito da determinação:
...Se a vontade determina a vontade, então a escolha ordena e determina a escolha: e atos de escolha estão sujeitos à decisão e seguem a conduta de outros atos de escolha. Conseqüentemente, se a vontade determina todos os seus próprios atos livres, então cada ato livre de escolha é determinado por um ato prévio de escolha, escolhendo aquele ato. E se aquele ato prévio da vontade ou escolha for também um ato livre, então, por esses princípios, nesse ato também, a vontade é autodeterminada; isto é, semelhantemente, isso é um ato que a alma escolhe voluntariamente.... O que nos leva diretamente a uma contradição uma vez que supõe um ato de vontade anterior ao primeiro ato em toda a série, dirigindo e determinando o resto; ou um ato livre de vontade anterior ao primeiro ato livre de vontade. Se não, devemos chegar a pelo menos um ato de vontade determinando os atos seguintes, no qual a vontade não é autodeterminada e, assim, não é um ato livre... mas se o primeiro ato na série... não for livre, nenhum deles pode ser livre....
...se o primeiro não é determinado pela vontade e, assim, não é livre, então nenhum deles é verdadeiramente determinado pela vontade....30
Edwards diz que a idéia de uma vontade indiferente é absurda. Em primeiro lugar, se a vontade age a partir de um ponto de vista de indiferença, não tendo motivo ou inclinação, então como a escolha pode ser moral? Se as escolhas são totalmente arbitrárias e tomadas sem nenhuma razão ou motivo, como elas diferem das ações involuntárias, ou da mera resposta das plantas, animais ou corpos decadentes?
Em segundo lugar, se a vontade é indiferente, como pode haver uma escolha? Se não há motivo ou inclinação, como uma escolha pode ser feita? Ela requer um efeito sem uma causa. Por essa razão, Edwards trabalha a questão de se a volição pode, possivelmente, originar-se sem uma causa, pela atividade da natureza da alma. Para Edwards, "o nada é privado de escolha"31 é um axioma. "A escolha ou preferência não pode estar antes de si mesma, no mesmo exemplo, seja na ordem do tempo ou na natureza", ele diz. "Ela não pode ser a base de si mesma, ou o fruto ou conseqüência de si mesma".
Aqui Edwards aplica a lei da não-contradição à visão pelagiana e arminiana do livre-arbítrio e mostra que ela é absurda. A indiferença só pode suspender as escolhas, não criá-las. Criá-las seria um ato ex nihilo, não apenas sem uma causa material, mas também sem uma causa suficiente ou eficiente.
Edwards, então, trabalha com várias objeções comuns à visão agostiniana, mas não lidaremos com elas aqui. Concluímos resumindo a visão de Edwards sobre o pecado original. O homem é moralmente incapaz de escolher as coisas de Deus a não ser ou até que Deus mude a disposição da sua alma. A inabilidade moral do homem é devida a uma carência e deficiência críticas, a saber, o motivo ou desejo pelas coisas de Deus. Por si mesmo, o homem nunca irá escolher a Cristo. Ele não tem inclinação para fazer isso em seu estado caído. Uma vez que ele não pode agir contra sua inclinação mais forte, ele nunca irá escolher a Cristo a não ser que Deus, primeiramente, mude a inclinação da sua alma por meio de uma obra imediata e sobrenatural de regeneração. Só Deus pode libertar o pecador da escravidão das suas próprias inclinações más.
Assim como Agostinho, Lutero e Calvino, Edwards argumenta que o homem é livre porque pode e, de fato, escolhe o que deseja ou é inclinado a escolher. Mas o homem carece do desejo por Cristo e pelas coisas de Deus até que Deus crie em sua alma uma inclinação positiva para essas coisas. 


R. C. Sproul

1 comentários:

Silvana Abreu disse...

Estou estudando Pelágio e Arminio, mas Jonathan Edwards foi bem mais profundo que Lutero e Calvino e levou a questão do mal para além da carne e foi para o ponto certo que a mente humana, essa vontade "pervertida" que herdamos que é incapaz de escolher a Cristo. Perfeito se não fosse sua crença no pecado original como se encontra nas ideias de Agostinho, das quais sou estritamente contra, de que somos culpados diante de Deus por esse "defeito" na incapacidade de escolher o bem.
Meu blog: www.conhecerjesus.blogspot.com

4 de dezembro de 2011 18:44

Postar um comentário

 
Jonathan Edwards | by ©2010