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29 de jan de 2010

Amor Infinito por Si Mesmo - Jonathan Edwards


Deus se coloca acima de tudo. Minha intenção é mostrar de que maneira o seu amor infinito por si mesmo e seu deleite em si mesmo o levam naturalmente a estimar essas coisas e se deleitar nelas, ou, ainda, de que maneira a estima por elas fica implícita na estima pela plenitude infinita de bem que há nele.
Ao se deleitar no exercício de sua capacidade,
Deus se deleita em si mesmo e faz de si mesmo o seu fim

No tocante à primeira das particularidades mencionadas - a deferência de Deus para com o exercício desses atributos de sua natureza que, em suas devidas operações e resultados, consiste numa capacidade de realizar tais operações - não é difícil imaginar que a deferência de Deus para consigo mesmo e a estima de suas perfeições devem levá-lo a estimar os exercícios e expressões desses atributos, visto que a sua excelência consiste na relação de tais atributos com o uso, o exercício e a operação deles. O amor de Deus por si mesmo e por seus atributos o leva, portanto, a deleitar-se naquilo que é o uso, o fim e a operação desses atributos.

 Se uma pessoa tem muito estima e se deleita nas virtudes de um amigo - como sua sabedoria, justiça, etc. - relacionadas à ação, isso a levará a se deleitar no exercício e nos resultados autênticos dessas virtudes. Assim, se Deus estima e se deleita nas próprias perfeições e virtudes, não pode evitar estimar e se deleitar nas expressões e nos resultados autênticos delas. Assim, ao se deleitar nas expressões de suas perfeições, ele manifesta um deleite por si mesmo, e, ao tornar as expressões das próprias expressões o seu fim, ele faz de si mesmo o seu fim.
Ao se deleitar no fato de sua glória ser
conhecida e desfrutada, Deus se deleita em si mesmo
e faz de si mesmo o seu fim

E, com respeito à segunda e terceira particularidades, a questão é igualmente clara, tendo em vista que aquele que ama qualquer ser e apresenta disposição de ter suas virtudes e perfeições em alta consideração e se deleitar grandemente nelas, deve, em razão da mesma disposição, ter muito prazer em fazer que suas excelências sejam descobertas, reconhecidas, estimadas e apreciadas por outros. Aquele que ama qualquer coisa também ama, naturalmente, a aprovação de tal coisa e se opõe à desaprovação desta. É o que acontece quando alguém ama as virtudes de um amigo. Também é o que acontece, necessariamente, quando um ser se ama e aprecia grandemente as próprias excelências. Assim, é apropriado que ele se ame desse modo e estime as próprias qualidades preciosas. Ou seja, é apropriado que ele se deleite em que suas excelências sejam vistas, reconhecidas e desfrutadas. É algo que fica implícito no seu amor por si mesmo e por suas perfeições, e, ao fazer disso o seu fim, ele faz de si mesmo o seu fim.
Em sua disposição de fazer sua plenitude transbordar, Deus faz de si mesmo o seu fim

 E, a respeito da quarta e última particularidade, ou seja, a de que Deus apresenta uma disposição para a comunicação copiosa e emanação gloriosa da plenitude infinita de bem que ele possui e, igualmente, do seu conhecimento, suas excelências e felicidade, ao se considerar a questão com toda a atenção, fica evidente que, nisso também, Deus faz de si mesmo o seu fim para manifestar claramente e dar testemunho de uma deferência máxima e suprema para consigo mesmo.

A disposição geral de transbordar em sua plenitude precede e alicerça a existência das criaturas

Tomando como base apenas essa disposição de causar uma emanação de sua glória e plenitude - que são anteriores à existência de qualquer ser e devem ser consideradas os motivos que o impeliram a dar existência a outros seres -, não se pode dizer propriamente que Deus fez da criatura o seu fim, do mesmo modo que fez de si mesmo. Porquanto, nesse momento, a criatura ainda não é considerada existente. Essa disposição ou desejo de Deus deve ser anterior à existência da criatura, deve estar presente de antemão, pois é a base original da existência futura, projetada e ante vista da criatura.
 A benevolência de Deus, no tocante à criatura, pode ser considerada num sentido mais amplo ou em outro mais restrito. Num sentido mais amplo, é possível que se refira simplesmente à boa disposição de sua natureza de comunicar sua plenitude em geral, [como] seu conhecimento, sua santidade e felicidade e fazer as criaturas existirem a fim de receberem tal comunicação. Pode-se chamar isso de benevolência ou amor, pois é a mesma disposição favorável exercitada no amor. É a fonte da qual o amor, no seu sentido mais exato, se origina e tem a mesma inclinação geral e o mesmo resultado no bem-estar da criatura. No entanto, não pode apresentar qualquer existência criada presente ou futura particular para o seu objeto, pois é anterior a qualquer objeto e a própria fonte da futurição [isto é, do vir a ser] de sua existência. Na verdade, também não é diferente do amor de Deus por si mesmo, como ficará mais claro adiante.

O amor de Deus pode, ainda, ser considerado num sentido mais estrito do que a disposição geral de comunicar o bem, voltando-se, nesse caso, para determinados objetos. No sentido mais estrito e correto, o amor pressupõe a existência de um objeto amado, pelo menos como conceito e expectativa, representado na mente com referência ao futuro. Deus não amou os anjos no sentido mais estrito, mas em decorrência de sua intenção de criá-los e, portanto, em função do conceito de anjos que viriam a existir. Logo, o seu amor por eles não foi exatamente o que estimulou nele a intenção de criá-los. O amor ou a benevolência, considerado em termos mais estritos, pressupõe um objeto existente, do mesmo modo que a compaixão [pressupõe] um objeto miserável e sofredor. 

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