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14 de fev de 2010

A diferença entre fim "supremo" e fim "principal" - J. Edwards

[1] Com o intuito de evitar qualquer confusão nas investigações acerca do fim para o qual Deus criou o mundo, deve-se observar uma distinção entre o fim principal com o qual um agente realiza algum trabalho e o fim supremo. Essas duas expressões nem sempre possuem exatamente o mesmo significado e, apesar de o fim principal ser sempre um fim supremo, nem todo fim supremo é sempre um fim principal. Um fim principal é o oposto de um fim inferior e um fim supremo é o oposto de um fim subordinado.
Fins "subordinados" são os meios usados para alcançar fins "supremos"

[21 Um fim subordinado é aquilo que um agente tem como objetivo, não em função desse próprio fim, mas sim em função de um fim ulterior do qual o primeiro é considerado um meio. Assim, quando um homem sai [para] uma viagem com o propósito de conseguir um medicamento para restaurar a sua saúde, a obtenção desse medicamento é o seu fim subordinado, mas não o fim que ele estima em si mesmo, considerando-o antes, inteiramente, um meio de alcançar um fim ulterior, ou seja, a saúde. Se o medicamento for separado desse fim ulterior, não será, de modo algum, desejado.
[3] Um fim supremo é aquele que o agente busca, no que ele faz, por si mesmo; é o que ele ama, valoriza e tem prazer por si mesmo, e não apenas como um meio de alcançar um fim ulterior. E o caso, por exemplo, de um homem que gosta do sabor de determinado tipo de fruta e despende esforços e recursos para obtê-la visando o prazer daquele sabor que ele estima de per si, do mesmo modo que estima o seu próprio prazer, e não visando a outro benefício que suponha ser possível obter por meio desse deleite.
[4] Alguns fins são subordinados não apenas a um fim supremo, mas também a outro fim, que é subordinado. Por certo, pode haver uma sucessão ou cadeia de vários fins subordinados, um dependente do outro, um sendo buscado por causa do outro, antes de se chegar a qualquer coisa que seja o objetivo do agente e que seja buscada por si mesma. É o caso, por exemplo, de um homem que vende uma peça de roupa para conseguir dinheiro - a fim de comprar implementos - para arar a sua terra - para obter uma safra - a fim de supri-lo com alimentos - para satisfazer o apetite. Ele procura satisfazer o seu apetite de per si, como algo que é, em si mesmo, grato. Aqui, o fim para o qual ele vendeu a peça de roupa para conseguir dinheiro não é outra coisa senão um fim subordinado, e não apenas para o fim supremo - a satisfação do seu apetite -, mas para um fim contíguo, uma vez que a compra e a obtenção de implementos agrícolas são apenas fins subordinados, com o objetivo de arar a terra. A aragem da terra não é um fim buscado de per si, mas sim com o objetivo de produzir uma safra; a safra produzida, por sua vez, é um fim buscado apenas para fazer o pão; e o pão é feito para satisfazer o apetite.
[5] Nesse caso, a satisfação do apetite é chamada de fim supremo, pois é o final da cadeia na qual se encontra o objetivo final do homem. Assim, sempre que um homem chega àquilo que deseja e cessa a busca, sendo o objeto do seu desejo algo valorizado por si mesmo, alcança um fim supremo, quer a cadeia seja mais longa, quer mais curta, mesmo que haja somente um elo ou um passo a ser dado antes de se chegar a esse fim. É o que acontece, por exemplo, quando um homem que gosta muito de mel coloca um pouco deste na boca por causa do prazer do sabor, sem ter outro objetivo. Assim, um fim visado por um agente pode ser tanto imediato quanto supremo; seu próximo fim e seu fim último. O fim que é buscado de per si, e não por causa de outro fim, é um fim supremo; nele, o propósito do agente se detém e cessa.3
[6] Uma coisa que é buscada pode ter a natureza de um fim supremo e também de um fim subordinado, do mesmo modo como pode ser buscada parcialmente em razão de si mesma e, parcialmente, visando a um fim ulterior. Assim, um homem pode, naquilo que faz, buscar o amor e o respeito de determinada pessoa, em parte de per si, pois lhe é agradável ser o objeto da estima e do amor de outros e, em parte, porque espera, por meio da amizade dessa pessoa, receber o auxílio dela em outras questões e, desse modo, ser colocado numa posição de vantagem para alcançar fins ulteriores.
Dos fins "supremos", o fim "principal" ou "transcendente" é o mais valorizado

[7] Um fim  principal, que é oposto a um fim inferior, é algo distinto de um fim supremo; ele é extremamente valorizado e, portanto, buscado com muito afinco pelo agente. É evidente que um fim mais estimado do que outro não é exatamente a mesma coisa que um fim estimado acima de todos, ou em si mesmo. Esse fato fica claro ao se considerar que:
[8] Dois fins diferentes podem ser supremos e, no entanto, não ser principais. Ambos podem ser estimados de per si e buscados mediante o mesmo esforço ou ato e, mesmo assim, um pode ser mais estimado do que o outro e buscado mais do que o outro. Por conseguinte, um homem pode sair [para] uma viagem com o propósito de obter dois benefícios ou prazeres, considerando ambos agradáveis em si mesmos e, no entanto, um pode ser muito mais agradável do que o outro, consistindo, portanto, naquilo a que ele se dedicará acima de tudo. Assim, um homem pode sair [para] uma viagem para pedir em casamento uma moça que lhe é extremamente querida e, também, para satisfazer a sua curiosidade de conhecer um telescópio ou algum instrumento óptico recém-inventado, sendo um fim não propriamente subordinado ao outro e, portanto, ambos podendo ser fins supremos. No entanto, obter a noiva amada pode ser o seu fim principal, enquanto o benefício de usar o instrumento óptico pode ser o seu fim inferior.
[9] Nem sempre um fim supremo é um fim principal, pois alguns fins subordinados podem ser mais estimados e buscados do que alguns fins supremos. Assim, um homem pode, por exemplo, ter dois objetivos em sua viagem: visitar amigos e receber uma grande soma de dinheiro. Este último pode não passar de um fim subordinado; o homem pode não estimar a prata e o ouro de per si, mas apenas por causa dos prazeres, satisfação e honra que estes proporcionam; o dinheiro é estimado apenas como um meio para obter alguma coisa. No entanto, a obtenção do dinheiro pode ser mais valorizada - e, portanto, ser um fim transcendente de sua viagem - do que o prazer de ver os seus amigos, embora esse último seja valorizado em si mesmo e, portanto, seja um fim supremo.

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