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27 de jan de 2010

O Segredo de Janathan Edwards




É assombroso o novo interesse por Jonathan Edwards durante os últimos 40 anos, pouco mais, pouco menos. Posso ilustrar isso com a minha própria experiência. Pouco antes de entrar no mi­nistério em 1927, procurei ajuda, quanto à leitura, de um amigo meu que, fazia pouco tempo, havia se graduado com honra em teologia na Universidade de Oxford. Ele recomendou grande numero de livros que estivera lendo com vistas à sua gradua­ção. Entre os livros havia um intitulado Pensamento Protestante Antes de Kant ("Protestant Thought before Kant"), de autoria de um homem chamado McGiffert. A única coisa que me impressionou naquele livro foi um capítulo sobre um homem chamado Jonathan Edwards, apesar de ser tratado como filósofo. Mas o meu interesse foi despertado imediatamente. Na próxima vez que me encontrei com o meu amigo, perguntei: "Você pode, me dizer onde poderei encontrar mais alguma coisa sobre Jonathan Edwards?" "Quem é ele?", disse o outro. Ele não sabia nada sobre Edwards, e apesar de eu fazer muita pesquisa, não pude achar ninguém que me dissesse algo sobre Edwards ou sobre as suas obras. Só uns dois anos mais tarde, casualmente, achei os dois volumes das obras completas de Jonathan Edwards, que comprei então por cinco xelins. Foi como o homem da parábola do nosso Senhor, que achou uma pérola de grande valor. Sua influência sobre mim não posso expressar com palavras.


Todavia, daquele tempo em diante, e começan­do no princípio da década de 1930, houve um despertamento do interesse por Edwards, de ma­neira a mais assombrosa. O professor Perry Miller é grandemente responsável por isso, mas não é o único. Parece que todo ano surgem livros sobre Jonathan Edwards. Há dois homens que passam suas férias na biblioteca da Universidade de Yale examinando cuidadosamente os sermões manus­critos de Jonathan Edwards. Noutras palavras, eles estão reeditando as obras completas de Edwards -uma edição definitiva. Tive o privilegio de encon­trar-me com esses dois homens em 1967 e de manusear alguns dos manuscritos dos sermões desse grande homem. Os dois volumes recente­mente reimpressos pela Banner of Truth Trust muitas vezes têm sido considerados como sendo as Obras Completas, contudo não são. Um homem publicou na década de 1860 um livro que consiste de numerosas outras coisas que não estão naqueles dois volumes, e existem mais - sermões, cartas, anotações ocasionais, miscelâneas, e assim por diante. Tudo vai ser publicado na edição definitiva.


A explicação desse fato espantoso é, natural­mente, que, entre outras coisas, Jonathan Edwards é o maior filósofo da América. Todos parecem admitir isso e, assim, estão interessados nele. Gos­taria de dizer uma palavra de advertência neste ponto: vocês precisam exercer discriminação quan­do lerem alguns desses livros mais recentes sobre Jonathan Edwards. Vários deles são escritos por professores de literatura inglesa, outros por filóso­fos; e eles estão interessados nele mormente como um grande pensador, como um grande escritor, como um homem que exerceu dominadora influên­cia ate sobre a literatura dos Estados Unidos e que, em certo sentido, foi um precursor do movimento romântico da literatura inglesa. Mas, como muitos desses homens não são cristãos, tendem, inconsci­ente e involuntariamente, a interpretá-lo mal e a descrevê-lo mal. Por isso devem ser lidos com discernimento. Entretanto estou chamando a aten­ção para o fato de que esse homem admirável, que morreu há mais de 200 anos, ainda exerce esta poderosa influência sobre o pensamento vivo da América, como o fez através do século passado. Naturalmente, ele dividiu a opinião. Ele tem sido denunciado sem medida. Oliver Wendell Holmes, por exemplo, escreve sobre Jonathan Edwards assim: "Edwards tinha uma teologia cujas raízes estavam nas maiores profundezas do inferno", e escrevia numa "linguagem que choca a sensibilida­de de uma geração mais recente". Ele continua dizendo: "Tivesse Edwards vivido mais tempo, não tenho dúvida de que o seu credo teria abranda­do, tornando-se uma crença amável, humanizada". Noutras palavras, Edwards teria escrito o tipo de literatura que se vê em O Autocrata à Mesa do Desjejum ("The Autocrat at the Breakfast Table"). Graças a Deus, temos Edwards como ele é, não como Oliver Wendell Holmes, o humanista, que nunca entendeu Edwards de jeito nenhum, gostaria que ele fosse.


Clarence Darrow, o homem que defendeu aque­le mestre-escola, Scopes, que foi perseguido por ensinar evolucionismo no início da década de 1920, e que se levantou contra William Jennings Bryan no famoso "julgamento de macaco", escreveu: "Não é surpreendente que a principal ocupação de Edwards no mundo era assustar mulheres tolas e crianças, e blasfemar o Deus que ele professava adorar... Nada, senão uma mente perturbada ou enferma, poderia produzir o seu Pecadores nas Mãos de Um Deus Irado ("Sinners in the Hands of an Angry God")". Citei isso por causa dessa alusão ao sermão pregado por Edwards, com o título Pecadores nas Mãos de Um Deus Irado. Vocês podem ouvir não infreqüentes referencias a esse sermão na televisão e alhures. O fato é que, segun­do parece, tudo o que a maioria sabe sobre Edwards é que uma vez ele pregou um sermão com esse título. Isso é tudo que as pessoas sabem a respeito dele, e provavelmente nem leram aquele sermão. Apenas vão repetindo o que os outros dizem a respeito, e ele é considerado, como se conclui das palavras de Oliver Wendell Holmes, como nada mais que uma agressão, uma bombástica agressão à sensibilidade, e como uma violência à razão, e tudo mais. Está claro que isso é completamente ridículo.


Quem quer que saiba algo sobre Jonathan Edwards sabe que ele estava tão longe quanto é possível um homem estar de ser um orador bom­bástico. Mas ele disse algumas coisas muito fortes e alarmantes, passíveis de serem mal entendidas. O próprio Edwards deu resposta àquela crítica. Diz ele: "Outra coisa da qual alguns ministros têm sido muito acusados, e penso que injustamente, é de transmitir grande terror aos que já estão aterroriza­dos, em vez de animá-los. Na verdade, se em tais casos os ministros andarem aterrorizando as pesso­as com algo que não é verdadeiro, ou procurando atemorizá-las descrevendo a situação delas pior do que é, ou modificando-a nalgum aspecto, deverão ser condenados; não obstante, se as aterrorizam tão-somente pelo fato de lançarem mais luz sobre elas, e de as fazerem entender mais da sua situação, deverão ser completamente justificados. Quando as consciências são grandemente despertadas pelo Espírito de Deus, é-lhes comunicada alguma luz, capacitando os homens a enxergarem a sua situa­ção, nalguma medida, como ela é; e, se lhes for dirigida mais luz, esta os aterrorizará ainda mais. Contudo, os ministros não deverão, portanto, ser condenados por seu empenho em lançar mais luz à consciência, em vez de lhes aliviar a dor sob a qual se acham interceptando e obstruindo a luz que já brilha. Dizer qualquer coisa aos que jamais creram no Senhor Jesus Cristo, descrever a situação deles doutro modo, senão que é extraordinariamente terrível, não é pregar-lhes a Palavra de Deus; pois a Palavra de Deus só revela a verdade; mas isso é iludi-los" (Vol. 1,392). Noutras palavras, Edwards cria que a Bíblia diz coisas terríveis sobre quem morre em seus pecados. Isso era tudo que Edwards fazia. Era puro argumento com as palavras das Escrituras. Não era o que Edwards dizia; era o que as Escrituras diziam; e ele achava que era seu dever advertir as pessoas. Mas ele suavizou isso, dizen­do: "Sei de um caso apenas em que a verdade deve ser sustada e não dita aos pecadores aflitos em sua consciência, o que se deve dar em caso de melan­colia; e eles deverão ser poupados dela, não como se a verdade tendesse a feri-los, e sim porque, se lhes falarmos a verdade, poderão as vezes ser enganados e levados ao erro pela estranha disposi­ção que há neles de entender mal as coisas" (Vol. 1, 392). Noutras palavras, ninguém estava mais longe da violência de um bombástico evangelista itinerante, do que Jonathan Edwards. Essa é a defesa que se deve fazer quando se ouvem pessoas referindo-se a ele como aquele homem terrível que pregou um sermão sobre Pecadores nas Mãos de um Deus Irado.


Estudemos agora esse homem que teve tão duradoura influência e  que parece estar se tornando outra vez uma influência dominadora no pensa­mento religioso da América. Confesso com franqueza que esta é uma das tarefas mais difíceis que já tentei em toda a minha vida. O tema é quase impossível, e em grande parte, pela razão que já dei, a saber, a influência de Edwards sobre mim. Re­ceio, e o digo com muito pesar, que devo colocá-lo adiante até de Daniel Rowland e de George Whitefield. De fato eu tentei, talvez tolamente, comparar os puritanos com os Alpes, Lutero e Calvino com o Himalaia, e Jonathan Edwards com o Monte Everest! Ele sempre me pareceu ser o homem mais semelhante ao apostolo Paulo. Natu­ralmente, Whitefield foi um grande e poderoso pregador, como o foi Daniel Rowland, mas Edwards o foi também. Nenhum deles teve o intelecto, nenhum deles teve a compreensão da teologia que Edwards teve, nenhum deles foi o filósofo que ele foi. Ele sobressai, parece-me, inteiramente pelo que ele é, entre os homens. Assim, a tarefa que me confronta, se posso seguir a minha analogia do Monte Everest, será decidir se devo abordá-lo pelo passo sul ou pelo passo norte. Há muitos meios de abordar aquele grande pináculo; mas não é só isso, a atmosfera é tão espiritualmente rarefeita, e há este fulgurante brancor da santidade do homem mesmo, e a sua grande ênfase à santidade e à glória de Deus; e acima de tudo a fraqueza do pequeno alpinista quando encara este altíssimo pico que aponta para o céu. Tudo que posso esperar fazer é dar-lhes alguns vislumbres deste homem e da sua vida, e do que ele fez, com o fim e objetivo culminante de persuadir cada um a comprar estes dois volumes das suas obras, e a lê-los!


Comecemos com o homem propriamente dito. A primeira coisa que se deve dizer é que ele foi um fenômeno. Aí está esse homem criado naquele país ainda não desenvolvido. Naturalmente havia gente capaz por lá, e já havia escolas - Harvard e Yale existiam. Mas não o explicam. Ele nasceu numa região relativamente isolada e, todavia, ele sobres­sai como um consumado gênio, pondo em ridículo quaisquer noções de evolução, ou a teoria dos caracteres adquiridos, e assim por diante. Diversa­mente da maioria dos outros homens sobre os quais estivemos ouvindo nesta Conferência, ele não este­ve nem em Oxford nem em Cambridge. Ele era um intelecto vigoroso, capaz de um súbito espocar de florescência, original, acompanhado de brilhante imaginação, admirável originalidade, porém, aci­ma de tudo, de honestidade. Ele é um dos mais honestos escritores que já li. Nunca foge de um problema; enfrenta-os todos. Nunca fica rodeando uma dificuldade; ele tinha esse curioso interesse pela verdade em todos os seus aspectos, e depois, com todos aqueles dotes cintilantes, há a sua humil­dade e modéstia e, somada a isso, a sua excepcional espiritualidade. Ele sabia mais da religião experi­mental do que a maioria dos homens; e dava grande ênfase ao coração. Noutras palavras, o que toca a gente, quanto a Edwards, quando se olha para o homem como um todo, é a inteireza, o equilíbrio. Ele era ao mesmo tempo um vigoroso teólogo e um grande evangelista. Quão tolos nos tornamos nós! Este homem era ambas as coisas, como o fora o apóstolo Paulo. Ele foi também um grande pastor; cuidava das almas e dos seus problemas. Era igual­mente hábil com os adultos e com as crianças. Era um grande defensor da conversão das crianças, e dava grande atenção às crianças, permitindo-lhes até que tivessem suas próprias reuniões. Ele parece que é tudo e que é perfeitamente equilibrado. Ele se opunha ao hiper-calvinismo, e igualmente se opu­nha ao arminianismo. Esse elemento de equilíbrio em seu ensino e em sua posição é demonstrado na seguinte afirmação: "Na graça eficaz não somos meramente passivos, nem ainda Deus faz um pou­co e nós fazemos o restante. Mas Deus faz tudo, e nós fazemos tudo. Deus produz tudo, e nós agimos em tudo. Pois é isso que ele produz, isto é, os nossos atos. Deus é o único verdadeiro autor e a única verdadeira fonte; nós somos tão-somente os verda­deiros agentes. Somos, em diferentes aspectos, totalmente passivos e totalmente ativos" (Vol. 2, 557, parágrafo 64).


Pois bem, essa era a posição de Edwards, e notamos este elemento de equilíbrio que estou salientando. Não há contradição ali; o antinômio final é apresentado perfeitamente.


Então, qual era o segredo deste homem? Não hesito em dizer isto: nele, sempre o espiritual dominava o intelectual. Creio que ele deve ter tido uma grande luta com o seu elevado intelecto e com o seu pensamento original. Além disso, era um leitor voraz e, para um homem como esse, teria sido a coisa mais simples do mundo tornar-se um puro intelectual, como Oliver Wendell Holmes, Perry Miller e muitos outros queriam que ele se tornasse. No entanto, como eles o expressavam, a teologia mantinha o comando. Ora, isso constitui a glória especial desse homem - e é isso que o explica -que ele sempre mantinha a sua filosofia e as suas especulações subservientes à Bíblia e as considera­va simples servas. Fosse o que fosse que ele tentasse pensar, a Bíblia era suprema: tudo estava subordi­nado a Palavra de Deus. Todos os seus ricos e brilhantes dons não somente eram mantidos como subservientes, e sim eram usados como servos. Noutras palavras, ele era dominado por Deus. Alguém disse dele que "ele combinava uma apai­xonada devoção com uma mente profundamente completa".


Martyn Lloyd-Jones

2 comentários:

Kadosh disse...

Paz e graca.. Quais os livros de Jonathan Edwards que vc ja leu? Quais sao os livros dele que foram traduzidos e interpretados por outra mente crista? E quais sao os livros dele traduzido por homens nao cristao mas que respeita a forma original dos sermoes? Obrigado aguardo seu retorno meu imail e denizeyy@hotmail.com. Paz do nosso SENHOR JESUS CRISTO!

11 de março de 2012 10:37
Rawl FAS disse...

Estou concluindo um curso de graduação em Letras Inglês e meu trabalho de conclusão de curso é sobre Jonathan Edwards e sua importância para a literatura americana. Gostaria de indicações de material que pudessem me ajudar nisso. Um grande abraço. Meu e-mail é: prrafas@hotmail.com

17 de junho de 2012 07:20

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